Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago
Tomei de empréstimo a Shakespeare o título de uma das suas mais hilariantes comédias. Penso que retrata bem a situação criada à volta da última obra de José Saramago, Caim. O muito barulho continua a furar-nos os tímpanos, e há-de continuar até à náusea, tanto na imprensa escrita como na difundida: artigos, entrevistas, opiniões públicas na rádio e televisão, em que ouvintes e telespectadores opinam sobre o que sabem e não sabem, maneira muito portuguesa de ser mestre em toda a arte, ou burro em qualquer parte, enfim, tudo o que imaginar se possa: até teólogos, politólogos e outros pedagogos de alto coturno… A origem de tal alvoroço na capoeira da paróquia reside nas declarações, estratégicas ou não, do autor do livro, no dia do seu lançamento, em Penafiel. O nada de toda esta lagariça será o romance que, na minha modestíssima opinião, está longe de merecer tamanho alarido.
Segundo o primeiro prémio Nobel português da Literatura, a Bíblia mais não será do que um “manual de maus costumes” e que “é preciso ter muito cuidado quando se lê a Bíblia”… Esta última afirmação fez-me viajar através do tempo, como a personagem Caim do romance do mesmo nome, e ouvir de novo, quietinho para não levar um beliscão da catequista, o padre da minha freguesia, aí por volta de 1949, na altura em que lá chegaram pastores de credos evangélicos, que iam tentar a sorte com o sentido de pescar algumas almas para o seu seio. A leitura da Bíblia constituía o seu principal argumento, uma vez que o catolicismo pouco ou nada ligava ao Livro: quem não lia a Bíblia, sustentavam os pastores, não poderia compreender a palavra de Deus nem a doutrina de Jesus, nem muito menos as inovações e falsidades do Romanismo…
No Domingo seguinte, o padre, na homilia: “A Bíblia é de facto o livro sagrado dos cristãos, mas, caríssimos irmãos em Cristo, não deveis lê-lo, porque, além de difícil, não tendes luzes nem letras para compreender o verdadeiro alcance das palavras lá escritas quase sempre em parábolas; contentai-vos, irmãos, com as explicações das homilias dominicais, e não aceiteis a oferta desse livro, que sei que andam a dá-lo a quem quiser, pois, e caso aceitardes, entrará em vossas casas um livro do diabo…” Saramago não é católico, muito menos sacerdote, mas, as palavras por ele proferidas, numa entrevista ao Jornal de Notícias, de 19 de Outubro, deram-me, por instantes, a sensação de estar ouvindo o pároco da minha freguesia, nos meados do século passado… As palavras pouco se diferençam, e os argumentos são mesmo os mesmos… Não sei se isto abona ou não a favor do escritor que tem procurado, sem êxito, destruir alguns mitos do Velho e do Novo Testamento…
O escritor pode e deve destruir mitos. Mas, para derrubá-los, é mester saber em profundidade o que quer destruir. Lembro James Joyce que, com o seu romance Ulysses, destruiu a cultura clássica porque era um grande conhecedor e especialista nessa matéria. O próprio José Saramago afirma que “Nunca fui um leitor assíduo da Bíblia, mas penso que a conheço bastante bem”… Será que basta? Será assim tão fácil destruir um conjunto de livros de estilos e géneros literários diferentes que serviram de base e inspiração à Literatura e Cultura Ocidental: poesia, teatro, narrativa, música e até ao cinema? Na Faculdade de Letras que frequentei, um dos professores de Literatura avisava logo no início do ano: Quem não leu a Bíblia não pode compreender a Literatura Alemã, Inglesa, Portuguesa, Americana… Portanto, quem ainda o não fez, trate de colmatar essa grave lacuna… Tão ateu como Saramago seria esse professor, o que dá que pensar, sobretudo porque o Nobel Português afirma com a segurança de quem acaba de inventar a roda que a Bíblia devia estar escondida, em casa, fora do alcance das crianças, como se de medicamento perigoso se tratasse…
(continua)

Ah, Cristóvão, que bem soube ler este teu escrito, com aquela referÊncia à “lagariça” e ao “nosso” Paulo Quintela. Espero pela continuação. Abraço.
Comment by Octávio Lima — October 28, 2009 @ 11:03 pm
Os escritos do Cristóvão continuam sempre. Tenha eu forças para os poder continuar a ler e a agradecer-lhe por isso.
Obrigado.
Comment by F — October 29, 2009 @ 12:10 am
Caro Cristóvão,
Sem querer discordar, porque motivo teremos de olhar para Caim como um destruidor de mitos? Acabei de ler esta obra que interpretei (erradamente?) como uma ficcão em tom jocundo, baseada em eventos narrados na Biblia, mas que visam sobretudo aspectos do comportamento e naturaleza humana. Para mim o sentido de humor de Saramago desconstroi valores e crenças partilhadas igualmente pelos mistificadores do catolicismo e, por exemplo, pelos teologos da economia de mercado, do capitalismo selvagem sem rei nem roque nem direitos humanos. Admiro Saramago o suficiente para pensar que ele nunca cairia na armadilha de tentar fazer de Caim / Biblia algo de tao profundo como o que Joyce fez (ou tendou fazer) com a estetica classica ocidental. Mas entenda-se que aceito e não contrario os argumentos desta excelente entrada.
Comment by Lardozo — October 29, 2009 @ 1:19 pm
Este verão visitei a ilha de C. Aguiar. Procurei e encontrei o local onde Antero resolveu acabar e depois em passeio fui dar ao que ma disseram ser o velho liceu com o seu nome. Imaginem de quem me lembrei logo! Do professor de Moral que o Cristó^~ao na sua escrita notabilizou. Aquele que, indirectamente os levava a chegar à luta da classes. Creio que dava pelo nome de Rebelo. Também ele proibia a leitura da Bíblia?
Comment by A R — October 29, 2009 @ 8:34 pm
Como todos os padres daquele tempo. Tínhamos uma Bíblia escolar que sabia a catecismo.
Comment by Cristóvão de Aguiar — October 29, 2009 @ 10:41 pm