O primeiro nevão na montanha mágica da Ilha do Pico
Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago
No JL, de 3 de Novembro, Miguel Real, entre muitas outras coisas, escreve: “Em Caim permanece o estilo tradicional de Saramago (já amiúde analisado), tanto barroquizante (…) (uma floresta de palavras (sublinhado meu) ilustradora de uma ideia) e anarquizante (uma espécie de everything goes), isto é, a confluência de um léxico antigo e vernacular – avonde (pp.16 – com um vocabulário moderno, desenhando um melting pot semântico, aparentemente espontâneo, pelo qual a lógica do texto cria as suas próprias hierarquias gramaticais e ideológicas (…)".
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ou a Bíblia segundo Saramago
Nada há de novo debaixo da rosa do Sol! Nem tão-pouco o tema de Jesus Cristo, que Saramago, no seu Evangelho, apesar de páginas sublimes, não consegue desmistificar o emaranhado que se teceu à volta da figura de Jesus e seus discípulos, sendo por vezes mais fácil acreditar no Novo Testamento do que na versão saramaguiana (coteje-se os dois textos sobre o milagre das Bodas de Caná, o da Bíblia e o do Evangelho), e ficar-se-á elucidado. Essa tarefa desmistificadora coube, porém, entre outros, a Renan, em A Vida de Jesus), a Gèrard Messadié, em Um Homem que se tornou Deus, que o autor transformou em romance (edição esgotadíssima da Difusão Cultural, que esteve ao lado do Evangelho, nas livrarias, et pour cause). (more…)
Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago
Saramago analisa o texto bíblico ao pé da letra. Atente-se nesta invectiva do Nobel a um teólogo, numa entrevista televisiva:
“Que autoridade têm os senhores para pôr na Bíblia o que lá não está escrito?” Que me desculpe o escritor, mas parece que a sua interpretação bíblica pede meças à das Testemunhas de Jeová e à dos Adventistas do Sétimo Dia, que esperam Cristo desde 22 de Outubro de 1844, pelas contas feitas, e bem feitas, pelo seu fundador, William Miller, antes pertencente à igreja Baptista e depois fundador do Adventismo por ter interpretado a Bíblia de modo diferente do dos baptistas. Nas suas contas baseou-se nas profecias de Daniel. Está escrito! E o que está escrito é a palavra de Deus… e a ela não se pode mudar um til! Deu no que deu: em 22 de Outubro de 1844, toda a gente, de olho no céu, à espera e Jesus não desceu… Grande foi a desilusão: ficou para a história como o Dia do Grande Desapontamento. Houve debandada quase geral dos fiéis. Sentiram-se defraudados: foram enfileirar-se noutros credos, fundando outros… Mas, e há sempre uma interpretação à letra que nos pode sair ao caminho: Os poucos que restaram fiéis à igreja, agora dirigida por Helen White, a profetisa dos adventistas, escreveu: Cristo realmente principiou a viagem, mas ficou a meio, em quarentena, num lugar entre o céu e a terra, esperando por melhor ocasião para aterrar no nosso planeta…
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ou a Bíblia segundo Saramago
Em continuação do santo Evangelho segundo José Saramago, é bom não esquecer que o tema do pecado de Caim, o primeiro assassino da humanidade, a tomar como verídicas as palavras do Génesis, não foi uma novidade trazida pelo nosso Nobel à Literatura. Já antes dele, Byron, Baudelaire, Victor Hugo e Tournier trataram do assunto com outra elevação, adiante-se já a bem da verdade. O que irrita em Saramago, neste seu último romance, é a leviandade e a pobreza de ideias e falta de argúcia interpretativa com que trata os textos bíblicos, não raro lançando mão de uma linguagem escabrosa, que pouco dignifica quem a utiliza.
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ou a Bíblia segundo Saramago
Sabendo-se pouco, isto é, sem a profundidade necessária, sobre o que se quer destruir, distorcer ou criticar, pode entrar-se num jacobinismo sem consequência, apenas para chocar o burguês, ou num anticlericalismo primário, como aconteceu durante o século XIX. Nesse tempo, o Deus do Velho Testamento era já considerado cruel, sangrento, bruto, tudo quanto dele diz agora, em segunda mão, o nosso Nobel da Literatura. Nada de novo, portanto! Dou como exemplo o poeta Guerra Junqueiro e o seu livro A Velhice do Padre Eterno. Quem o lê hoje? Quem se incomoda com as suas diatribes? Ouçamos Guerra Junqueiro:
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ou a Bíblia segundo Saramago
Tomei de empréstimo a Shakespeare o título de uma das suas mais hilariantes comédias. Penso que retrata bem a situação criada à volta da última obra de José Saramago, Caim. O muito barulho continua a furar-nos os tímpanos, e há-de continuar até à náusea, tanto na imprensa escrita como na difundida: artigos, entrevistas, opiniões públicas na rádio e televisão, em que ouvintes e telespectadores opinam sobre o que sabem e não sabem, maneira muito portuguesa de ser mestre em toda a arte, ou burro em qualquer parte, enfim, tudo o que imaginar se possa: até teólogos, politólogos e outros pedagogos de alto coturno… A origem de tal alvoroço na capoeira da paróquia reside nas declarações, estratégicas ou não, do autor do livro, no dia do seu lançamento, em Penafiel. O nada de toda esta lagariça será o romance que, na minha modestíssima opinião, está longe de merecer tamanho alarido.
(more…)Carta à minha neta Ana Laura no seu primeiro aniversário
Minha Querida Ana Laura,
Justo há um ano, meu amor! Teu choro primigénio transpôs o portal do mundo e nele entraste coroada de entidade. Mesmo na longitude onde me recolhia, ouvi-o e agasalhei-o no abrigo que construí dentro em mim – era o primeiro timbre da tua voz, e eu quis guardá-lo. Tem-me servido de pão com que sustento a saudade e me adoça as agruras de tantas solidões que me açoitam o peito e escurecem o crepúsculo para onde viajo.
Desse nítido dia vertical, relampeja-me na lembrança o brasido da ternura que me invadiu nesse instante. E perdurará, até o tempo deixar de conjugar-me. Sinto-me apto a palmilhar todos os longos segundos que demoraste na jornada entre o teu ainda quase não ser e o teu ser em sua explodida inteireza. O teu destino é amanhecer devagar.
O Vovô ainda se encontra sobre mesmo penedo, no meio do mar imenso. Sinto-o e vejo-o e contemplo-o da janela do sótão. Por mais um triz, batia-me à porta, e eu deixava-o entrar para fraternizarmos os dois. Somos velhos amigos de infância e de jornada. É bom companheiro e conta-me histórias de adormecer. Do tempo em que o Vovô mergulhava no sono e no sonho embalado pela mansuetude do seu sussurro ou pela braveza do seu ribombar contra as falésias.
Nesse tempo, o mar pernoitava ao lado do berço do teu Vovô, ainda menino como tu. Muito mais de um carro de anos se escoaram, e o mar, apesar da sua constância, decidiu entornar-se para dentro da caixa-de-ressonância de um búzio… Imita a sua voz e faz-me companhia nas marés vazas… O berço, porém, ainda está aí, dando testemunho, em sua rija madeira de castanho, de uma remota presença, já delida pela usura do tempo. Mas sinto que ele, tal como eu, sente saudades do mar antigo e das embaladas noites de vento e chuva ou bêbedas de lua.
Um dia, minha querida neta, hei-de contar-te um caso. Um caso, conto ou história, tanto faz, sobre minha vida comprida, não sei se cumprida, os sangues que te precederam e de que teu Vovô se originou e de alguns deles coetâneo… Nesse dia – tenho a certeza –, virás enroscar-te no meu colo, derramarás os teus tranquilos olhos da cor do mar nos meus, sobre ti descerá uma capa de silêncio, porque queres sorver o licor da palavra conversada. Tenho esperança de que o tempo me não vai atraiçoar. Ele e o destino pelam-se por jogar xadrez num tabuleiro de casas imprevisíveis…
Sou um garajau. Ave marinha de arribação, espera o Outono para tomar o rumo do vento e seguir a rota da migração. Depois, regressa ao seu penedo. Regressa sempre. Vem do reino do Sol, e logo que ele arrefece, retorna à origem. Se emigrasse, talvez não voltasse. O Vovô há-de um dia emigrar. Para que reino, não sei… Talvez do Sol, talvez da Noite!
Ao escrever-te esta carta fico com a sensação de que estou a endereçar-me ao futuro. A ti. O Vovô já o teve fechado na mão. Escapou-se-lhe num dia cansado. Sei que para ti o tempo não existe, é redondo. Um destes dias, ao meu colo, reclinaste a tua cabecinha no meu peito. Olhaste-me e sorriste. Decorei ambos, o olhar e o sorriso. Depois, tombaste no sono, serena na tua inocência. Nesse instante, senti que o universo se havia enroscado no meu colo para adormecer contigo… Por muitos anos, meu amor. Vive-os em plenitude.
Teu Avô paterno.!7 de Julho de 2009
Carta a uma dilecta amiga inventada
e a mim próprio remetida
(more…)Reflexões sobre a Ilha onde nasci (5)
Todos os nossos mestres, pensávamos, eram homens de bem, não se metiam em política, temiam a Deus, eram profundamente religiosos… Mas, por outro lado, o mais grado deles era Chefe dos barrigudos da Legião Portuguesa, outros eram Integralistas e consideravam Salazar como o novo Messias anunciado, outros eram, enfim, nem vale a pena continuar, caso contrário, não haveria tempo que chegasse.
(more…)Reflexões sobre a Ilha onde nasci (4)
Não tenho a mínima dúvida de que esse professor feriu gerações de almas jovens, incutindo-lhes valores cediços e bolorentos, racistas e retrógrados, fornecendo-lhes visões da sociedade e da vida e da relação entre os homens tão aviltantes, que só podiam ser possíveis num regime fascizante e injusto, embora a pomposa voz de Hermano Saraiva, televisivo divulgador de histórias, que não da História, viesse há tempos proclamar que Salazar era profundamente antifascista… Por quem Deus nos manda os avisos!
(more…)Reflexões sobre a Ilha onde nasci (3)
Foi na chamada Ilha do Arcanjo que me fui conscientizando das inqualificáveis desigualdades que, na altura, como no tempo de Arruda Furtado, lá imperavam. E ainda se fazem sentir, apesar dos esforços em sentido contrário. Nesse tempo de tomada de consciência de tais injustiças que vi de perto e senti na pele, tornei-me revoltado. Um revoltado ainda sem consciência revolucionária: era ainda uma nebulosa que dentro em mim pairava, ainda sem contornos definidos…
(more…)Reflexões sobre a Ilha onde nasci (2)
Os ilhéus já não podem mais consentir o que em 1884 escreveu sobre o nosso Povo Arruda Furtado, um naturalista e cientista micaelense radicado em Lisboa: “Estamos em face de um povo sem instrução, com os sentimentos mais grosseiros, servindo nos seus quatro séculos de existência a uma completa exploração. Encontrando facilmente na cultura rotineira do solo os recursos de que carecem e uma emigração fácil no caso contrário, nada os obriga a desenvolver a sua inteligência curta, e são, para o encobrir, excessivamente manhosos, condição que acusam no falar ronceiro, mastigado, e respondendo sempre vagamente ao que se lhes pergunta. Sem dúvida, como por toda a parte, encontra-se inteligências notáveis nos nossos cavadores, mas é extremamente raro o camponês micaelense, e o camponês micaelense é essencialmente cabeçudo”.
Não sou político naquele sentido militante de que são exemplos, dignos, ou indignos, muitos dos que nos governam ou se governam, que ainda acredito não ser o mesmo. É uma actividade que considero das mais nobres, quando exercida com o significado de intervenção na polis. Mas o facto de dizer que não sou político, estou já a sê-lo, na profundidade do eu.
Militante, sou-o, não como desejava, da escrita… E um escritor não pode nem sequer tem o direito de se alhear do mundo, sob pena de a sua escrita ser mentirosa. E nada pior para um escritor do que ser acusado de mentir ou de bajular na escrita. Não me refiro, obviamente, à mentira da ficção, que, pela sua plausibilidade, é ainda mais verdadeira do que a realidade, à qual vai o artista de qualquer quadrante retirar a matéria-prima de trabalho, transfigurando-a.
Reflexões sobre a Ilha onde nasci (1)
São Miguel já não é a mesma Ilha onde fui nado e criado e vivi até à arrogância dos vinte anos. Pude verificá-lo, há pouco, durante o 4.º Encontro Açoriano da Lusofonia, em que, para regozijo meu, não encontrei os costumeiros intelectuais de pacotilha, que sabem tudo quanto no Universo se passa, com retrato de pose na galeria dos imortais há muito mumificados…
(more…)A Internet tem sido ao longo destes últimos anos um local infeto no tocante a certa publicidade enganosa, a alarmismos infundados, a ameaças de quebrar correntes de solidariedade lamecha, e muito outro lixo do mesmo jaez. Apenas um exemplo: a Coca-Cola seria de uma malignidade tamanha, que se pusesse um pedaço de carne, num copo cheio dessa água suja do imperialismo, o bife desfazer-se-ia enquanto o dialho esfregava um olho e coçava o cu pelado de muito inferno sofrido… (more…)
Reflexões sobre o acordo ortográfico (conclusão)
O meu “conflito” inicial com o novo acordo ortográfico devia-se tão-só a uma mera estranheza afetiva. Estava longe de trajar-me de mosqueteiro e terçar armas pelo sim ou pelo não. Ao princípio, ver grafado ótimo sem p; ação sem c, veem sem circunflexo no primeiro e; para (sem acento agudo, terceira pessoa de parar e também preposição); pelo sem circunflexo para designar cabelo, pode confundir-se, mas também temos molho, que significa duas coisas: (môlho e mólho), tendo o plural duas pronúncias môlhos, da culinária, e mólhos, feixes de lenha; espetáculo, e algumas outras palavras do mesmo jaez, como seleção das quinas, arquiteto, teto da casa, atual situação do protecionismo estatal, etc., deixam-nos, ao princípio, um pouco perplexos, e a nossa reação traduz-se numa quase orfandade consonântica, que passa com um luto bem feito. No entanto, quando a consoante muda se articula, como em faccioso, ficcional, perfeccionista, bactéria, ela mantém-se no seu posto. (more…)
Reflexões sobre o acordo ortográfico (I)
Quando me ponho a pensar no mérito ou demérito destas charlas sobre a Língua Portuguesa, chego pelo menos a duas conclusões distintas, consoante os dias, isto é, conforme o humor (catadura, ourela, como se diz na Ilha: acordou de má ourela!) com que o sol me nasce: umas vezes julgo que estou a prestar um serviço útil à Humanidade (não o faço por menos…), outras, arrenego das patacoadas que me não canso de escrevinhar. (more…)
Era Abril, de madrugada,
Alguém gemeu no escuro:
Uma mulher revoltada
Dava à luz o Futuro.
António Simões
Bico-de-obra diacrítico (conclusão)
Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográfico, também ele em letárgico stand-by… (more…)
Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográfico, também ele em letárgico stand-by… (more…)
A ciência escatológica e a coprológica, achegas para um estudo mais aprofundado… (III)
A ciência escatológica e a coprológica, achegas para um estudo mais aprofundado… (II)
A ciência escatológica e a coprológica, achegas para um estudo mais aprofundado… (I)
Superlativos absolutos sintéticos e analíticos
In illo tempore, quando eu era ainda estudante, chamava-se absoluto simples ao absoluto sintético, o que não traz nenhum mal à gramática, porque, no fundo, ambos significam o mesmo. Assim ou assado, isto é, tanto um como o outro, terminam da mesma forma: -íssimo, -imo, -rimo: inteligentíssimo, facílimo, libérrimo, consoante o adjectivo: o João é um aluno inteligentíssimo; o exame de Matemática foi facílimo, sorte de maná caído do céu, que beneficiou os alunos e nutriu as estatísticas do Ministério da Educação; é uma rapariga libérrima e acérrima defensora do amor livre (acérrimo: muito acre, fortíssimo, pertinaz, obstinado)! O adjectivo sintético diz-nos logo o motivo por que se chama superlativo sintético – é reduzido a uma palavra, no caso um adjectivo elevado ao seu mais alto grau. Em relação ao superlativo absoluto analítico, ao invés, necessita de um advérbio intensificador (muito, bastante, bem, assaz, imensamente – daí o ser analítico) – advérbio que permanece invariável (atenção a esta regra). O aluno é muito (muitíssimo) inteligente, os alunos são muito (muitíssimo) inteligentes. A professora chegou à sala de aula e disse para os alunos: trago-vos os exercícios corrigidos; há muito boas notas, poderia dizer também: há notas muito boas! Nunca muitas boas notas. Obrigado pela atenção.
Quanto à pergunta formulada, tens toda a razão (não se deve dizer colocada; não se colocam perguntas, muito menos questões: fazem-se ou formulam-se perguntas). Quanto à tua dúvida, deve ser salvo e não salve. (more…)