A destreza das dúvidas

Letras económicas
Fernando AlexandreNovember 24, 2009 10:42 pm

por Paulo Rabello de Castro
Publicado na revista Época de 15 de novembro de 2009

Faz um ano que o povo americano viu sua economia desabar. De lá para cá, apesar da aplicação de choques poderosos, na voltagem de mais de 2 trilhões de dólares, se somados os planos de socorro aos de estímulo, a produção recuou forte e mais 3 milhões de desempregados se juntaram às filas de assistência. Obama havia prometido segurar o desemprego, “criando ou mantendo 4 milhões de postos de trabalho”. A realidade operou para desmentir o presidente. A linha do desemprego, de 10,2% e ainda subindo, é a maior do pós-guerra.

Novas propostas de estímulo chegam à mesa de Obama todos os dias. O perplexo presidente é pressionado a dobrar a aposta no aumento dos gastos de governo, como uma espécie de solução mágica keynesiana para a falta de apetite dos consumidores. Mas o afrouxamento monetário e fiscal, traduzido em emissões descomunais e um déficit orçamentário recorde em 2009, apenas assegura o agravamento da instabilidade do dólar como moeda de aceitação universal. Esse tipo de filme já passou antes, quando os EUA enfrentaram o rescaldo do Vietnam e os choques de preço do petróleo nos anos 70. Foi preciso dominar uma inflação brava e a fórmula adotada por Paul Volcker nada teve de keynesiana: juros de dois dígitos e muita teimosia contra os apelos do mercado financeiro, que queria o relaxamento das medidas.

(more…)

Fernando AlexandreNovember 23, 2009 12:50 pm

por Paulo Rabello de Castro
Rio de Janeiro, 9 de novembro de 2009

O anúncio da taxa de desemprego de 10,2% nos EUA –– ou de 17,5% se computados os que vivem de bicos e os desalentados –– evidenciou a fragilidade da sua recuperação. Na Grande Depressão, dos anos 30, a taxa de desemprego circulou em torno de 20%, mas naquele tempo não se recebia o cheque do seguro-desemprego em casa. Fazia-se fila à porta das fábricas e nos pontos de distribuição de sopão. O tratamento mais digno e inteligente aos desempregados não significa, porém, uma vantagem da situação de hoje frente ao quadro doloroso na década de trinta. Até 2011, pelo menos, assistiremos a um quadro de riscos extremos para os americanos. E os desdobramentos, para quem deles dependa?

A armadilha do Federal Reserve, o banco central dos EUA, é do tipo “se correr,  o bicho pega, se ficar, o bicho come”. Como um barquinho levado pela maré para o alto mar, o FED deixou a economia deslizar pelas águas ainda calmas da baía, tocada pelo juro negativo e pelo valor cadente do dólar. O monumental déficit fiscal causado pelos planos de estímulo e socorro tenta resgatar o impulso ao gasto, mas o efeito principal desses planos de intervenção é causar uma alta especulativa nas bolsas e nos mercados de commodities, onde a liquidez do fraturado sistema financeiro se concentra. Especular virou atividade subsidiada pela política monetária e pelos contribuintes. Mas o destino do barco é a boca do alto mar, onde águas turbulentas levarão os passageiros de novo ao pânico.   Tal descrição nada tem de sombria ou exagerada: revela apenas o que normalmente não é dito nem publicado. Não é a versão, digamos, oficial da crise. De fato, marchamos para uma “rebolha” de ativos hiper-valorizados e que pode estourar a qualquer momento, à medida que os fundos se desfaçam de suas posições compradas, por temor de uma mudança de Ben Bernanke em relação à fraqueza do dólar.

Se ocorrer um novo ataque especulativo, desta vez será contra o dólar dos EUA. O endividamento do conjunto da sociedade americana, incluindo governo, empresas, famílias e setor financeiro, atingiu um nivel próximo a quatro vezes o total da sua produção (PIB). Tal proporção de 400% do PIB nunca antes havia sido alcançada, mesmo para financiar o esforço de guerra. Desta vez, o atoleiro de dívidas é geral. Esta é a diferença fatal. Nesse cenário, tipicamente brasileiro dos anos 80, que conhecemos tão bem, a economia americana avançará devagar e os especuladores estarão sempre prontos a apostar contra a política do FED. Quanto mais munição se lhes der, mais força terão para derrubar as comportas do dique de contenção. A munição é a liquidez abundante que o FED lhes serve agora, e a especulação tomará a forma de inflação repentina.

A inflação tem um sentido purgativo. É a forma politicamente indolor de se atribuir um imposto a quem detém dólares ou ativos equivalentes. A inflação reduz o valor real das dívidas do governo e dos indivíduos. Mas quando os preços se mexerem, o FED será obrigado a correr atrás do prejuízo maior, que é a perda da confiança no dólar como reserva de valor. Daí a armadilha citada, da qual resultará nova alta de juros e o empurrão no barco para as ondas de alto mar, com outra sequência de destruição de postos de trabalho.

A política econômica atual, no Brasil, não dá mostras de estar prevenida para um desfecho de cenário negativo em 2010. Pelo contrário, só se cogita da alternativa positiva, o que é psicologicamente muito bom, mas prudencialmente muito ruim. O Brasil não tem pára-choques contra uma segunda trombada que atinja de frente a frágil “recuperação” dos EUA e que, de tabela, interfira no delicado equilíbrio mantido até agora pela China, nossa principal compradora e razão última do sucesso que tivemos neste País até aqui. A valorização intensa do real nas semanas recentes é sinal inequívoco de que a euforia nos tomou conta. Riscos ampliados à frente.

Fernando AlexandreNovember 4, 2009 2:51 pm

Por Fernando Alexandre, Pedro Bação, João Cerejeira e Miguel Portela

A economia portuguesa não escapou ao processo de desindustrialização que desde o início dos anos 80 afectou a maioria dos países desenvolvidos: de acordo com a OCDE, entre 1988 e 2006 a percentagem da população activa a trabalhar na indústria em Portugal diminuiu de cerca de 25% para 18%. Na figura 1, que apresenta a evolução naquele período do peso das manufacturas, por nível de tecnologia, no emprego total por conta de outrem, podemos ver que a desindustrialização em Portugal incidiu exclusivamente nas indústrias de baixa e média-baixa tecnologia. As manufacturas perderam cerca de 150 mil empregos entre 1988 e 2006, o que no essencial corresponde aos empregos perdidos no sector do têxtil e calçado. No entanto, apesar destas perdas de emprego, deve salientar-se que, em 2006, os sectores de baixa e média-baixa tecnologia ainda representavam mais de 80% do emprego total por conta de outrem nas manufacturas.

(more…)

Fernando AlexandreNovember 2, 2009 3:57 pm

Por estes dias chegará às livrarias o livro A Crise Financeira Internacional, que pode também ser adquirido no sítio da Imprensa da Universidade de Coimbra. Para ficarem com uma ideia do que nele vai escrito deixo aqui a Introdução:

Na origem da crise financeira está o excesso de endividamento. Nos últimos anos do século XX e nos primeiros do século XXI, países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Irlanda, a Islândia, a Espanha ou Portugal aumentaram de forma extraordinária os seus níveis de endividamento, acumulado essencialmente pelas famílias para a aquisição de habitação e consumo. Na Dinamarca e na Holanda, por exemplo, o endividamento ultrapassou em mais de duas vezes o rendimento gerado anualmente. Assim, para percebermos as causas da crise financeira temos de identificar os factores que estiveram por detrás do extraordinário aumento do endividamento, em particular, o papel desempenhado pelo desenvolvimento dos mercados financeiros nas últimas décadas e a forma como o Estado se posicionou em relação a estes desenvolvimentos.

(more…)

Fernando AlexandreOctober 27, 2009 8:21 pm

Escrito com Pedro Bação, Professor da Universidade de Coimbra
Publicado no Semanário Económico, em 25 de Outubro

Oitenta anos depois da “Quinta-feira negra”, o primeiro de uma sequência de dias em que o pânico tomou conta de Wall Street e que marca para muitos economistas o início da Grande Depressão dos anos trinta, discute-se o fim da crise financeira internacional iniciada em 2007. Embora a história não se repita, a incerteza relativamente à robustez dos sinais de recuperação alimenta o interesse por episódios semelhantes na esperança de neles se encontrarem as respostas que nos faltam. A Grande Depressão é para todas as crises financeiras a grande referência histórica. Vale a pena, por isso, recuperar essa história neste dia.

(more…)

Fernando AlexandreOctober 21, 2009 11:57 pm

Não leio José Saramago desde o Ensaio sobre a Cegueira: por causa dos elogios de colegas estrangeiros que andavam com o livro debaixo do braço fiz várias tentativas. Não consegui nunca passar além da página cinquenta. Soava-me a um padre rezingão a pregar do seu púlpito. Já antes disso as entrevistas de Saramago me provocavam irritação pelas mesmas razões. O último livro que li e gostei foi A História do Cerco de Lisboa. A propósito do seu último livro, José Saramago disse que o Deus do Antigo Testamento é um deus cruel. O meu filho José, quando lhe lia a Biblia numa versão para crianças, disse-me algo parecido a propósito do sacrifício de Isaac: “Pai, este Deus é mesmo mau”. Não lhe voltei a ler a Biblia. Na altura lia muito a Biblia para perceber os quadros da National Gallery. E ainda hoje leio. E se calhar vou voltar a ler Saramago.

Fernando AlexandreOctober 19, 2009 10:31 am

When people want to understand apparently inexplicable events, they look to a historical parallel.
Harol James, The Creation and Destruction of Value (2009, pp. 36)

Desde o seu início que o paralelo histórico para a crise financeira internacional de 2007/08/09/… é a Grande Depressão dos anos trinta. No seu novo livro, The Creation and Destruction of Value – The Globalization Cycle, Harold James, professor da Universidade de Princeton, analisa a crise financeira internacional e as suas possíveis consequências para a globalização à luz dos acontecimentos dos anos trinta – como o autor refere em vários pontos do livro, o paralelo histórico deve ser estabelecido com a crise bancária iniciada em 1931 na Europa e não com o crash da bolsa americana de 1929.

(more…)

Fernando AlexandreOctober 7, 2009 1:18 pm

A República Popular da China completa este mês 60 anos. Nos primeiros 30 anos, sob a direcção de Mao Tsé-Tung, a China ambicionou tornar-se uma potência tendo como principal referência o modelo Soviético. Neste período, a União Soviética era também o principal e quase único parceiro comercial. No final dos anos 1950 e no início dos anos 1960, começaram a surgir as divergências com a União Soviética e Mao, o grande timoneiro, procurou uma via própria para o socialismo com o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural. Os resultados trágicos daquelas duas experiências representaram uma grande desilusão em relação às possibilidades do modelo socialista poder tornar a China num país rico e poderoso. No final dos anos 1970, aquele fracasso contrastava claramente com o sucesso das estratégias de abertura ao exterior, e baseadas na iniciativa privada, de Hong-Kong e Taiwan.

(more…)

Fernando AlexandreSeptember 30, 2009 8:30 am

No final mês de Outubro, será publicado em Portugal pela "Imprensa da Universidade de Coimbra" e no Brasil pela pela "Lex editora" o livro A crise financeira internacional de Fernando Alexandre (UMinho), Ives Gandra Martins (UMackenzie), João Sousa Andrade (UCoimbra), Paulo Rabello de Castro (SR Rating) e Pedro Bação (UCoimbra) – ver biografia breve dos autores abaixo. Deixo aqui ficar a Nota Préviaque abre o livro.

Nota prévia

Os livros sobre a crise financeira de 2007 inundam os escaparates das livrarias e doutros espaços comerciais. A propósito da abundância de livros sobre a crise financeira, a revista The Economist, em Junho de 2009, definia assim as condições a cumprir pelo livro ideal:

O livro ideal sobre a crise não diria aos leitores apenas o que aconteceu e porquê. Olharia também para como o sistema irá mudar. E seria acessível, mesmo a leitores que não passaram anos a estudar detalhadamente os mercados financeiros.

Na altura em que escrevíamos este livro, a crise iniciada em 2007 já era a mais grave crise económica e financeira desde a Grande Depressão. Os avanços da ciência económica desde a crise dos anos trinta contribuíram para um longo período de estabilidade, intercalado por crises económicas todas elas breves e suaves quando comparadas com a de 2007. Mas, entretanto, o mundo foi-se tornando mais interligado e complexo com o aprofundamento da globalização comercial e financeira. É possível que em termos relativos o conhecimento que temos hoje do funcionamento das economias seja menor do que nos anos trinta. Tudo isto torna mais difícil a tarefa de escrever um livro ideal, nos termos acima definidos, sobre a crise financeira internacional. Vale a pena lembrar que o livro clássico de John Kenneth Galbraith (1908-2006) sobre a Grande Depressão dos anos trinta foi escrito já nos anos cinquenta, e ainda hoje a Grande Depressão continua a ser um importante tema de discussão e de controvérsia.

O facto de este livro ter sido escrito a cinco mãos, duas brasileiras e três portuguesas, combinando os contributos de quatro académicos e de um profissional na avaliação do risco dos mercados financeiros, também com um passado académico, separados pelo Atlântico mas aproximados pelas novas tecnologias de comunicação, tornou-nos ainda mais conscientes das dificuldades deste projecto. Procurámos descrever de forma acessível as origens da crise financeira internacional de 2007, bem como os seus efeitos mais imediatos sobre as economias, seguindo as indicações da Imprensa da Universidade de Coimbra. Esperamos ter cumprido o nosso contrato.

Breves notas sobre os autores

Fernando Alexandre – Professor da Universidade do Minho, doutorado em Economia pela Universidade de Londres, publicou vários artigos em revistas científicas internacionais, é co-autor do blogue “A Destreza das Dúvidas” e colabora regularmente com os media.

Ives Gandra Martins – Professor Emérito de Direito Constitucional e Económico na Universidade Mackenzie, autor de mais de trezentos livros e artigos académicos, coordenador do programa “Caminhos do Direito e da Economia” da Academia Internacional de Direito e Economia, veiculado pela Rede Vida de Televisão.

João Sousa Andrade – Professor Catedrático e membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra, doctorat d’Etat pela Universidade de Poitiers, autor de vários livros e artigos académicos e Membro da Academia das Ciências de Lisboa.

Paulo Rabello de Castro – Presidente da SR Rating, doutorado em economia pela Universidade de Chicago, leccionou na Fundação Getúlio Vargas, é colunista da Folha de São Paulo e colabora regularmente em programas de televisão e rádio.

Pedro Bação – Professor da Universidade de Coimbra, doutorado em Economia pela Universidade de Londres, publicou vários artigos em revistas científicas internacionais e na imprensa nacional (Diário Económico, Jornal de Negócios e Público).

Fernando AlexandreSeptember 28, 2009 2:17 pm

O Secretário-Geral do Partido Socialista considerou extraordinária a vitória de ontem nas eleições legislativas. As razões substantivas para esta avaliação foram duas: o ímpeto reformista do seu Governo, e a oposição que gerou, e a crise financeira e económica global que teve de enfrentar no último ano.

(more…)

Fernando AlexandreSeptember 21, 2009 10:01 am

A ‘asfixia democrática’ é um dos temas fortes do PSD nesta campanha eleitoral. Os defensores da tese das dificuldades de respiração na sociedade portuguesa têm apontado a comunicação social (de facto, só a falta de oxigénio poderá ajudar a explicar o delírio que invadiu as páginas dos dois principais jornais diários nos últimos tempos) e o sector público (por exemplo, na educação e na saúde) como as zonas do país com o ar mais rarefeito. O diagnóstico parece-me acertado. No entanto, como referiu Henrique Raposo na sua crónica do Expresso, as causas da asfixia e das necessárias medidas de ventilação não têm sido devidamente discutidas.

(more…)

Fernando AlexandreSeptember 18, 2009 1:31 pm

O Professor Joaquim Romero de Magalhães da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra dissertou na sua oração de sapiência, que abriu o ano lectivo de 2009/2010, sobre tardio estabelecimento da história económica em Portugal. A censura do poder político e, sobretudo, da academia, os riscos de citar autores malditos como António Sérgio (fiquei a saber que na universidade só conseguiu ensinar em Santiago de Compostela) ou de pôr em causa o papel e relevância das virtudes atribuídas (como a castidade) ao Infante D. Henrique nos Descobrimentos portugueses, ilustram bem as dificuldades do estabelecimento da história económica portuguesa. Uma via mais segura para alcançar a promoção na vida académica parece ter sido a opção pelo estudo dos períodos mais antigos. Apenas recentemente, isto é, após o 25 de Abril, o estudo dos períodos históricos mais relevantes para perceber a economia portuguesa do presente foi iniciado e parece estar a tornar-se mais importante.

Como seu ex-aluno, foi para mim um prazer voltar a ler o Professor Romero de Magalhães.

Fernando AlexandreAugust 25, 2009 7:25 pm

O Espaço Campanhã já foi referido como contraponto da sofisticação de Serralves. Mas é só mais um exemplo da dinâmica da arte contemporânea, e do seu difícil caminho desde os anos 1990, na cidade do Porto e em Portugal. José (Manuel Santos Maia) organizador de exposições e artista plástico tem estado ligado a este movimento desde o início com o Inter(disciplinaridades). Leia a entrevista feita por Paulo Mendes na Rua de Baixo.

Fernando AlexandreJuly 21, 2009 11:57 am

Ao livro “Um Inquérito à Causa e Natureza da Riqueza das Nações” de Adam Smith é geralmente atribuída a criação da ciência económica. Embora mais tarde os economistas tenham tornado o objecto das suas inquirições mais difuso (como dizemos aos nossos alunos, todos os assuntos são susceptíveis de ser analisados pela perspectiva económica), na verdade a questão original continua a ser a questão mais fascinante da ciência económica: o que é que faz crescer os países ou por que é que uns países são ricos e outros são pobres?

A caminho de uma década de estagnação da economia portuguesa acredito que esta é também uma questão cada vez mais presente na cabeça dos economistas portugueses: por que é que a economia portuguesa não cresce e, historicamente, apenas excepcionalmente consegue ultrapassar os 70% do rendimento per capita dos países mais ricos da Europa?

E na cabeça de alguns portugueses acredito também que surja cada vez mais a questão: qual é o contributo que os economistas portugueses podem dar para ajudar Portugal a sair da crise?  

(more…)

Fernando AlexandreJuly 20, 2009 1:26 pm

Vários economistas, com destaque para Vítor Bento e Luís Campos e Cunha, ambos membros da SEDES, têm lembrado semana sim semana não que a crise nacional foi encoberta pela crise internacional. E que quando esta vaga passar a crise nacional vai ficar novamente à vista de todos. Estas chamadas de atenção são muito importantes. Mesmo o Ministro das Finanças Teixeira dos Santos referiu a necessidade de depois da crise voltar a ter como prioridade o equilíbrio das contas públicas. Este foi o projecto do PSD em 2002. Passados 7 anos, de crise, a elite do país e os seus governantes têm de ir mais além.

Talvez precisemos de think tanks. Mas também me parece as elites de Portugal precisam de pensar um pouco mais, qualquer que seja o enquadramento em que essa reflexão seja feita. Talvez fosse boa ideia discutir um pouco mais a causa e a natureza do estado em que a economia portuguesa se encontra desde que entrou no século XXI. Como economista e como português patriota não encontro questão mais fascinante em que pensar. Há certamente muito mais investigadores nas nossas universidades que gostariam de pensar mais na economia portuguesa. Já aqui escrevi sobre algumas das razões porque talvez não o façam.

Fernando AlexandreJune 16, 2009 3:59 pm

No ano de quase todas as eleições é ainda mais comum discutir-se a qualidade dos nossos actuais e futuros governantes. Fala-se do actual e dos últimos primeiros-ministros de Portugal e ouve-se dizer: será que não se consegue arranjar melhor do que isto? A minha opinião sobre este tema continua a ser a mesma de sempre: cada povo tem os governantes que merece, por injusto que isso possa parecer.

(more…)

Fernando AlexandreJune 12, 2009 3:38 pm

Confesso que me emocionei com o discurso de António Barreto no dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Não deixa de parecer paradoxal que alguém que apela a menos palavras e mais exemplo nos emocione com um discurso. As palavras dos nossos políticos, e das classes dirigentes em geral, têm de facto vindo a perder significado e são por isso cada vez menos ouvidas e lidas.

O significado das palavras advém da sua ligação ao real. Também os exemplos a que António Barreto apela só podem emergir do real. Mas se os exemplos existem, isto é, são reais, então as palavras, quando adequadamente escolhidas, têm um significado e podem ser importantes. 

António Barreto pede-nos que encontremos um caminho (como diria Vítor Bento) por contágio dos bons exemplos. O que a epidemiologia nos ensina é que a taxa de propagação acelera depois de atingido um certo nível do elemento de contágio*. É possível que estejamos próximos daquele nível crítico, mas não acredito que já o tenhamos atingido. Até lá talvez seja importante mantermos também alguma esperança na eficácia das palavras (ou, por outras palavras, na politica).

* Tecnicamente este processo pode ser representado por uma função logística.

Fernando AlexandreJune 3, 2009 10:04 am

Os benefícios do desporto para a saúde são os mais comummente referidos, mas não são menores os que resultam para o espírito. Os meus filhos desde muito novos praticaram desporto (natação, ténis, judo e voleibol) – apesar da minha crónica falta de tempo, ir levá-los e buscá-los aos treinos e jogos teve sempre prioridade na minha agenda.

(more…)

Fernando AlexandreMay 20, 2009 10:00 am

No dia das provas de aferição de matemática dos 4º e 6º anos um cartoon eloquente sobre a mudança de atitude dos pais em relação à educação (eu próprio como director da licenciatura em Economia da UM já recebi emails e telefonemas de pais perguntando se não estaríamos a ser demasiado exigentes com os alunos). A adaptação ao caso português obrigaria a colocar a Sra. Ministra da Educação do lado dos pais.

Fernando AlexandreApril 23, 2009 5:59 pm

Nas últimas semanas, em diferentes contextos, comentei o baixo valor em termos internacionais da taxa de urbanização portuguesa. A reacção foi sempre de grande surpresa. De facto, um dos nossos maiores problemas é não conhecermos o país em que vivemos.

(more…)

Fernando AlexandreApril 21, 2009 11:39 am

O Carlos Santos comentou no seu blogue o artigo que aqui (e no Jornal de Negócios) publiquei, em co-autoria com o Pedro Bação, sobre o ensino da economia e a crise económica. No seu texto, o Carlos rejeita os princípios da economia neoclássica, acusa os seus seguidores de estarem ao serviço de uma agenda política e aconselha mais ética no lugar daqueles princípios.  

É verdade que os princípios da economia neoclássica não explicam tudo. Por exemplo, a Síntese Neoclássica criada por vários ilustres keynesianos (Hicks, Modigliani, Samuelson) foi uma simplificação das ideias originais de Keynes. No entanto, a gestão da procura agregada que dela resultou parece ter contribuído para um período de extraordinária prosperidade. Da mesma forma, esquecer, com a actual crise, o contributo da ciência económica para a prosperidade que o mundo conheceu nas últimas décadas também me parece ousado da parte dos críticos com que o Carlos parece estar alinhado.

O contributo da ciência económica e dos seus protagonistas para aquela prosperidade terá sido exagerado pelos comentadores e alguns economistas (por exemplo, no fim da extraordinária era Clinton, Alan Greenspan era incensado como o Maestro). Mas, também hoje, as críticas em relação à responsabilidade dos economistas na actual crise são exageradas e resultam, em grande medida, das expectativas exageradas da sociedade, dos políticos e da comunicação social em relação à ciência económica (e também da ignorância, às vezes confrangedora, de muitos comentadores, entre eles alguns economistas).

Embora o funcionamento do mercado de capitais ou do mercado de trabalho não deva reduzir-se aos modelos simples neoclássicos, parece-me útil compreender os seus princípios para depois os podermos criticar. É isso que os críticos do actual paradigma, que eu aprecio, fazem. Ver, por exemplo, o último livro de Robert Shiller, em co-autoria com o Nobel George Akerlof, Animal Spirits.

Em relação à agenda do neoliberalismo, apesar de muitas vezes referida por intelectuais e outros pensadores portugueses, confesso que não a conheço.

Concordo com a utilidade (termo económico) de incluir cadeiras de ética nos cursos de economia e gestão. Mas o Carlos não acha que a inclusão daquelas matérias numa fase mais precoce da formação seria mais eficaz (termo económico)? Isto é, não valerá a pena, no lugar de estarmos apenas focados nos cursos de economia, averiguarmos a responsabilidade do fim das cadeiras de religião e moral (ou do facto de estas terem passado a opcionais) na actual crise económica?

Fernando AlexandreApril 1, 2009 10:59 am

esta crise já gerou pelo menos uma nova teoria dos ciclos económicos: a teoria do ensino da economia. Esta teoria assenta na hipótese de que os actuais currículos dos cursos de economia e gestão terão contribuído para a gravidade da actual crise económica e financeira.

(more…)

Fernando AlexandreMarch 19, 2009 3:09 pm

Fernando AlexandreMarch 12, 2009 12:00 pm

Esta era a pergunta feita ontem à noite aos telespectadores num canal de referência da TV nacional. Na altura em que anunciavam os resultados da votação popular o FCPorto qualificava-se para os quartos-de-final da Liga dos campeões. Mais uma vez estamos entre os 8 melhores clubes do mundo. O Braga joga hoje os oitavos-de-final em Paris. Na final antecipada da Liga dos Campeões estavam 4 portugueses. Não sei qual foi o resultado do inquérito popular. Mas, felizmente, a crise do Sporting e do SLB já não são sinónimo de crise do futebol português.
Enquanto os portugueses não acertarem nas perguntas vão continuar à espera que as soluções caiam do céu.

Fernando AlexandreMarch 11, 2009 10:42 am

The economic difficulties of today do not, I would argue, call for some “new capitalism”, but they do demand an open-minded understanding of older ideas about the reach and limits of the market economy. What is needed above all is a clear-headed appreciation of how different institutions work, along with an understanding of how a variety of organisations – from the market to the institutions of state – can together contribute to producing a more decent economic world.

(more…)