“O conteúdo é apaixonante e enternecedor, cheio de afecto; a forma, uma finura, um primor, uma beleza…. Transmitindo ao leitor uma sensibilidade e um deleite dignos de registo. Uma escrita inconfundível e incontornável. “Febril”, como se escreve na contracapa.”
Fernando Couto Alves
Caro Luís Cristóvão e Francisco José:
Foi assim que desde jovem me habituei a chamar-te, a chamar-vos. Entretanto, entraste na alta-roda das Letras e passaste a ser conhecido por Cristóvão de Aguiar, nome que esconde uma já muito conceituada e apreciada figura da Literatura Portuguesa contemporânea.
Por diversas vezes já escrevi sobre ti, pelo que peço que me perdoes se for repetitivo. Se o for é porque continuas a congregar – e cada vez que passam os anos ainda mais – os dotes de um dos mais notáveis escritores açorianos do presente.
Acabei de ler a tua “Catarse – Diálogo epistolar em forma de romance”. Só agora é que o consegui, porque o fiz com muitos intervalos. Sozinho e no silêncio do meu quarto de serão, ri-me desbragadamente à medida que surgiam as tuas estórias, umas atrás de outras, e as do teu irmão Francisco José. Muito bem asseveraste na dedicatória que me fizeste, em jeito de “Aviso à Navegação”: “Os autores deste livro não se responsabilizam pelo choque que, porventura, o presumível leitor possa vir a experimentar. Como diz o título trata-se de uma Catarse ou barrela que, como se sabe, branqueia e limpa a roupa suja, ficando a água negra. Não vale a pena tentar descobrir os referentes, porque não se sabe quem é quem”. Mas tentei…tentei… e logo consegui!… Não era difícil. Lá estão magistralmente espelhados os lugares e as pessoas com quem tu, o Francisco José e eu nos cruzámos na nossa infância, no Pico da Pedra, que nos serviu de berço. Pessoas e lugares que bem poderiam situar-se noutro sítio de Portugal ou de outro país. É aí que reside a universalidade da tua escrita.
Pois é, Luís Cristóvão: realmente, e segundo a minha velhinha “Enciclopédia Fundamental Verbo”, CATARSE é um termo grego que significa limpeza, purificação. E diz-nos mais: Aristóteles atribuiu à música e à poesia uma função catártica como purificadora de paixões. Se Aristóteles atribuiu tal função à música e à poesia, tu – na mesma ordem de ideias – atribuíste-a à Literatura. Não a Literatura açoriana, que não existe, mas à Literatura Portuguesa de significação açoriana. Não me hei-de esquecer que há anos, numa entrevista que me concedeste e inserta no “Açoriano Oriental” desmistificavas, com grande propriedade, este assunto ao afirmares: “O que comummente se tem chamado, com arrogante impropriedade, LITERATURA AÇORIANA, continua a constituir um bem engendrado equívoco de alguns literatos de segunda escolha”.
Em “Catarse”, que agora publicaste surpreendeu-me a escrita de teu irmão Francisco José, seu co-autor. Escorreita, simples, imaginativa e reveladora de uma presença impressionante descrita nos factos trazidos de uma memória colectiva. Ele revelou-se-me (foi uma revelação para mim, acredita!) um lídimo seguidor do irmão Luís Cristóvão em matéria da transmissão dessas memórias. Na forma utilizada, no entanto, é fácil descortinar a diferença do escritor, com o seu talento já formado, com a daquele que inicia as suas lides literárias. A imagem que tenho de teu irmão era bem outra. Não me foge da memória, sim, a sua apetência para cantor. Era, em menino e moço, o “Joselito de S. Miguel” ligado à interpretação fantástica e fidedigna de Campanera. Referiu-se-lhe, assim, a comunicação social do princípio dos anos sessenta, se não me falha a memória.
Quanto à tua postura no livro que, mal ou bem, este registo pretende referenciar, sobre ele uma vez mais opino: a universalidade da tua escrita é indesmentível. O leitor do Minho ou do Algarve, dos Açores ou da Madeira revê-se no que procuras transmitir. Assim nos habituaste. O conteúdo é apaixonante e enternecedor, cheio de afecto; a forma, uma finura, um primor, uma beleza. Transmitindo ao leitor uma sensibilidade e um deleite dignos de registo. Uma escrita inconfundível e incontornável. “Febril”, como se escreve na contracapa. Por mais de uma vez te apelidei, e nunca me cansarei de o fazer: És um notável “serralheiro da escrita”, como teu pai o era do ferro.
Não resisto em citar alguém que, com grande propriedade e sentido crítico, escreveu, há mais de 30 anos, sobre o teu premiado Raiz Comovida – A Semente a a Seiva. Trata-se de Vasco Pereira da Costa, que, de uma forma objectiva e concludente, observou: “Este livro é só isto: a revivificação da língua portuguesa e a superação do neo-realismo através de uma imaginação verbal que só vista e de uma criação formal que nos calha a desbancar. Nunca os Açores foram tão bem narrados… A ilha do Pico da Pedra está inteirinha no mundo em que tropeçamos. Preciso é compreendê-la. Foi o que Cristóvão de Aguiar fez”… Esta citação aplica-se, como uma luva, a Catarse.
Luís Cristóvão, meu caro, mais uma vez provaste de que estás vivo e bem vivo. Mais: és como o “vinho do Porto”, quanto mais velho, melhor.
Daqui vai um abraço de parabéns, extensivo a teu irmão Francisco José.
Fernando Luís
