Destruição de emprego em Portugal e a adesão ao euro
Por Fernando Alexandre, Pedro Bação, João Cerejeira e Miguel Portela
A economia portuguesa não escapou ao processo de desindustrialização que desde o início dos anos 80 afectou a maioria dos países desenvolvidos: de acordo com a OCDE, entre 1988 e 2006 a percentagem da população activa a trabalhar na indústria em Portugal diminuiu de cerca de 25% para 18%. Na figura 1, que apresenta a evolução naquele período do peso das manufacturas, por nível de tecnologia, no emprego total por conta de outrem, podemos ver que a desindustrialização em Portugal incidiu exclusivamente nas indústrias de baixa e média-baixa tecnologia. As manufacturas perderam cerca de 150 mil empregos entre 1988 e 2006, o que no essencial corresponde aos empregos perdidos no sector do têxtil e calçado. No entanto, apesar destas perdas de emprego, deve salientar-se que, em 2006, os sectores de baixa e média-baixa tecnologia ainda representavam mais de 80% do emprego total por conta de outrem nas manufacturas.
As inovações tecnológicas e a globalização têm sido apontadas como as principais causas da desindustrialização dos países desenvolvidos nas últimas décadas. No entanto, nenhuma mudança estrutural na economia portuguesa, como a da tendência decrescente observada no emprego dos sectores industriais de baixa tecnologia acima descrita, poderá ser explicada sem se tomar em consideração os efeitos directos e indirectos da integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia em 1986, a adesão ao Sistema Monetário Europeu (SME) em 1992 e a participação no euro em 1999. Um dos efeitos directos da adesão ao SME e ao euro foi a restrição imposta aos movimentos da taxa de câmbio nominal.
Entre 1988 e 1992, com a preparação da adesão ao SME e o consequente abandono do regime de desvalorizações competitivas que vigorava na economia portuguesa desde finais dos anos 1970, registou-se uma apreciação real da moeda portuguesa superior a 20% (ver figura 2). O período que se seguiu à crise do SME, em 1992 e 1993, e à decisão de adesão ao euro, caracterizou-se por pequenas variações na taxa de câmbio real efectiva. Entre 1999, ano da adesão ao Euro, e 2006, a taxa de câmbio real efectiva apreciou-se cerca de 7%.
A teoria económica sugere que se investigue a coincidência entre a diminuição do emprego nas manufacturas e a apreciação da taxa de câmbio real efectiva. A taxa de câmbio real reflecte alterações nos preços dos bens nacionais relativamente aos preços dos bens estrangeiros, que afectam a competitividade internacional das empresas. Vários estudos mostraram que apreciações fortes e prolongadas da taxa de câmbio real, isto é, um aumento dos preços dos bens nacionais relativamente aos bens estrangeiros concorrentes, podem resultar numa destruição significativa de postos de trabalho: por exemplo, dois economistas americanos (William Branson e James Love) estimaram que a apreciação do dólar em cerca de 30% na primeira metade da década de 1980 terá provocado a perda de um milhão de postos de trabalho.
Na avaliação do impacto das variações cambiais, a teoria tradicional do comércio internacional enfatiza o grau de exposição à concorrência internacional. As conclusões desses estudos mostram que os sectores mais dependentes dos mercados externos, quer para a exportação de produtos, quer para a importação de matérias-primas, são os mais afectados pelas variações da taxa de câmbio. No entanto, os novos modelos de comércio internacional concluem que a reacção à abertura ao comércio internacional e a choques externos dependem também das características das empresas. Neste contexto, um artigo recente concluiu que a reacção das empresas a variações cambiais depende da sua produtividade: as empresas de baixa produtividade face a uma apreciação da moeda reduzem as quantidades exportadas, enquanto as empresas de elevada produtividade optam por fazer o ajustamento nas margens de lucro. Fazendo uma extensão dos resultados daquele modelo para o mercado de trabalho, os autores deste artigo concluíram que o emprego nos sectores mais expostos à concorrência internacional e com menor produtividade é o mais afectado pelas variações da taxa de câmbio.*
Sendo a economia portuguesa muito aberta à concorrência internacional e predominando na sua estrutura produtiva as empresas de baixa tecnologia, aqueles resultados sugerem que a apreciação da taxa de câmbio real poderá ter sido um importante factor na destruição de emprego nas manufacturas no período 1988-2006. Esta hipótese é corroborada pelos testes empíricos, que sugerem que os sectores da economia portuguesa mais afectados pela apreciação da taxa de câmbio real foram os sectores com menor conteúdo tecnológico, a que corresponde uma menor produtividade, e dentro destes, os que estão mais expostos à concorrência internacional. Entre estes sectores encontra-se o sector do têxtil e calçado, que, como foi referido, registou uma destruição líquida de empregos correspondente, aproximadamente, ao total de empregos perdidos nas manufacturas naquele período.
PS Artigo também publicado aqui.

Excelente peça de trabalho económico. Útil e oportuna.
Ficou-me uma questão de ordem prática.
Entre 1988 e 2006 perderam-se 157.703 empregos nos sectores com mais baixa incorporação de tecnologia.
O Fernando Alexandre e os seus Companheiros mostram que as elasticidades (da resposta) do emprego dum sector em relação a variações da taxa de câmbio real são diferentes consoante o grau respectivo de incorporação de tecnologia. Nos sectores «high tech» o coeficiente da resposta é insignificante. Mas nos sectores «low tech» o coeficiente é igual a 4,8 i.e. a cada ponto percentual da variação (positiva/negativa) da taxa de câmbio real está associada uma variação (negativa/positiva) do emprego que é 4,8 vezes maior.
Portanto, uma subida de cerca de 20 por cento da taxa de câmbio real deve estar associada a uma quebra de cerca de 96 por cento do emprego nos sectores «low tech».
Ou seja, só pelo efeito da taxa de câmbio real deveriam ter sido destruídos entre 1988 e 2006 mais de 741.000 empregos nos sectores com mais baixa incorporação de tecnologia. Vai-se então ter que explicar quem foi responsável pelos cerca de 584.000 postos de trabalho que acabaram por resistir.
Obrigado.
Comment by F — November 4, 2009 @ 6:22 pm
Muito interessante! Mais uma vez se prova que esta “Europa”, Euro, etc favorece os paises ricos e empobrece os paises pobres. Festejam o Euro , mas esquecem os 741.000 desempregados imersos na tragedia de mudar de vida! Eu acrescentaria um sub-titulo ao artigo: a verdade que Barroso esconde. Que esperamos para revindicar um referendum a Lisboa, renegar Lisboaa, e revogar / renegociar cada clausulado particular desde o tratado de Roma?
Comment by Lardozo — November 5, 2009 @ 5:41 pm
“Entre 1999, ano da adesão ao Euro, e 2006, a taxa de câmbio real efectiva apreciou-se cerca de 7%.”
A que se deveu essa apreciação, se nesse período a moeda portuguesa foi sempre o euro?
Comment by Luís Lavoura — November 5, 2009 @ 6:47 pm
Luís Lavoura, penso que essencialmente devido a duas coisas. Primeiro, apreciação do Euro face às restantes moedas mundiais. Segundo, dentro da zona Euro, a nossa inflação terá sido um pouco mais alta que a dos restantes países.
Penso também que há outro efeito, se se calcular a taxa de câmbio efectiva por sector de actividade também nesse aspecto Portugal sai mais penalizado, dada o nosso padrão de especialização produtiva. De qualquer forma vou dizer a um dos meus colegas para passar por aqui e responder às vossas perguntas.
Lardozo, nós é que não nos preprámos devidamente para o Euro. Não culpemos o Euro das nossas incapacidades.
Comment by LA-C — November 5, 2009 @ 6:57 pm
LA-C,
gostei desta sua frase:
“nós é que não nos preprámos devidamente para o Euro. Não culpemos o Euro das nossas incapacidades”
De facto, o problema não é do Euro, o problema é de nós não sabermos viver com ele.
O problema é que o Euro exige flexibilidade interna na nossa economia. Exige a capacidade de diferentes setores da economia subirem ou descerem os salários que praticam de forma diferenciada. Exige a possibilidade de despedir trabalhadores. Exige a possibilidade de baixar salários.
Não se pode gerir uma economia aberta e com uma moeda fixa da mesma forma que se gere uma economia fechada ou uma economia com uma moeda móvel. Numa economia aberto com moeda fixa tem que haver flexibilidade interna, para que os trabalhadores possar ajustar os seus empregos e os seus salários em função da procura internacional.
Comment by Luís Lavoura — November 5, 2009 @ 7:19 pm
Caro F.
Obrigado pelo seu comentário. Interpreta bem o valor da elasticidade, mas não o pode extrapolar para um intervalo de valores tão grande (20%). O efeito encontrado deve ser percebido como um efeito no emprego devido a variações marginais na taxa de câmbio, ou para ser mais preciso, para pequenas variações na sua tendência de longo prazo (uma vez que os valores da taxa de cambio são filtrados das variações de conjunturais de curto prazo). Além disso, deve considerar a condição “ceteris paribus”, ou seja, tudo o resto (para além da taxa de câmbio) deverá permanecer constante. No nosso modelo são incluídas outras variáveis, nomeadamente efeitos específicos para cada ano. Assim, ao mesmo tempo que a taxa de câmbio se foi valorizando, outras variáveis macroeconómicas podem ter contribuído para atenuar o efeito da apreciação, nomeadamente o crescimento do produto que se verificou até ao final da década de noventa.
Mas para nós, mais importante que magnitude, foi o sentido da causalidade que foi encontrada, ou seja, a apreciação implicar uma perda no emprego dos sectores mais abertos e de baixa tecnologia.
Comment by João Cerejeira — November 5, 2009 @ 11:32 pm
Caro Luís Lavoura
O Luís Aguiar respondeu correctamente à sua questão, relativa à apreciação no período pós adesão. Mas é de realçar que a apreciação verificada em Portugal nestes 19 anos foi das mais elevadas no conjunto dos paises que aderiram ao Euro. Só a Grécia apresenta uma evolução semelhante.
Comment by João Cerejeira — November 5, 2009 @ 11:37 pm
João Cerejeira: Muito obrigado pela sua resposta.
Comment by F — November 6, 2009 @ 3:04 am
João Cerejeira,
o seu comentário 7 ilustra que o problema de Portugal foi ter tido, desde 1988, uma inflação acumulada superior à de todos os restantes países da Zona Euro, com exceção da Grécia.
Ou seja, em larga medida a culpa foi de Portugal, que não soube controlar a sua inflação interna.
A que se deveu esta inflação excecional? Sem dúvida, ao extraordinário peso político que o setor não-transacionável da economia tem em Portugal. Esse setor permite-se aumentar desregradamente os salários, tornando a inflação em Portugal excessivamente alta e acabando por lixar o setor transacionável.
Enquanto esse problema não fôr encarado e tratado, continuaremos a ter aumentos de custos incomportáveis para a nossa competitividade externa.
Comment by Luís Lavoura — November 6, 2009 @ 12:21 pm
Luís, sem dúvida que o que diz é relevante (pelo menos na minha opinião). Mas há também um outro factor que não podemos esquecer. Num espaço comum os preços tendem a igualar-se (pelo menos depois de ajustado os custos de transporte e diferenças fiscais). Portugal tinha um nível de preços mais baixo, pelo que seria sempre de esperar algum excesso de inflação. Outra questão que isto levanta tem a ver com a política cambial dos anos 90. Lembra-se que sempre que a espanha desvalorizava a moeda Portugal também ia atrás, mas desvalorizava menos do que a Espanha? E a Itália, que conseguiu entrar no Euro com uma taxa de câmbio artificailmente desvalorizada. Nós, talvez para combater a inflação, mantivémos sempre a nossa moeda sobre-valorizada, cuja factura pagamos hoje ao termos de enfrentar um choque maior, em vez de fazer um ajustamento mais suave.
Não veja nisto que digo afirmações peremptórias. São mais hipóteses de trabalho do que outra coisa.
Comment by LA-C — November 6, 2009 @ 12:45 pm
Eu ontem agradeci ao João Cerejeira a resposta. Hoje, que sei que interpretei bem os Vossos resultados, envio a resposta que eu gostaria de ter recebido ao meu comentário de anteontem sobre o que considero ser a (agora para mim, ainda mais que) excelente peça deste Vosso trabalho.
O Vosso trabalho tem dois grandes resultados. Primeiro, mostra uma coisa que ninguém até aqui mostrara: que a política cambial dos últimos 20 anos teve um impacto real, especialmente no emprego da mão-de-obra dos sectores onde a incorporação de tecnologia é mais baixa.
Depois, mostra que este impacto real foi muito grande. Que Vocês estimam (insisto) como sendo da ordem dos quase 750.000 postos de trabalho naqueles sectores, entre 1988 e 2006. É um valor muito grande. Mesmo chocante,… com o senso comum.
Mas ao economista enquanto cientista não cabe «assustar-se» com números grandes. Cabe-lhe só interpretá-los. Não pode justificar a falta de bom senso duma estimativa estatística com base em argumentos da Análise Real. Porque a ciência pode ser muita coisa, mas há uma coisa que nunca deve ser: parte do senso comum.
O que se pode dizer neste caso é que Vocês conseguiram por fim abrir a «caixa» da Verdade. E o primeiro «bicho» que de lá tiraram foi o maior. Os 750.000 empregos são um grande «bicho». Mas há lá mais. Porque agora que tiraram o maior vão ter que tirar o seguinte: são os 540.000 empregos dos que se aguentaram. Vão ter que explicar também.
O meu desejo sincero é que consigam uma boa bolsa de investigação para pagar o Vosso novo trabalho. Que vai porventura acabar mostrando que não eram assim tantos os empregos que se perderam, nem tantos os que resistiram. E que nesse dia, a «história» que irei ouvir vai ser ainda mais bela do que é esta. Porque vai ser ainda mais rica.
E agora me vou em paz. Obrigado.
Comment by F — November 6, 2009 @ 5:24 pm
Caro FA.,
Com todo o respeito que me merece o vosso trabalho, atrevo-me a colocar algumas dúvidas que o mesmo me suscita. Faço-o porque ele aponta para culpas excessivas, do meu ponto de vista, do euro nas perdas de emprego na indústria. E porque essa culpabilização excessiva tende a camuflar outros factores relevantes. O bode expiatório é sacrificado em nome dos verdadeiros culpados.
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Ainda que de importância menor para a questão central de que o documento se ocupa, não me parece que possa avaliar-se a desindustrialização pela redução do emprego na indústria. Desindustrialização será a redução do peso relativo da indústria na riqueza produzida. A redução do emprego pode corresponder, e geralmente corresponde dentro de períodos de reestruturação, a aumentos de produtividade e de produção superiores em termos relativos aos empregos sacrificados.
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Aconteceu no sector primário, acontecerá um dia no sector terciário. (O homem está de volta ao Jardim das Delícias onde o trabalho que subsistir será disputado e, portanto, pago segundo a lei da oferta e da procura, que deverá resistir. Depois de tantos milénios de expiação por um pecado sem sentido, a humanidade, se não se imolar na mesma pira, terá de se habituar a trabalhar cada vez menos).
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A globalização, se potenciada até às últimas consequências, incitará a aumentos de produtividade em todos os sectores com inevitáveis perdas de emprego globais. Transitoriamente, haverá transferências de emprego para os locais onde os custos de mão-de-obra aliciam a deslocalização, mas a longo prazo o equilíbrio restabelecer-se-á num patamar onde os níveis salariais se nivelaram. Entretanto, os locais perdedores de emprego ou reduzem os salários ou vêem continuar a sangria.
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Culpa do euro? Terá alguma mas está muito longe de ser o principal culpado.
Na passada sexta-feira, foi oficialmente inaugurada uma nova fábrica de produção de papel de escritório, com um capacidade de 500 mil toneladas anuais, um investimento de 550 milhões de euros, o segundo maior investimento privado realizado até agora em Portugal, o primeiro continua a ser Auto Europa. Adicionada à capacidade que o mesmo grupo já tinha, a produção total de 1,3 milhões de toneladas coloca o grupo português no primeiro lugar do ranking europeu do sector e em terceiro lugar a nível mundial.
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Não estamos a falar de têxteis nem de calçado mas também não estamos a falar de uma indústria de ponta tecnológica. A primeira fábrica do grupo foi começada a construir em 1943. A produtividade do sector cresceu dramaticamente nas duas últimas décadas, a fortes aumentos de produção corresponderam significativos decréscimos de empregos. O grupo contribui com cerca de 4% para o volume total das exportações portuguesas, a quase totalidade da produção é exportada, 80% para a Europa. É inócuo o euro nos resultados da empresa? Não é. Mas como as matérias primas utilizadas (madeira) são quase exclusivamente de origem nacional, os custos dos factores são relativamente estáveis e os resultados tendem a reflectir sobretudo as variações dos preços. Se vivessemos ainda no tempo da moeda maluca o que é que teria acontecido? O grupo veria o seu volume de vendas a crescer com a desvalorização da maluca mas teria, ao mesmo tempo, que pagar aos trabalhadores e fornecedores valores actualizados.
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Um outro aspecto, que não vejo referido nestas contas das culpas do euro é o do efeito da desvalorização sobre a dívida das empresas.
E, no entanto, ele não é despiciendo e pode ser fatal. É que a uma desvalorização anual de, digamos 20%, supondo uma inflação deslizante, corresponde um encaixe médio de 10% nas vendas mas de 20% sobre a dívida e respectivos juros.
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Os têxteis e o calçado tiveram o seu período de crescimento em Portugal numa época em que os salários eram mais competitivos do que os dos países de onde se deslocalizaram aquelas actividades até ao dia em que, por obra e graça da globalização (que de qualquer modo foi inevitável mas a sua eventual reversão poderia ser uma tragédia global), chineses, indianos e outros se apresentaram no mercado dispostos a trabalhar por menos. Sem outros recursos para além da mão-de-obra, com euro ou sem euro, a batalha estava perdida se não houvesse engenho para fazer a diferença. E não houve em grande parte do casos.
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É por demais evidente, contudo, e já muita gente o disse, que desfrutar das vantagens de uma moeda forte tem custos e quem os pagou até agora têm sido os sectores dos bens transaccionáveis. Quem tem ganho (em fama e grossos proveitos) têm sido os não transaccionáveis, onde se inclui todo o Estado.
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As indústrias transformadoras de pequena, média ou grande dimensão, que vegetaram em Portugal porque os salários eram baixos poderão queixar-se do euro porque ele garantiu salários reais que as deixou ainda mais fora de pé e ninguém politicamente assume que com moeda fraca os salários eram reduzidos pela inflação, e que o efeito equivalente, com moeda forte, exigiria redução dos salários nominais. Que em todo o caso seria insuficiente, se fosse apenas equivalente, porque a diferença salarial dos concorrentes é bem superior à valorização do euro.
Resta considerar ainda a concorrência de desvalorizações competitivas entre moedas fracas, porque nada nos garante que à desvalorização da nossa moeda (fraca) não respondessem os concorrentes com desvalorizações das suas.
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Refira-se ainda que a industrialização de acampamento teve reflexos não negligenciáveis no sector primário. A nossa incomparável dependência alimentar agravou-se com a massiva transferência de interesses do sector agrícola para as indústrias que agora se deslocalizam quase todos os dias. Leio no jornal de hoje que metade do azeite consumido em Portugal vem de Espanha, segundo dados fornecidos pela Federação Nacional do Azeite.
De Espanha, não de um país do terceiro mundo.
Comment by rui fonseca — November 8, 2009 @ 7:21 pm