por Paulo Rabello de Castro
Publicado na revista Época de 15 de novembro de 2009

Faz um ano que o povo americano viu sua economia desabar. De lá para cá, apesar da aplicação de choques poderosos, na voltagem de mais de 2 trilhões de dólares, se somados os planos de socorro aos de estímulo, a produção recuou forte e mais 3 milhões de desempregados se juntaram às filas de assistência. Obama havia prometido segurar o desemprego, “criando ou mantendo 4 milhões de postos de trabalho”. A realidade operou para desmentir o presidente. A linha do desemprego, de 10,2% e ainda subindo, é a maior do pós-guerra.

Novas propostas de estímulo chegam à mesa de Obama todos os dias. O perplexo presidente é pressionado a dobrar a aposta no aumento dos gastos de governo, como uma espécie de solução mágica keynesiana para a falta de apetite dos consumidores. Mas o afrouxamento monetário e fiscal, traduzido em emissões descomunais e um déficit orçamentário recorde em 2009, apenas assegura o agravamento da instabilidade do dólar como moeda de aceitação universal. Esse tipo de filme já passou antes, quando os EUA enfrentaram o rescaldo do Vietnam e os choques de preço do petróleo nos anos 70. Foi preciso dominar uma inflação brava e a fórmula adotada por Paul Volcker nada teve de keynesiana: juros de dois dígitos e muita teimosia contra os apelos do mercado financeiro, que queria o relaxamento das medidas.


Desta vez, o suave Bernanke, sucessor de Volcker no FED, segue pela linha da acomodação, trazendo os juros para o território negativo, o que favorece o prosseguimento dos sintomas de uma “rebolha” em Wall Street, que ameaça estourar com efeitos mais perversos que a do ano passado. A pergunta desesperada nessas horas é sempre a mesma: teria outro jeito, além de prosseguir no socorro à economia anêmica? A resposta exige uma inversão na prioridade da política de saída da crise. Os EUA precisam de mais produção, antes de ter mais consumo. Explico. Durante duas décadas eles puxaram o consumo mundial, gastando mais do que podiam e muito mais do que fabricavam. A China e outros lucraram com isso. Seguiu-se o endividamento da sociedade. Agora, a saída está em produzir mais do que consumir (isto é, poupar e investir) por alguns anos.

Acontece que economia mundial também respondeu de modo sincronizado e recuou em seu nivel de consumo. Isso obriga os EUA a realizar um corte mais profundo e perigoso no valor do dólar, contra as demais moedas. O objetivo dos americanos é vender mais, exportar mais do que importam, de modo a reduzir sua necessidade de rolar dívidas. Mas se os demais países encolherem sua demanda, o esforço será redobrado. Uma lição histórica poderia ser repetida neste momento. Trata-se do Plano Marshall, concebido como ajuda à reconstrução da Europa no  pós-guerra. Este plano de ajuda não só acelerou a recuperação da destruida economia européia, como serviu de alavanca para a maior expansão americana desde a Depressão.

Os Estados Unidos precisam de um novo plano externo. Só que com os objetivos invertidos. O novo Marshall, um plano de desenvolvimento de nações de renda média e baixa, financiado pelos EUA com um vínculo à demanda por produtos e serviços “made in USA”, teria um impacto significativo não só nos países recebedores do financiamento, como principalmente, deflagraria mais demanda por produção americana. Ao invés de apenas incentivar mais consumo doméstico e produção não exportável, o novo Marshall, ou “Shallmar” – porque invertido em sua finalidade principal, jogo de sílabas sugerido por Fernando Pimentel, economista e ex-prefeito de BH - provocaria mais produção e poupança para o  próprio país financiador do programa. Ajudar os outros virou auto-ajuda.

As guerras do Afeganistão e Iraque são, por natureza, destrutivas. Mas um plano “Shallmar” geraria para Obama não só a recuperação mais segura da produção nos EUA, mas de quebra, daria sentido prático a sua escolha, por enquanto incoerente, de prêmio Nobel da Paz