A destreza das dúvidas

Letras económicas
Cristóvão de AguiarJuly 27, 2011 10:40 am

“O conteúdo é apaixonante e enternecedor, cheio de afecto; a forma, uma finura, um primor, uma beleza…. Transmitindo ao leitor uma sensi­bili­dade e um deleite dignos de registo. Uma escrita inconfundível e incon­tor­nável. “Febril”, como se escreve na contracapa.”
Fernando Couto Alves

Caro Luís Cristóvão e Francisco José:
Foi assim que desde jovem me habituei a chamar-te, a chamar-vos. Entretanto, entraste na alta-roda das Letras e passaste a ser conhe­cido por Cristóvão de Aguiar, nome que esconde uma já muito con­ceituada e apreciada figura da Literatura Portuguesa contemporânea.

Por diversas vezes já escrevi sobre ti, pelo que peço que me perdoes se for repetitivo. Se o for é porque continuas a congregar – e cada vez que passam os anos ainda mais – os dotes de um dos mais notáveis escritores açorianos do presente.

Acabei de ler a tua “Catarse – Diálogo epistolar em forma de romance”. Só agora é que o consegui, porque o fiz com muitos inter­valos. Sozinho e no silêncio do meu quarto de serão, ri-me desbraga­damente à medida que surgiam as tuas estórias, umas atrás de outras, e as do teu irmão Francisco José. Muito bem asseveraste na dedicató­ria que me fizeste, em jeito de “Aviso à Navegação”: “Os autores deste livro não se responsabilizam pelo choque que, porven­tura, o presumível leitor possa vir a experimentar. Como diz o título trata-se de uma Catarse ou barrela que, como se sabe, branqueia e limpa a roupa suja, ficando a água negra. Não vale a pena tentar des­cobrir os referentes, porque não se sabe quem é quem”. Mas ten­tei…tentei… e logo consegui!… Não era difícil. Lá estão magistral­mente espelhados os lugares e as pessoas com quem tu, o Francisco José e eu nos cru­zámos na nossa infância, no Pico da Pedra, que nos serviu de berço. Pessoas e lugares que bem poderiam situar-se noutro sítio de Portu­gal ou de outro país. É aí que reside a universalidade da tua escrita.

Pois é, Luís Cristóvão: realmente, e segundo a minha velhinha “Enci­clopédia Fundamental Verbo”, CATARSE é um termo grego que sig­nifica limpeza, purificação. E diz-nos mais: Aristóteles atribuiu à música e à poesia uma função catártica como purificadora de pai­xões. Se Aristóteles atribuiu tal função à música e à poesia, tu – na mesma ordem de ideias – atribuíste-a à Literatura. Não a Literatura açoriana, que não existe, mas à Literatura Portuguesa de significação açoriana. Não me hei-de esquecer que há anos, numa entrevista que me concedeste e inserta no “Açoriano Oriental” desmistificavas, com grande propriedade, este assunto ao afirmares: “O que comummente se tem chamado, com arrogante impropriedade, LITERATURA AÇORIANA, continua a constituir um bem engendrado equívoco de alguns literatos de segunda escolha”.

Em “Catarse”, que agora publicaste surpreendeu-me a escrita de teu irmão Francisco José, seu co-autor. Escorreita, simples, imaginativa e reveladora de uma presença impressionante descrita nos factos tra­zidos de uma memória colectiva. Ele revelou-se-me (foi uma revela­ção para mim, acredita!) um lídimo seguidor do irmão Luís Cristó­vão em matéria da transmissão dessas memórias. Na forma utilizada, no entanto, é fácil descortinar a diferença do escritor, com o seu talento já formado, com a daquele que inicia as suas lides literárias. A imagem que tenho de teu irmão era bem outra. Não me foge da memória, sim, a sua apetência para cantor. Era, em menino e moço, o “Joselito de S. Miguel” ligado à interpretação fantástica e fidedigna de Campanera. Referiu-se-lhe, assim, a comunicação social do princípio dos anos sessenta, se não me falha a memória.

Quanto à tua postura no livro que, mal ou bem, este registo pretende referenciar, sobre ele uma vez mais opino: a universalidade da tua escrita é indesmentível. O leitor do Minho ou do Algarve, dos Açores ou da Madeira revê-se no que procuras transmitir. Assim nos habi­tuaste. O conteúdo é apaixonante e enter­necedor, cheio de afecto; a forma, uma finura, um primor, uma beleza. Transmitindo ao leitor uma sensibilidade e um deleite dignos de registo. Uma escrita incon­fundível e incontornável. “Febril”, como se escreve na contracapa. Por mais de uma vez te apelidei, e nunca me can­sarei de o fazer: És um notável “serralheiro da escrita”, como teu pai o era do ferro.

Não resisto em citar alguém que, com grande propriedade e sentido crítico, escreveu, há mais de 30 anos, sobre o teu premiado Raiz Comovida – A Semente a a Seiva. Trata-se de Vasco Pereira da Costa, que, de uma forma objectiva e concludente, observou: “Este livro é só isto: a revivificação da língua portuguesa e a superação do neo-rea­lismo através de uma imaginação verbal que só vista e de uma cria­ção formal que nos calha a desbancar. Nunca os Açores foram tão bem narrados… A ilha do Pico da Pedra está inteirinha no mundo em que tropeçamos. Preciso é compreendê-la. Foi o que Cristóvão de Aguiar fez”… Esta citação aplica-se, como uma luva, a Catarse.

Luís Cristóvão, meu caro, mais uma vez provaste de que estás vivo e bem vivo. Mais: és como o “vinho do Porto”, quanto mais velho, melhor.

Daqui vai um abraço de parabéns, extensivo a teu irmão Francisco José.

Fernando Luís 

Cristóvão de AguiarJuly 19, 2011 2:42 pm

Na proporção que as cartas que te escrevo, desde o dia primordial em que estavas quase a rasgar o ventre de tua Mãe, se vão amontoando – e espero que o montinho se alteie até se transformar em colina, melhor seria em montanha ou serrania, se o tempo não minguasse –, vais tu também medrando em altura e principalmente em agilidade mental, intelecto e inteligência. Ainda não há grande tempo eras um bebé observando o mundo através de uns olhos surpreendidos que nem olhar sabiam ainda, absorventes, sim, que, pouco depois, se cerravam de cansaço e se deixavam cair em sono ou em sonho, difícil destrinçar o sentido destes dois nomes que todos os dias conjugamos para ficarmos cientes do que nos espera quando não acordarmos de um ou do outro… Depois, despertavas de novo e exigias (sempre foste e serás determinada) o leite do teu sustento físico para revigorar o seu oposto, que, em união com o primeiro, vai devagar construindo o carácter e a personalidade, que já muito bem sabes exibir… Destarte permaneceste durante longo tempo, para ti mais de um século (o momento é medido consoante a idade que se carrega), até percorreres o caminho que veio desembocar ao dia de hoje, não sem teres sofrido, ao longo do percurso, as moléstias próprias de quem entrou no palco do mundo para representar o papel que lhe foi distribuído, com mestria ou canhestreza, depende da vontade que se cultiva no recato do íntimo. Nasceste num tempo transtornado, no qual a escuridão engoliu a luz e fabricou uma sombra que assombra. Descansa, minha querida neta: Tanto a vida como o tempo são atravessados pelos seus ciclos, uns de vacas gordas, outros de vacas magras, como se pode ler na Bíblia a respeito do Egipto e dos seus sete anos de fome e outros tantos de abundância… Há um ditado nosso que reza assim: “não há fome que não dê em fartura”. E assim será sempre pelos tempos fora, até já não haver espaço para o tempo existir. Se da saúde poderá originar-se a doença, também de esta se pode erguer a primeira. Auguro-te um futuro brilhante como o do teu Pai com quem te assemelhas no carácter (aquilo que deixa uma marca forte, como uma pegada em terra fofa), na teimosia, na lucidez, na vontade, na rebeldia saudável, na disciplina que hás-de aprender, no saber que se ganha com muito suor e por vezes com algumas lágrimas à mistura, na ternura sem esparrames, a mais doce… Serás tu quem traça o teu futuro, para que nele caibas de corpo e coração inteiro. O Vovô quer-te muito e confio que também me queiras o bastante para me sentir compensado pela vida tantas vezes desvivida. Muitos beijinhos do Vovô Cristóvão.

Escrito em Coimbra aos 17 dias do mês de Julho de 2011

Cristóvão de AguiarMarch 29, 2011 3:34 pm

Se a criança nasce prematura,
A vida se enrijece e perdura

Provérbio inventado pelo Avô; só para ti!

 

Rita, Margarita, pérola (Margarita et Pullus, a pérola e o pin­tainho, tre­cho do meu velho livro de Latim do Liceu, que um compa­nheiro tra­duziu por Margarida aos pulos) – Margarida, também filha do mar, na língua babilónica – agluti­nou-se e gerou Rita, santa itali­ana, Santa Rita de Cássia, advogada das coisas impossí­veis, cujo tri­lho o Avô não desejava que percorres­ses, pelo menos no sentido pi­edoso e beato, segue-o só em doçura, minha santa do­çura, espe­rança nossa… Lembra-te, Ana Rita que força aní­mica reside tão-só dentro do teu íntimo, e assim conseguirás que a vida te venha, mansinha, beijar os pés…

Nasceste e logo a alegria se explodiu em estilhaços, tendo um deles chegado longe e atingido teu Vovô Cristóvão, nesse dia a con­tas com uma reabilitação física num Hospital de Lisboa… Com esse doce e meigo estilhaço veio a nova de que tua irmã Ana Laura, a Laurinha, como carinhosamente lhe chamamos, se havia investido, por sua conta e risco, em tua companheira e protectora. Ninguém pode sequer esboçar um gesto de te tocar nem com uma flor, que ela logo exclama, possessiva: “a Rita é minha…” Exultou como todos nós, que aguardávamos, alvoroçados, o teu advento. Ante­cipaste-te uma semana à vida. Era a avidez de não esbanjar um segundo! Procedeste bem e mostraste rijeza de vontade. Conti­nua assim pela vida fora! Por ines­perada, a alegria encheu-se em maré de entusiasmo… Depois, acenderam-se-te os olhos ainda meio encandeados pela intensa luz disparada dos olhos, atónitos, que te contemplavam coroada pelo choro de seres tu em tua humani­dade inteira e inteiriça…

O dia em que te estreaste no palco da vida, que ela é um palco, como escreveu Shakespeare, coincidiu, na casa do calendário litúr­gico, com o devotado à Senhora da Estrela ou das Estrelas. Das Can­deias também é conhecido, mas o teu Vovô prefere a Estrela, aquela com que todos nascemos, para o bem e para o mal… Em­bora se não consiga ainda esmiuçar o que é um ou o outro, certo é que não acredito que se nasça predestinado. A predestinação, cons­truímo-la nós, pedra a pedra, transpiração a transpiração… Mas não deixa de ser belo e premonitório nascer num dia dedi­cado à Senhora da Es­trela… Tanto mais que meu Avô materno, teu trisavô paterno, mestre José Dias, de quem teu Pai, meu filho, e teu Avô Cristóvão usam no sobrenome, foi poeta e cantador, músico e tanoeiro, tocador de “viola da terra” e amigo de serena­tas… Na véspera desse dia, ele e outros amigos, saíam, já com muita noite caída sobre a Terra, para que a meia-noite os apa­nhasse já no dia assinalado pela Estrela. Nesse momento, en­toava a primeira cantiga, de sua autoria, em louvor da Senhora da Es­trela, dia em que nasceste, Ana Rita, e o derradeiro em que, na Ilha, os presépios do Natal permaneciam armados… E, no silêncio da noite constelada, a voz do teu Trisavô José Dias ergueu-se e can­tou:

A Senhora da Estrela
No meu peito estremece.
Quem me dera conhecê-la,
Como Ela me conhece…

Não te posso jurar, não sou nenhum deus do oráculo de Delfos, mas estou convencido de que esta cantiga entoou-a já pensando em ti, ainda nos braços da enorme lonjura do tempo, teu Trisavô e meu Avô era poeta e os poetas são profetas, minha neta Ana Rita. 

Um beijo de teu Avô Cristóvão

Cristóvão de AguiarDecember 16, 2010 8:17 am

Já resido neste hotel de meia estrela há quase três semanas. Per­fazem-se exactamente amanhã. Como muito bem sabes, fui submetido a uma cirurgia que se pressupunha simples e se complicou por mero des­leixo médico. Desleixo, incompetência, arrogância de quem tira uma espe­cialidade em Paris e julga que ficou a saber toda a medicina do Universo e cercanias… Não há ninguém, a não ser os deuses a quem já lhe foram impostas as insígnias, que não cometa um engano ou erro. O mais pintado os comete, mas há quem não possua ou não queira possuir a humildade de reconhecer o erro ou a falta cometida. Coimbra é uma cidade de sábios. Nunca se enganam. Este privilégio per­tence ao parágrafo único da sebenta. Sempre assim foi, daí o seu atraso secular. Muitos quefazeres têm os médi­cos deste Centro Cirúrgico, falsamente considerado como a cereja no cimo do bolo da cirurgia paroquial, coimbrinha, mas com sérias pretensões a galgar o patamar ou o patíbulo da notoriedade nacional… A narrativa desenrola-se num ápice. Calhou ser eu a vítima de um enxerto do ilíaco para o maxilar superior, já mir­rado de osso para poder suportar alguns implantes dentários. Dessa parte do ato, nada a apontar: nem um suor ou lágrima de dor em nenhuma das fases por que tem de passar uma opera­ção cirúrgica. Serviço bem feito! A coxa direita, coitada, é que pagou todas as favas do bolo-rei da melodiosa quadra natalícia, este ano com raciona­mento de açúcar e muitas outras escasse­zes sopradas das europas do mundo… Pressupõe-se que um vaso sanguíneo na coxa direita, farto de albergar sangue, se chateou e resolveu escoar-se para a coxa. Natural para quem tem uma especialidade e exerce outra, ou, melhor duas em sin­cronia. Simultânea e legalmente! Uma equimose (nódoa negra) logo se revelou, alastrante, negróide, preen­chendo um círculo de cerca de vinte centímetros, das coste­las até meio da coxa. O das duas especialidades nem fez caso. Tudo natural. Como a água que corre no rio e segue até à foz. Se alguém se afogar, a culpa nunca será do rio, mas de quem nele se afoitou a mergu­lhar, com um massagista a servir de caução… “Movimente-se, mexa-se, não se ponha parado, faça exercício, enrijeça os mús­culos, torne-se atleta, ins­creva-se, sem pagar jóia, ainda vai a tempo, o prazo só se esgota logo à noite, aliste-se num prova de corrida de muletas (perdão, canadianas), pode ter sorte, nunca se sabe, e ganhar o primeiro prémio, o gordo, encher-lhe-á a grande cloaca da conta calada da factura que a clínica fará o especial favor de apresentar à saída, depois de descontada a caução, nunca se sabe com quem se lida, e tudo isto acontece, mesmo que a vítima tenha entrado pelo seu próprio pé e saído abraçado aos fofos roliços braços de umas muletas, perdão, canadianas, e amparado por uma ou duas pessoas, ao fim de dezassete dias de clausura doirada, adoçada com pílulas, sorri­sos, visi­tas meteóricas do físico que tem muito mais que fazer que aturar doentes e acha tudo natural: nem sabe a situação clí­nica do paciente, confunde dores da coxa com dores do pé, não sabe ler uma radiografia, não admira, radio­logista nunca foi, há-de sê-lo quando crescer, mente muito, mas, sobretudo, manda: ande, corra, faça ginástica de aplicação militar, flexões no varão da cama, olhe que a embolia pulmonar vem aí não tarda nada, não quero que venham os mestres de Paris de França dizer que não o avisei, que deles dependo para subir, subir, Coimbra admira muito os atletas que sobem a corda para alcançar o bacalhau no topo, andar é fundamental, em França o doente começa a andar antes de ressuscitar da anestesia, e logo cami­nha sem muletas, perdão, canadianas, país civilizado (a França, de Robes­pierre), o nosso, ainda não, só quando terminar o Ser­viço Nacional de Saúde, aí, sim: os doentes deixarão de ficar molengões com a anestesia e, em vez de só acordarem ao ter­ceiro dia para subir ao céu, passam a ressus­citar já com as muletas, perdão, as canadianas, postas e já apetrechadas com um aparelho de marcar o ritmo do passo muletário, ande, ande, este é o lema de Paris de França a que devemos obedecer, andar, andar, correr, ginasticar, seguir à letra os preceitos da outrora capital do Mundo e das luzes, e agora tem Sarkosy e Bruna, também fazem jogging na cama, não se pode ter tudo, sigamos os alfaiates de Paris de França, como seguimos o antigo Curso Preparatório já depois de ter sido extinto vinte e cinco anos antes, andar, andar, marchar, contra os bretões marchar, tirem as muletas, perdão, canadianas, em verdade vos digo que elas serão abolidas no reino clínico da cereja no topo do bolo de Ançã ou de uma Arrufada de Coimbra, que culpa não têm…

Clínica de Reabilitação de Cantanhede

Por uma unha negra que não ganhei o campeonato da mara­tona da muleta. Preparei-me com um professor particular de rea­bilitação e massagens, mas não logrei atingir o primeiro lugar da classificação. Fiz o que podia e não podia, flexões, cor­rida, jogging, a coxa bem que resmungava, mas mandei-a para França, e ela lá foi, obediente e mansa, subi e desci escadas só com muletas, que a coxa chegou a França e ainda me gozou: mandou-me uma mensagem electrónica a contar-me das suas aventuras nos Campos Elísios, perguntou-me se já me desem­baraçava melhor com as muletas, uma questão de treino e hábito, que nunca deixasse de andar, devagar, escrevia, se vai ao longe, ainda te hei-de ver em passo de corrida com as cana­dianas, pimenta no cu dos outros é bál­samo no nosso, não desanimes, tem paciência, se fores ao Centro da cereja do bolo, não te esqueças de dar cumpri­mentos aos que perguntarem por mim, e continua a percor­rer o corredor da clínica três vezes por dia, vais ver que te vais sentir voando, leve, como um gaio, que vejo daqui da janela da Clínica de Cantanhede, são muito visto­sos, mas defecam muito nos tejadilhos dos automóveis, se puderes leva-os para Coimbra, põe-nos na cereja no cimo do bolo, pode ser que a comam juntamente com a caca, cheira bem, a madressilvas e rosas, como este país, com clínicas à beira da estrada plantadas, privadas (em Trás-os-Montes privada signi­fica retrete…) para cada qual se arranjar sem que nin­guém o perturbe, a não ser o homem das muletas que veio de Paris de França e trouxe mais uma molhada delas: andar, andar, andar, mais um pouco, assim mesmo, estás no ritmo certo, o elevador está quase ao alcance do pé, perdão, das muletas, tenho o cro­nómetro a marcar a velocidade da mar­cha, um quarto de hora para um percurso de vinte metros, tens feito grandes progres­sos, já cá chegamos, abre a porta, tem cuidado, deixa que a porta se feche bem, não largues as muletas, elas são as tuas per­nas, dizem os franceses, na tropa a Mauser era a noiva ou namorada, mas os especialistas franceses acabaram com o dito anacrónico, as muletas, sim, são pós-modernas e servem à maravilha para as corridas muletais nos corredores do bolo da cereja, perdão da cereja no cimo do bolo, já chegámos ao piso da secretaria, deixa abrir bem a porta, assim mesmo, agora sai, devagarinho, acabaste de percorrer vinte metros num quarto de hora, uma autêntica maratona, senta-te, que te pode suceder ao soldado Maratona, que deu a notícia e caiu redondo no chão, e tu tens de ir ainda para Cantanhede, para entrares em outras corridas mais suaves, mas, antes, espera que o teu filho mande irar a conta às meninas da secretaria, agora conver­sam umas cm as outras, assuntos de suma importância, aquela parece que está com o olho pregado no teu carro, De quem é o carro AX Image, com matrícula tal e tal, é de algum dos senhores? Ah, então retire-o já, que pode estorvar os táxis, Não retiro, não senhora; se trabalhasse e deixasse a conversa, a conta já estaria tirada… Sete mil e quinhentos… Fui para Cantanhede mais leve. Mas voltei-me para trás para de despedir do Centro, já sentia saudades das corridas e das palavras sábias do médico: O lema aqui, como em França, é andar, andar, andar… Ponha-se a andar, remoía com os meus botões do casaco, onde a leveza da carteira me aconselhava: não pares, nem olhes para trás, como a mulher de Loth, senão sais daqui depenado e mais aleijado! 

Cristóvão de AguiarNovember 8, 2010 11:30 am

Pouco ou nada me custa ressuscitá-los e insuflar-lhes um sopro de vida. Não mudaram, nem têm mais idade pelo facto de já terem desaparecido. Ficaram imóveis e equilibrados na balança do tempo. As namoradas, não! Envelheceram e engrossaram: estão ainda vivas. Tal como eu. Mas só quem me vê por fora me acha arruinado: os cabelos embranquecidos, as rugas mais fundas, os pés de galinha nos olhos, as pelancas no pescoço, os olhos com papos, os passos hesitantes, quase trôpegos, as mãos trementes… Ausculto-me com minúcia, sempre me auscultei, e concluo que ainda sou o mesmo que sempre correu à desfilada dentro de si. Assim sucederá com cada um ─ neste e noutros campos a Natureza é sábia. Serei depois como os mortos e ausentes, sem peso nem idade sobre o costado da vida…

Cristóvão de AguiarSeptember 19, 2010 11:26 am

Ergui-me hoje manhã cedo, após uma noite de insónia lúcida. Enquanto ela esteve em vigor, estive relendo algumas páginas do Dom Quixote de La Mancha, na tradução exemplar de Aquilino Ribeiro. E vou continuar até onde as páginas derem, que, nesse livro, a alma enche-se e referve e tumultua-se, com as engenhosas façanhas do tresloucado Cavaleiro da Triste Figura… Não há Sancho Pança, por mais terrosa sensatez destilando de seus miolos enxertados numa proverbial manha campónia, que lhe corte o voo em flecha. De vez em quando, gosto de recair nestas releituras clássicas, que não só me enchem o bornal de sentimentos saudáveis, como também, e sobretudo, me fornecem presigo para mais uns passos na caminhada que, deste modo, vou povoando de sonhos que só eu cá sei.

Cuidado, porém, com as releituras. Podem trazer grandes desilusões! Ainda há tempos tentei reler um romance que me tinha levantado os mecanismos da paixão aquando da primeira leitura, e só consegui chegar à página vinte. Fiquei perplexo. Como teria eu ficado tão entusiasmado quando o li ainda quente da impressão? Estive há tempos a ler a lista dos Prémios Nobel da Literatura que a Academia Sueca atribui todos os anos desde 1901. Só reconheci meia dúzia dos premiados. E os outros? Ficaram sepultados na poeira das estantes. Até ao Nobel acontecem dessas picardias. É o tempo, esse juiz implacável, que transforma, por vezes, o bom em medíocre ou mau ou vice-versa. Vá lá uma criatura entender estes meandros…

Cristóvão de AguiarSeptember 13, 2010 2:06 pm

Escrevo Pico e qualquer coisa me sacode. Um abalo; um garajau levan­tando voo da falé­sia hasteada no meu sangue; um milhafre planando e a conjugar seus pios altos; uma cagarra entornando seu grito de cio num ouvido oculto do corpo; ganhoas sobrevoando a fome por cima dos cardumes, nas águas do canal; um barco acostando-se ao cais, outro zarpando; São Jorge dando o roxo por não roxo, trajando-se de outras vestes compro­metidas com novas cores… A Ilha do Pico ficou-me vazada nos olhos, vislum­bram para além do que me cerca, não obstante a cor­tina invisível da rea­lidade que ora me circunda em istmo, se obs­tine em tapar-me o sonho… Alcanço com nitidez de vidente os cami­nhos do mato, seus fetos gigan­tes, sua vegetação endémica, única, a paisa­gem por vezes lírica e sempre trágica… Nas narinas repousa-me ainda o persua­sivo e afro­di­síaco aroma da roca-da-velha, roca-de-vénus, e o de outras plantas e árvo­res e flores silvestres, cheiros mestiçados, lúbricos, endoi­dam a carne fraca do cate­cismo, o san­gue e o desejo de apagar-me por com­pleto, por instan­tes, para sur­gir rejuvenescido na plenitude do instinto, limpo e animal… As poças… Contemplo a pele e sinto escorrer-se-me a água diáfana do mar enigmático e raro, nem sem­pre bonacheirão, desde o berço me embalou, ora com voz cava de pai ora com a meiga de mãe (ele é feminino em certas lín­guas, e no Francês tem o mesmo som de mãe: la mer) ao longo das noites em que o sono e o sonho do antigo corpo adormeceram… Redescubro-me na Ilha que demando em nau de velas pandas. Hei-de arrecadá-la no silêncio avaro da casa dos botes: existe sem­pre uma redes­coberta a empreender e uma viagem renovada à minha espera…

Cristóvão de AguiarAugust 30, 2010 10:39 am

Nesse percurso penitencial vou atravessando várias idades. Com os inimigos jurados ainda não consigo acamaradar, mas já não lhes tenho aquele ódio antigo, exaltado, que me corroía as vísceras e as punha em lume vivo ─ qualquer dia, numa dessas surtidas, ainda nos abraçamos ─ a idade e a vida chegaram àquela encruzilhada serena e tranquila para onde a gente se vai acolhendo e em que já não há escolha de qual caminho seguir…

Cristóvão de AguiarAugust 23, 2010 12:10 pm

Já havia saudado alguns dos meus fantasmas. Mal acordo, seguem-me em sombras para todo o lado e bastas vezes até me visitam em sonhos que não raro se transfiguram em transpirados pesadelos. Todas as manhãs, como quem recita a primeira oração de acção de graças por mais um dia de vida, faço uma revisão geral de toda a matéria constante do catecismo. Sei-a já de cor e salteado, mas continuo a ruminá-la como se me fosse apresentada de novo por um mestre invisível. Primeiro, percorro as ruas, os caminhos e as canadas da freguesia da Ilha, por onde andei descalço e dei topadas; paro em casa de meus avós para lhes pedir a bênção; converso no Largo do Coreto com os meus amigos e vizinhos, quase todos já mortos e enterrados ou ausentes para parte incerta deste mundo; procuro passar, sem que meu Pai me veja, pelas ruas onde moram as namoradas e com quem irei derriçar daqui a não sei quantas páginas…

Cristóvão de AguiarAugust 16, 2010 9:02 pm

Por um acto de vontade, transferi-me inteiro para cada gesto que ia prati­cando: escovar os dentes, tomar um duche meio frio para ajudar à revitalização, enxugar-me com a energia de um atleta, vestir-me, calçar-me, fazer a cama, mastigar muito deva­garinho o pequeno-almoço, sem esque­cer, e após lastrado o estômago, os comprimidos para isto, aquilo e aqueloutro, de cores variadas consoante a maleita a que se desti­navam! Ainda estou por saber como dão conta do itine­rário e do recado! Certa psicologia singela assegura que esse esforço de a gente se debruçar na sua inteireza sobre cada parte de si ajuda a afu­gentar os miasmas do espírito, tor­nando-o mais pro­pício para o êxtase… Já não pediria tanto, tão-somente o voo para paz!

Cristóvão de AguiarAugust 2, 2010 2:14 pm

O mau humor do tempo ainda não desamparou a loja. Para cúmulo, o vulcão da Islândia rebentou, e os aviões ficaram em terra. Numa Ilha, isto dá uma sensação claustrofóbica. E  medo de algum vulcão adormecido, e ele há tantos nas Ilhas, querer imitar o seu camarada de ofício! A solidão aperta mais o laço! É como estar num  quarto porque se quer ou estar nele por obrigação. Sair, só navegando, e os barcos são muito escassos e não apontam a quilha ao Continente. Acabou a marinha mercante. Não há alternativa ao jacto. Um dia ainda nos quilhamos… Nevoeiro, chuva, vento, frio! Andam  todos mancomunados para me codilhar, como na canção do Rui Veloso. Os ilhéus são sensíveis aos flui­dos atmosfé­ri­cos, e penam muito. Apetecia-me fugir para onde me não fizesse com­panhia. Mas como se ainda não há aviões, e o céu das Ilhas continua interdito…

Cristóvão de AguiarJuly 26, 2010 11:22 am

Não se sabe como, que a operação era feita em grande sigilo e sob todas as caute­las, mas as tias Marias souberam que em nossa casa havia, ao serão, ses­sões de lei­tura da Bíblia. Um dia em que meu Pai estava no quintal a tratar dos coelhos, a mais nova assomou ao muro e disse: “Senhor mestre, soubemos que em sua casa se lê a Bíblia dos protes­tantes; venho avisá-lo de que não queremos que a nossa luz sirva para cometer um pecado mortal dessa natureza; o senhor padre disse que tam­bém nós incor­ríamos nesse pecado; ou o senhor mestre deixa de ler esse livro do diabo ou teremos de lhe cortar a luz eléctrica; pense bem e depois diga-nos qual­quer coisa…” Não foi pre­ciso pensar. Meu Pai res­pondeu-lhe que esperasse. Ia ele mesmo arrancar os fios. Pouco depois entre­gou-lhos perante o espanto da tia Maria mais nova, que ainda titu­beou que não era preciso… "Dai-nos, Senhor, bons e santos sacerdotes."

Cristóvão de AguiarJuly 20, 2010 1:12 pm

Apesar de ter ideias avançadas, meu Avô paterno só viria a insta­lar muito tarde a luz eléctrica, poucos anos antes de morrer, quando a Federação dos Municípios estimulou a electrificação das casas por toda a Ilha e a troca das instala­ções velhas por outras devida­mente seguras e bem isoladas. Vivera na América cerca de vinte anos, mas usava can­deeiro de petróleo – uma contradição. Comia sandes de tomate, alface e pepino. A freguesia arrepiava-se: "Deus me perdoe, mas aquele homem, além de hereje, é um animal, pelo menos come ervas como eles…" Sempre o conheci assim. Uma carta fora do baralho! Trou­xera da santa terra da América lâmpadas eléctricas muito dife­rentes das que na altura se usa­vam cá. Guardara-as de sua mão durante mais de quarenta anos. E o certo é que funcionaram quando a luz foi instalada. Possuíam, no exte­rior, na parte oposta ao bocal, uma espécie de espigão de vidro. A forma do bolbo era também des­coincidente.  A condizer com o seu temperamento, avesso a maiorias de qualquer espécie.

Cristóvão de AguiarJuly 17, 2010 11:58 pm

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Cristóvão de AguiarJuly 13, 2010 3:33 pm

Nesse tempo não era permitido instalar luz eléctrica. A maio­ria das casas já a tinha desde princípios dos anos trinta, mas, durante a guerra e o pós-guerra, não se podia mandar vir geradores mais potentes. E assim perma­neceu até muito depois de a guerra aca­bar. Os que a tinham podiam dar-se por felizes. Os que queriam instalá-la, que se amanhassem com candeeiros de petróleo. Meu Pai lem­brou-se então de pedir às tias Marias que autorizassem um furo na parede da nossa cozinha, comum com a sala de corte e costura. Tencionava ligar um fio com um bocal-ladrão. Desta forma, poderíamos usufruir da luz eléctrica. Comprou um fio grande revestido de borracha preta, e assim se fez. Rachava-se a despesa ao meio e ficá­mos todos quites e satisfeitos.

Cristóvão de AguiarJuly 5, 2010 2:03 pm

Pegada à nossa, do lado Poente, a casa de tias Marias, irmãs sol­tei­ronas de minha Avó materna. Meu Pai chamava à casa o Vaticano. Se vissem agora o Papa em Portugal, dava-lhes um fanico de fé.. Muito religiosas e gran­des costureiras, sobretudo a mais velha, diplo­mada em corte e costura, mantinham uma escola onde mui­tas rapari­gas da fregue­sia aprenderam a arte como prenda para o casa­mento. A meio da tarde, rezava-se o terço em comum. A recita­ção ouvia-se do quintal da nossa casa. Um muro de pedra solta divi­dia os dois quin­tais. Nessas tardes de lição, nenhum homem podia lá entrar, por causa da moral e dos bons costumes. Na minha adolescência tinha uma namo­rada que era lá aluna. Um dia fiz-me desper­cebido e bati-lhes à porta. Nem entrei. Que viesse mais tarde, depois de as meninas acabarem a lição. Na altura em que vieram os pro­testantes, meu Pai começou a ler a Bíblia, à noite, depois da ceia. Com muito cui­dado para que a blasfémia não transpirasse para o soalheiro da fre­guesia. Tinha medo de perder fregueses na oficina, e nesses anos, logo após a Segunda Guerra Mundial a vida era difícil e o trabalho escasso. Meu Pai sempre foi um homem medroso e deixou-me essa doença em herança.

Cristóvão de AguiarJune 30, 2010 11:49 am

Relembrar. A ver se me acerto comigo. A casa em frente da nossa, na Rua das Oliveiras, pertencia a meu Avô paterno. Tinha uma entrada ao lado esquerdo e um passeio largo, em declive, ao longo da frontaria. Fora por ele mandada cons­truir a meio da segunda década do século XX. Dife­rente das casas da freguesia. O risco por que fora feita, trouxe-o meu Avô da América, quando de lá veio de vez. Apo­quentou-se durante a constru­ção. Os mestres antigos não estavam habituados a modernices e sempre que podiam opunham-se às orientações dadas. Opuseram-se durante pouco tempo. Meu Avô não ia em cantigas e um dia chamou o mestre da obra a capítulo. Fez-se a cave como estava pla­neado, desvia­ram-se os currais dos porcos, o galinheiro e a cocheira para o fim do quintal, longe da cozinha. Depois de acabada, já toda a gente gostava do chalé. As paredes caia­das de ama­relo, a porta, a can­cela e as persianas pintadas de azul-cobalto. Minha Mãe costu­mava dizer: “Se eu tivesse uma casa como aquela, nunca mais sofria de doen­ças nervo­sas…”

Cristóvão de AguiarJune 26, 2010 6:26 pm

Toda a razão para António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa

Na edição de hoje, Sábado, 26 de Junho, do Diário de Notícias, pode ler-se, na página 14, em título: “Deslize na homenagem a Saramago”… O jornalista responsável por “A Vespa” com certeza não tem o seu Português bem oleado, o que não surpreende, tan­tos e variados são os pontapés na gramática que todos os jornais costumam dar, dia­riamente, na já mui maltratada Língua Portuguesa. Escreve o jornalista da pena longa:

A cerimónia que homenageou José Saramago tornou-se polémica pela ausência do Presidente da República, que foi tomada como um erro (não gramatical, mas de falta de bom senso). Mas, se neste caso, dificilmente o Prémio Nobel se incomodaria com a ausência, houve outro caso que dificilmente escaparia à afiada língua do escritor. Um deles foi de António Costa. O autarca até tratou bem dos assuntos protocolares: cedeu os Paços do Concelho, recebeu os familiares e deixou algumas palavras sentidas, mos­trando apreço pela herança viva que deixou ao País. Mas foi na herança que saiu o pontapé no dicionário, quando disse que Saramago “desinquietava” o País. Ora, se “desinquietava”, seguramente não “inquietava”. Certo? Ai, o português!

É caso para gritar: “Ai, senhor jornalista, que falta de vocabulário tem no seu thesau­rus!” Não foi primeiro ao dicionário, como devia, e como tal saiu-lhe crassa asneira da ponta de tecla. Desinquietar, em qualquer tira-teimas da Língua Portuguesa, significa inquietar, desassossegar. E foi na acepção de desassossegar que António Costa empregou o verbo. Não conhece o douto jornalista o adjectivo de origem popular desinfeliz? Não deve conhecer. É citadino, plastificado, e não deve gostar dessas pata­coadas da Província, como se costuma dizer, com ar escarninho, na cidade de Lisboa, a mais provinciana do País. Aquele des, colocado antes do verbo e do adjectivo serve tão-só para reforçar a negativa. Se o senhor jornalista tiver uns gramas de honestidade intelectual, deve, no próximo número do jornal, corrigir a calinada de português que cometeu. Para cúmulo, numa vã tentativa de corrigir o Presidente da Câmara Munici­pal de Lisboa, o que significa que praticou duas asneiras seguidas num pequeno texto! Pre­sumo que seja licenciado em Comunicação Social, caso contrário…

Cristóvão de AguiarJune 24, 2010 10:17 am

Foi-se o Sol e veio a chuva e um vento forte e fresco. Águas grossas. Nem a Ilha em frente se enxerga. Aqui diz-se que são os ratos roendo o queijo de São Jorge. O mar, porém, continua prateado e chão. Vejo-o daqui da janela. Não deve demorar-se muito. A chuva. Entisica os ner­vos já de si fragiliza­dos e em franja. Leio mas pouco assimilo. Disper­são total. Não percebo o que vou lendo. A mente rodopiando por Ceca e Meca. Mudo de livro como quem muda de camisa, numa tentativa de ler tudo o que me falta. Vou experi­mentar um de estudo. Dizem que faz bem ao ego reler os livros por que se estudou em outra idade. Tenho alguns comigo, até da ins­trução primá­ria. Hei-de reler a História de Portugal, de Tomás de Bar­ros, para me entir sábio… Tenho na cabeça uma pedra vulcânica. Não terá sido sem­pre assim? O tempo  não pára quieto e anda às aves­sas, como me disse uma vizinha, “Anda o mundo ápsaide­daune…” Foi emigrante e gosta de exibir os seus conhecimentos linguísticos, iu não? Tem um binóculo em cima do peitoril da janela para vigiar os bar­cos que nave­gam no Canal. Sobre­tudo as pessoas nos seus quintais ou que se apro­ximam ao longo da estrada. Este costume vem do tempo da baleação. Logo que se divisava baleia no mar, estalejava um foguete e pas­sava-se pala­vra para que os baleeiros, em suas terras de cultivo, acorressem aos bar­cos varados no ancoradoiro. Como em 1986 acabou a caça à baleia o binó­culo serve apenas para vigiar o semelhante. Um destes dias, queixava-se a vizinha defronte: “ O meu filho não deve andar por bons caminhos; esta noite che­gou-me a casa à meia-noite!” E a outra: “À meia-noite, não; à meia-noite e dez…”

Cristóvão de AguiarJune 16, 2010 9:59 pm

Só se emprega este verbo no plural sempre que signifique ter e seja conjugado em tempos compostos: eles tinham feito grandes progressos na Língua Inglesa ou haviam feito grandes progressos no Inglês, etc. Nunca se deve empregar no plural quando significa existir: Havia uma pessoa na loja da esquina; havia duas, três pessoas na loja da esquina (e não haviam). Houve um espectáculo ontem à noite no Avenida; houve muitos espectáculos em toda a cidade devido às Festas dos Santos Populares (e não houveram); o mesmo com o futuro e o condicional haverá, haveria.(e não haverão ou haveriam, a não ser em tempos compostos em que o verbo haver seja sinónimo de ter.  Mas, é evidente que se ouve e se vê escrito o verbo haver no plural. Cada vez mais. Anda a nossa Pátria sendo lentamente assassinada todos os dias por políticos bem-falantes e bem-pensantes e por outros doutores da mula-ruça, como diria Aquilino. Há, porém, muitas excepções, que confirmam a regra. Só receio que um destes dias elas suplantem a regra em quantidade (o que não é de menosprezar), e fique, depois, a supina asneira legalizada nas gramáticas e nos dicionários, como o já foram muitas (basta consultar o Dicionário da Academia das Ciências!). Reparem na fluência e correcção com que fala o Prof. Adriano Moreira; o Dr. Mário Soares; o Poeta Manuel Alegre; o ex-Primeiro-Ministro António Guterres, para só citar alguns, porquanto muitos outros existem () que sabem exprimir-se com correcção, mas que seria fastidioso enumerar…  Quando acontece ser  o verbo haver conjugado na perifrástica, encena-se uma tragédia linguística em cinco actos e um epílogo. Exemplificando: vão haver em vez de vai haver; continuam a haver em vez de continua a haver… Nesta armadilha vão caindo na esparrela quase todos. Como canários incautos. Até o insuspeito intelectual e mentor político de Ferreira Leite, e de certo sector do seu partido, tropeça na casca de banana que o verbo, manhoso, estende à laia de tapete vermelho, ao longo da frase pronunciada ou escrita, e nela se estatela ao comprido. Escreveu há dias o eloquente membro da Quadratura do Círculo (ou do Circo?): "Mas há mais: e já que se fala de clientelismo e de partidarização do estado, por que razão é que continuam a haver  (sublinhado meu) governos civis?" Ah, grande Pacheco, será que a gramática política se encontra no mesmo estado miserável da que se aprende ou devia aprender na escola?

Cristóvão de AguiarJune 14, 2010 8:45 am

Na casa da Rua das Oliveiras, na minha freguesia onde fui nado e criado! Nítida, na lembrança. Devia ser Verão. Havia mos­cas. Entravam pela porta aberta do quintal. Estava em férias da primeira escola. Minha Mãe, aflita com uma crise nervo­sa, recostada na cadeira de avião, os olhos cerrados para o mundo. Dizia-se que era fraca de sangues. Balelas! Havia sido operada há meses a um bócio. O Doutor Alemão, o taumaturgo judeu que viera para a Ilha fugido ao Nazismo, fez-lhe uma cos­tura que mal se notava. As pes­soas gosta­vam de ver e palpar. E diziam: “É um santo milagreiro, pena ser judeu, a raça que crucificou Nosso Senhor…” O melhor médico da Ilha nos anos da guerra e nos muitos que se seguiram. Tão nova ainda. Minha Mãe. Vinte e oito anos. Meu Pai, na oficina, a dar-lhe no duro, ao calor da forja. Em casa não se podia fazer o mais pequeno ruído.  Eu tinha de apri­sio­nar toda a energia dentro dos varais interiores. Entreti­nha-me a fazer uma esparrela às moscas: uma peneira em cima do tampo da mesa da cozi­nha, um vime ao alto, preso no rebordo, para que ela ficasse meio aberta. Ao meio da superfí­cie abran­gida por baixo do círculo da peneira, punha uma pitada de açúcar para atrair o mos­quedo. Quando achava que já havia uma mão cheia delas, ia muito deva­gari­nho ao pé de minha Mãe e dizia-lhe, à escuta, que ia puxar o vime atado a um barbante. Ao cair, a peneira fazia barulho. E ela assus­tava-se. Sentia um baque. Mas, se a avi­sasse, não havia moleste…

Cristóvão de AguiarJune 8, 2010 10:27 am

“Mataram a Tuna”! – um  dos grandes poemas de Manuel da Fon­seca, e logo a tuna de Mestre Zé Jacinto deixou de percorrer as ruas da Vila, tocando a marcha Almadanim: calaram-se as vio­las e os bandolins, as rapari­gas retiraram-se das janelas, apaga­ram-se seus sorrisos antigos, quando, aos Domingos, se debruçavam nos peitoris, o mistério despon­tando debaixo de suas blusas, para ouvir tocar a marcha Almadanim; a Maria Campa­niça erguia os olhos do chão, para escutar a marcha Almada­nim, sabia-a de cor, como toda a gente, quem sabe se Cata­rina também, por­que, aos Domingos, a tuna de Zé Jacinto per­corria ruas e caminhos tocando a marcha Almadanim; não sou poeta, mas, se herdasse esse dom dos deu­ses e das deusas do sagrado Olimpo, gritaria bem alto, num verso ou a plenos pul­mões, para que se furassem os tímpanos dos medíocres, pio­res ainda que os maus: “assassinaram o programa da manhã da Antena 2!; aí se celebrava a liturgia da música clássica e a comu­nhão da palavra clara, esclarecida, desatropelada, que uma guerra sem quartel, que se desaguou em almeida, acabou por des­mantelá-lo, e a outros de igual valia; ai, este tempo feito de desa­finação e de lugares-comuns, de palavras carunchosas que esfa­queiam a pátria da Língua e vice-versa: “estou a aguardar por mais notí­cias tuas”, e outras barbaridades sem nome, ou “saiam já daqui ou eu eva­cuo, obrigado por ter aceite vir falar aos nossos microfones”; ó pátria nossa sem gramática, cheia de fífias radiodifundidas e televisionadas: “ó Portu­gal, se fosses só três síla­bas/ de plástico, que era mais barato!”Ah, grande O’Neill, organizemos uma nova Tuna Almadanim, entremos pela radio­difusão dentro, expulsemos os ven­dilhões da Antena 2, de discurso desor­ganizado e comido e roído em suas sílabas, da música do plim, plim, pim, pela noite dentro, ponha­mos professo­res que ensinam o bem-dizer a dar lições a quem pos­sui língua entrapada, atrapalhada, caótica, inçada de sínco­pes, o António Macedo poderia ser um deles, a Glória de Matos, a instru­tora de Cavaco Silva, outra, e com certeza que haveria outros, mas, dizem, não é curial ser ensinado e classificado pelo desempenho, isso, então, vírgula: mestres nascemos, mestres conti­nuaremos pelos tem­pos fora, até à destruição completa do pro­grama da manhã, e de outros, à con­sumi­ção dos ouvintes pagan­tes e sem culpa: “Ó meus amigos desgraça­dos /se a vida é curta e a morte infinita /despertemos e vamos /eia! /vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico / como era a Tuna do Zé Jacinto /tocando a marcha Amandanim!

Cristóvão de AguiarJune 6, 2010 9:48 pm

No programa da manhã, intitulado “Império dos Sentidos”, da Antena 2 da RDP, há um locutor (?), Paulo Alves Guerra de sua graça, que pouca graça tem. A velocidade com que fala, atrope­lando as palavras e as frases, na maior parte das vezes sin­copadas, por não saber aonde as pôr ou se esque­cer do que vai dizer a seguir, tornam, para quem a escuta a emis­são, cus­tosa, nauseante e aflitiva. Pouco ou nada se per­cebe do que diz. Então, quando se excita, o que raro não é, parece a malu­quinha de Arroios: car­rega no acelerador, e aí vai disto: uma corrida tra­palhona, caótica, que deixa o ouvinte nervoso e à beira do desmaio ou do vómito… As tempe­raturas do dia, por exemplo, são enunciadas com tal rapidez, que se fica sem saber se é dos Açores, do Continente ou da Madeira que se trata, raramente se percebendo quantos graus de calor ou de frio vai um cristão sofrer… Depois, como tem bicho-carpinteiro na voz e não pode manter-se calado por um segundo, inter­rompe os entrevistados com apartes despropo­sitados e tão velozes, que o ouvido normal se vê e deseja para captar tal fre­quência modulada: só mesmo uma outiva de cão a poderia eventualmente apanhar… O próprio Malaquias, da revista da imprensa, é por vezes inter­rompido, como tem acontecido, porque esse senhor locutor sofre de incontinên­cia verbal, sorte de caganeira enunciativa, e não pode estar quieto, tal o menino hipe­ractivo e birrento que nunca é capaz de pôr o pé em ramo verde: está pedindo uma chapada a tempo, a melhor pedagogia para certas criaturas contumazes… Que saudades de Judite Lima, agora no programa “ Os Nós e os Laços”, que tem consciên­cia, sempre a teve, de como comunicar, naquele tom sereno e nítido com que habituou os ouvin­tes da Antena 2. Nem todos têm dom para determi­nadas profissões ou actividades. Eu, por exemplo, gostaria imenso de can­tar ópera como tenor, mas falta-me a voz, e nenhuma escola ou conservatório ma poderá dar. Penso, porém, que um locutor, se bem treinado, poderá modi­ficar a sua maneira de dizer, apren­dendo a colocar a voz e a não comer as palavras como se estivess a morrer de fome. Tal­vez seja de um curso destes que o locutor de “Império dos Sentidos” necessita. Para bem de quem é ouvinte atento da Antena 2 da Rádio Difusão Portuguesa. Ele e o senhor João Almeida, director da única estação clássica portuguesa, com quem o pri­meiro deve ter aprendido a torpedear os ouvintes com palavras mal articu­ladas, não raro num português paupérrimo e cheio de fífias de linguagem. A Antena 2 agradece e os ouvintes também!

Cristóvão de AguiarMay 31, 2010 9:26 am

No fundo sei muito bem o que me atormenta – a escrita. Já me vai fal­tando nervo. Um escritor meu conhecido dos tempos de estudante, o pri­meiro com quem falei na vida, disse-o há tempos numa entre­vista a um jor­nal literário. Perguntado por que não publicava há mais de vinte anos respon­deu: “Tam­bém gostava muito de jogar ténis, mas faltam-me os múscu­los nas pernas e nos braços; com a escrita passa-se o mesmo; tudo tem a sua época, não é preciso fazer disso um drama…” Tão sim­ples mas tão custoso de se pôr em prática. Já não tenho nada para dizer em escrita. Se calhar, nunca tive senão a ilusão disso. Por que se exige a um escritor que esteja em pleno até à hora da morte? De facto não fica bem ouvir-se: sou um aposen­tado da escrita…

Cristóvão de AguiarMay 24, 2010 9:32 pm

À che­gada, o tempo agoniado, o tecto baixo. A Montanha cingida por um maciço de nuvens pesadas, em grossa muralha. Bastou-me essa adver­sativa para que se toldasse a alegria interior da chegada. Transformou-se numa tristeza inde­finida, velada. Principia sempre por esse agravo. Como um vómito fundo, trouxe-me à boca do estômago a matilha dos fantas­mas. Que queres tu da vida? A Ilha em frente, meio velada, carregou mais a negrura para me sentir sem companhia. A Ilha em frente é uma fiança de que há mais mundo para descobrir!  Chego a casa, e devagar, muito lentamente, tomo-lhe a temperatura. Tudo limpo e nos seus luga­res, como se dela tivesse saído ontem. Sinto-me bem dentro desse refúgio. O meu sonho pedra a pedra construído. Uma casa de escrita, rente ao mar e com uma Ilha defronte. Um luxo!  Enchi-a de livros e de alma, sinto-me mais acon­chegado. Leio e escrevo. A escrita rende  pouco. Guardei para esta altura da vida a releitura de certos clássi­cos mal assimi­la­dos nos tempos de estudante. Neste sos­sego encontro-me nas minhas sete quin­tas. Tenho-os, aqui, encadernados, a olhar-me das estan­tes. Sinto cobiça, mas já não tenho tempo para tamanha empreitada!