Por estes dias chegará às livrarias o livro A Crise Financeira Internacional, que pode também ser adquirido no sítio da Imprensa da Universidade de Coimbra. Para ficarem com uma ideia do que nele vai escrito deixo aqui a Introdução:

Na origem da crise financeira está o excesso de endividamento. Nos últimos anos do século XX e nos primeiros do século XXI, países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Irlanda, a Islândia, a Espanha ou Portugal aumentaram de forma extraordinária os seus níveis de endividamento, acumulado essencialmente pelas famílias para a aquisição de habitação e consumo. Na Dinamarca e na Holanda, por exemplo, o endividamento ultrapassou em mais de duas vezes o rendimento gerado anualmente. Assim, para percebermos as causas da crise financeira temos de identificar os factores que estiveram por detrás do extraordinário aumento do endividamento, em particular, o papel desempenhado pelo desenvolvimento dos mercados financeiros nas últimas décadas e a forma como o Estado se posicionou em relação a estes desenvolvimentos.


INTRODUÇÃO

Ele tinha assimilado o credo da sua época: Safety first; era-lhe mais importante possuir um empreendimento sólido com capital próprio, do que dar-lhe dimensões gigantescas, recorrendo a créditos bancários ou hipotecas. O seu único orgulho na vida era nunca ninguém lhe ter visto o nome num título de dívida ou numa letra de câmbio e de ter sido sempre credor do seu banco (…). Tinha aversão a qualquer lucro que implicasse nem que fosse a mais leve sombra de risco (…).
Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: Recordações de um Europeu, 1942, pág. 19.

Na origem da crise financeira está o excesso de endividamento. Nos últimos anos do século XX e nos primeiros do século XXI, países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Irlanda, a Islândia, a Espanha ou Portugal aumentaram de forma extraordinária os seus níveis de endividamento, acumulado essencialmente pelas famílias para a aquisição de habitação e consumo. Na Dinamarca e na Holanda, por exemplo, o endividamento ultrapassou em mais de duas vezes o rendimento gerado anualmente. Assim, para percebermos as causas da crise financeira temos de identificar os factores que estiveram por detrás do extraordinário aumento do endividamento, em particular, o papel desempenhado pelo desenvolvimento dos mercados financeiros nas últimas décadas e a forma como o Estado se posicionou em relação a estes desenvolvimentos.

É nos mercados financeiros que os empreendedores encontram o financiamento que lhes permite transformar ideias em negócios, possibilitando o investimento na inovação tecnológica, ponto de partida para a “destruição criadora” que caracteriza o funcionamento do sistema capitalista. O notável empreendimento dos descobrimentos dos séculos XV e XVI, levado a cabo pelos monarcas e navegadores portugueses e espanhóis, que estiveram na origem da primeira globalização, não teria sido possível sem o acesso a um mercado obrigacionista e às primeiras formas de seguros, que permitiram a protecção dos investidores contra o risco das viagens nos desconhecidos e muitas vezes tenebrosos mares e oceanos.

No entanto, até ao início do século XX a poupança e um modo de vida austero, descrito na passagem acima das memórias do escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), caracterizavam o modo de vida das famílias e das empresas, sendo vistas como virtudes que favoreciam o desenvolvimento da economia. O crédito ao consumo é uma inovação do século XX que esteve na base da criação do consumo de massas e da classe média. O aperfeiçoamento dos instrumentos financeiros e das formas de protecção contra o risco permitiu alargar o acesso ao crédito a um número cada vez maior de famílias. A renitência das famílias em recorrerem ao crédito foi ultrapassada pelas campanhas de marketing dos bancos americanos: estes, nos anos vinte, começaram a vender o crédito como uma prova de confiança nas famílias que a ele recorriam. Ter crédito passou a ser uma qualidade digna de admiração.

No entanto, a actividade de concessão de crédito, porque assenta em avaliações dos rendimentos esperados, isto é, rendimentos não conhecidos na altura em que se estabelece o contrato entre o credor e o devedor, acarreta riscos. Talvez por isso, durante muitos anos, a melhor definição de banco fosse a de uma instituição que empresta um chapéu-de-chuva quando está sol para o pedir de volta logo que começa a chover. A universalização do crédito que se verificou, mais depressa nuns países do que noutros, veio lançar dúvidas sobre a justeza daquela definição. De facto, no caso do mercado subprime, que esteve na origem da crise financeira internacional, os bancos, negando a definição acima, emprestaram dinheiro a quem estava à chuva e sem que houvesse previsões de melhorias climatéricas.

Do ponto de vista social, esta mudança era, pelo menos na aparência, positiva, dado que permitia às famílias com rendimentos muito baixos adquirir, por exemplo, habitação própria. Os benefícios sociais resultantes do acesso ao crédito à habitação pelas famílias de baixos rendimentos constitui certamente umas das explicações para a omissão e complacência dos Estados na regulação e supervisão das novas criaturas que invadiram os mercados financeiros nas últimas décadas. Em poucas circunstâncias este sentimento se terá revelado de forma mais autêntica do que nas memórias do ex-presidente da Reserva Federal americana, Alan Greenspan, publicadas em Setembro de 2007, quando os sinais da crise financeira se adensavam:

Os ganhos foram especialmente significativos entre os hispânicos e os negros, graças à crescente afluência e aos incentivos do Governo para o acesso ao mercado hipotecário subprime, que permitiram a muitos membros de grupos minoritários tornarem-se proprietários pela primeira vez. Esta expansão da propriedade permitia a mais pessoas terem um lugar no futuro do nosso país e era um bom augúrio para a coesão da nação, pensava eu. (pág. 230)

A universalização do acesso ao crédito funcionava como um instrumento de redistribuição do rendimento, permitindo às famílias de rendimentos mais baixos beneficiar no presente dos rendimentos mais elevados que o sonho americano lhes prometia para o futuro. Este sentimento foi partilhado por famílias e empresas de muitos outros países, incluindo Portugal. A longa expansão que caracterizou o comportamento da economia americana e dos países industrializados desde meados dos anos oitenta contribuiu para reforçar a confiança na realização daquelas expectativas. No entanto, a crise financeira veio mais uma vez mostrar que a redistribuição de rendimento entre o futuro e o presente tem limites: o consumo no presente dos rendimentos futuros só é sustentável quando estes se materializam. Quando isso não acontece para uma parte importante dos devedores, os contratos estabelecidos com os credores deixam de ser cumpridos, a confiança desvanece-se, os mercados financeiros deixam de funcionar e a actividade económica definha. A crise financeira de 2007 é o exemplo mais recente, e um dos mais notáveis da história do capitalismo, desta dinâmica de expansão e contracção das economias motivada pelo crescimento excessivo do endividamento.

Embora alguns acontecimentos anteriores a Agosto de 2007, descritos na cronologia da crise incluída na parte final deste livro, prenunciassem a crise financeira internacional, são os problemas nos mercados de crédito e as intervenções dos bancos centrais naquele mês que marcam o início da crise. As bolhas especulativas nas empresas de novas tecnologias de informação e comunicação (conhecidas como dotcoms) na década de noventa, a bolha da habitação nos primeiros anos do século XXI, o desequilíbrio externo da economia americana e os excedentes das economias emergentes sugeriam aos economistas e decisores de política económica a inevitabilidade de uma recessão ou crise da economia mundial.

De facto, apesar da impossibilidade de prever o futuro que caracteriza as ciências sociais, há muito tempo demonstrada por Karl Popper (1902-1994) e muito referida a propósito desta crise, a inevitabilidade de uma crise mundial era um dos principais temas em conferências e noutros encontros académicos. Foi num desses eventos que, num fim de tarde do Verão de 2006, junto ao Mediterrâneo, um dos autores deste livro assistiu a uma animada discussão entre dois distintos economistas, de duas das mais importantes instituições económicas e financeiras internacionais, sobre a forma que tomaria a correcção dos desequilíbrios da economia mundial. Embora existisse consenso entre os dois economistas relativamente à inevitabilidade de uma crise, discordavam quanto à forma e às consequências que resultariam da correcção daqueles desequilíbrios. De um lado estava a visão optimista que defendia que o ajustamento tomaria uma forma benigna, ou seja, à semelhança das crises mais recentes, a um curto período de desaceleração do crescimento sucederia um novo período de expansão económica. Do outro lado estava a visão pessimista, que argumentava que, dada a magnitude dos desequilíbrios existentes, o ajustamento poderia gerar uma crise económica com proporções e consequências imprevisíveis. A contenda entre aqueles dois economistas ilustra um dos mais antigos pontos de discordância entre economistas: o da estabilidade ou instabilidade das economias de mercado e da sua capacidade para auto-corrigir os desequilíbrios que se formam durante os períodos de expansão.

Embora ainda seja cedo para uma avaliação definitiva, os custos desta crise financeira, em termos de rendimento perdido para as sociedades, tornam-na a mais grave desde a Grande Depressão dos anos trinta. Ou seja, naquela discussão, o desenrolar da crise veio dar razão ao economista pessimista. No entanto, a visão da benignidade do ajustamento do economista optimista foi a que prevaleceu junto dos decisores políticos, em parte pelas razões que referimos acima. Isto é, o optimismo em relação à capacidade auto-reguladora dos mercados, fortalecido durante a “longa expansão” que antecedeu a crise financeira, impediu os decisores de política económica de tomarem algumas medidas que a crise veio mostrar serem essenciais. Entre estas encontram-se a necessidade de uma melhor, e talvez maior, regulação e supervisão dos mercados financeiros, que limite o crescimento do endividamento para níveis insustentáveis, isto é, geradores de crises.

Pelo que já dissemos fica claro que consideramos que a acumulação de desequilíbrios no período que antecedeu a crise se deveu ao excesso de confiança no futuro, quer das famílias, quer dos decisores de política. Assim, os próximos dois capítulos descrevem o período que antecedeu a crise iniciada em 2007: uma análise geral do desempenho das economias no período entre 1984 e 2006, que ficou conhecido como a “Grande Moderação”, no capítulo 3, e uma análise do comportamento dos mercados financeiros, com ênfase nos comportamentos que originaram bolhas especulativas durante esse período, no capítulo 4. À primeira vista, estes capítulos poderão parecer um desvio do tema do livro, mas é preciso conhecer a história para compreender a economia. Perceber o período da Grande Moderação e o comportamento dos mercados financeiros nessa altura é fundamental para compreender as escolhas, de acção e de omissão, feitas em matéria de política económica e as circunstâncias que, em conjunto com essas escolhas, conduziram à crise de 2007. Esses capítulos farão, portanto, várias referências aos capítulos restantes do livro, nos quais serão detalhados os desenvolvimentos económicos que favoreceram o eclodir da crise em 2007, e será examinada a crise económica daí resultante, bem como a importância das economias emergentes.

Cada capítulo é encabeçado por citações, sendo pelo menos uma de Alan Greenspan. O objectivo das citações é ilustrar, na primeira pessoa, o pensamento dos economistas, nem sempre concordantes, sobre os temas dos capítulos. A proeminência dada a Greenspan resulta da importância inegável e decisiva que este teve, enquanto líder do banco central norte-americano, na história económica dos últimos anos do século XX e dos primeiros anos do século XXI. A crise de 2007 marca, não só o fim da Grande Moderação, mas também a queda de Greenspan do pedestal no qual tinha sido colocado, quando se retirou em 2006, em resultado do desempenho notável da economia norte-americana durante o período em que dirigiu a Reserva Federal.

A crise financeira começou nos Estados Unidos, cuja economia representa cerca de 25% da produção mundial, e alastrou-se rapidamente ao resto do mundo. Por isso, a economia americana estará no centro da nossa discussão das origens da crise financeira e das suas consequências para a actividade económica. A excepção é o capítulo 9, dedicado ao papel das economias emergentes no desenrolar da crise. Sempre que se justifique serão feitas referências às consequências da crise financeira para a economia portuguesa.