A “Quinta-feira negra” e os paralelismos históricos
Escrito com Pedro Bação, Professor da Universidade de Coimbra
Publicado no Semanário Económico, em 25 de Outubro
Oitenta anos depois da “Quinta-feira negra”, o primeiro de uma sequência de dias em que o pânico tomou conta de Wall Street e que marca para muitos economistas o início da Grande Depressão dos anos trinta, discute-se o fim da crise financeira internacional iniciada em 2007. Embora a história não se repita, a incerteza relativamente à robustez dos sinais de recuperação alimenta o interesse por episódios semelhantes na esperança de neles se encontrarem as respostas que nos faltam. A Grande Depressão é para todas as crises financeiras a grande referência histórica. Vale a pena, por isso, recuperar essa história neste dia.
Apesar de conhecido como a “Quinta-feira negra”, o dia 24/10/1929 nem foi dos dias em que a bolsa mais desceu, nem foi o primeiro dia em que tal aconteceu em 1929. Com efeito, nesse dia o índice bolsista Dow Jones acabou por cair 2%, bastante menos do que tinha caído no dia anterior (6%). Por outro lado, a tendência de queda vinha já desde o início de Setembro, altura em que o Dow Jones atingiu o pico. Porquê, então recordar este dia? Porque de facto se viveram momentos de pânico durante a manhã de 24/10/1929, que resultaram numa oscilação de quase 13% do Dow Jones. O pânico foi contido pela notícia de que um grupo de banqueiros teria chegado a acordo para dar ao mercado um “apoio organizado”, ou seja, estariam dispostos a comprar acções para evitar a descida das cotações. À “Quinta-feira negra” seguir-se-iam outros dias de queda das cotações: a “Segunda-feira negra” de 28 de Outubro, com uma perda de 12%, e a “Terça-feira negra” de 29 de Outubro, com uma queda de 9%. A Quarta-feira, 30 de Outubro, já não foi negra, pelo contrário, registou uma subida notável de 12%. Porém, as quedas retomariam na Segunda-feira seguinte e, entre altos e baixos, a tendência de queda prolongar-se-ia até meados de 1932, isto é, por quase mais três anos, tendo o Dow Jones perdido cerca de 90% do seu valor. Entretanto a produção nos EUA cairia em mais de um quarto e o desemprego ultrapassaria os 20%, dando uma dimensão dramática aos custos sociais da crise, só verdadeiramente ultrapassada com as despesas públicas que financiaram a Segunda Guerra Mundial.
As flutuações do Dow Jones referidas acima ilustram a dificuldade que há em distinguir os movimentos transitórios da tendência de fundo. Este é o risco que corre quem vê na tendência de recuperação que as bolsas têm apresentado nos últimos tempos o sinal do fim da crise actual. É possível que assim seja, mas a história ensina-nos a ser cuidadosos.
O paralelismo entre a actual crise e a Grande Depressão (e outras crises financeiras) está no mecanismo essencial que lhe deu origem: um aumento do endividamento (alavancagem), para comprar bens (como habitações) ou títulos (como acções) que se espera que se valorizem de modo a gerar o rendimento necessário para pagar a dívida contraída, mas que se torna incomportável quando o activo comprado deixa de se valorizar da forma esperada.
Em 1929, o aumento do endividamento serviu para comprar acções na bolsa. Com o fim da tendência de subida das cotações, quem se havia endividado para as comprar passou a precisar de as vender depressa para evitar perdas maiores. Esta pressão para a venda precipitou quedas ainda maiores. A queda do preço das acções e o incumprimento por parte dos devedores colocaram os bancos em dificuldades. No final de 1930 iniciou-se uma crise bancária que levaria à falência de centenas de bancos. Para muitos economistas, foi aí que verdadeiramente começou a Grande Depressão.
No caso da crise iniciada em 2007, o papel do endividamento foi mais complexo. Por um lado, houve um aumento do endividamento para financiar a aquisição de habitações por parte das famílias. Por outro lado, o aparecimento de inovações financeiras (ABS, etc.), associado ao desenvolvimento de entidades especiais para financiar os investimentos, permitiu aos bancos aumentar o seu endividamento e financiar um volume maior de crédito (em especial, à habitação). Tal como nos anos trinta, o sector financeiro esteve no olho do furacão. Porém, desta vez as autoridades intervieram fortemente para evitar o colapso do sistema.
No seguimento do paralelo estabelecido por Paul Krugman (Nobel em 2008) e outros economistas, os historiadores económicos Barry Eichengreen e Kevin O’Rourke escreveram um artigo em que discutem as semelhanças entre a evolução da economia nos anos trinta e nos últimos tempos. Da análise dos dados relativos à produção industrial, para a economia mundial, concluíram que a variação negativa foi muito semelhante durante os primeiros nove meses das duas crises (tomando como datas de início os meses de Junho de 1929 e Abril de 2008). A mesma conclusão é retirada da análise da baixa dos preços nos mercados accionistas e da redução dos fluxos comerciais. No entanto, nos últimos meses, a produção industrial parece dar sinais de recuperação e tanto os índices bolsistas como as exportações parecem ter interrompido a queda livre, ou mesmo iniciado a recuperação – o que também reflectirá as medidas de estímulo adoptadas agora, ao contrário dos anos trinta. Porém, a amplitude das variações observadas nestas últimas variáveis continua a ser maior que a verificada nos anos trinta.
Em particular, a redução dos fluxos comerciais tem sido muito forte. Com o objectivo de evitar a repetição de políticas vistas como tendo contribuído de forma decisiva para o aprofundamento da Grande Depressão, os governos têm fugido à adopção de políticas proteccionistas. Mas, inevitavelmente, os mercados cambiais têm sentido os efeitos da turbulência, e aqui podemos estabelecer mais um paralelo entre a crise de 1929 e a crise actual. A crise de 1929 é, para muitos economistas, o reflexo da crise do sistema financeiro internacional da altura: o padrão-ouro ligava a emissão monetária, e o valor da moeda de cada país, às reservas de ouro, que flutuavam com os saldos comerciais externos. Por seu turno, a crise actual deve muito aos desequilíbrios que se foram acumulando na economia mundial, com défices externos crescentes em países como os EUA, financiados por excedentes extraordinários em países como a China. Neste caso em particular, à evolução verificada não será alheio o controlo que a China tem exercido sobre a sua moeda: enquanto o euro atinge máximos históricos, a cotação do renminbi em dólares, depois de alguma apreciação no início da crise, quase não se tem alterado.
Nos próximos tempos, as autoridades de política económica terão muitos e graves problemas para resolver, da ameaça de deflação ao desemprego, passando pelos défices orçamentais e o enorme aumento da dívida pública. Parece-nos, porém, que o grande desafio será a reforma do sistema financeiro internacional, dada a ausência de uma alternativa ao dólar, e o estabelecimento de um novo equilíbrio entre os países ocidentais e as economias emergentes.

Caro Fernando Alexandre,
Esta entrada de hoje com o artigo que escreveu com o Pedro Bação é para mim um «aperitivo» do livrinho sobre a crise que deve estar a sair. Fizeram bem. Com isto só me aumentaram a ansiedade de o ler.
Os tempos estão mesmo a mudar. Há dois anos, o professor Alan Blinder (Princeton) entendia ser então o tempo certo para começar a encontrar os «culpados» da crise. Houve referência aqui a esse artigo publicado no «NY Times». Achei que era prematuro. Não se havia ainda sequer compreendido o que estava a acontecer.
Curiosamente, esta efeméride do «crash» de 1929 trouxe além deste Vosso artigo, um outro texto oportuno do Pedro Lains («1929 vs. 2009: salvos pela globalização») publicado no outro jornal económico. Eu tinha mesmo razão. Só agora começa a valer a pena encontrar os «culpados» da crise.
Eu disse «curiosamente». Porque enquanto o Fernando Alexandre e o Pedro Bação procuram paralelos, o Pedro Lains procura as diferenças. O Vosso texto vê o aumento do endividamento, ou a maior «alavancagem», como o maior paralelo. O Pedro Lains entende a «mundialização» da Finança como sendo a maior diferença.
O aumento do endividamento está presente em quase todas as crises financeiras. Desde sempre. É o príncipe que se endivida para pagar a «guerra» que acaba perdendo. Edward I, II e III. Carlos V e Felipe II. E é o mercador que se endivida para avançar com o empreendimento que acaba indesejado. Richard Fuld, da Lehman Bros, é o mais recente. Mas nem todos foram príncipes, ou mercadores. Também houve magistrados. A vida sumptuosa de Júlio César até aos dias das campanhas da Gália foi paga com dinheiro devido a outros. César acabou por pagar as dívidas e por vencer a Morte. Mas houve outros que não o conseguiram. Rudy Giulliani bem tentou…
Eu tenho porém alguma dificuldade em ver os mesmos paralelos. Porque as circunstâncias políticas dos EUA eram muito diferentes. E sobretudo porque as descrições actuais sobre a época estão cheias de cores da política partidária.
Já antes referi aqui alguns destes aspectos. Contrariamente ao que é vulgar ouvir, Herbert Hoover não foi um «banana»; era um homem muito capaz que quis fazer tudo o que não havia sido feito em 1907. Tal como hoje se quer fazer tudo o que não foi feito em 1929. É o meu «paralelo».
Mas há diferenças importantes. Contrariamente ao que hoje se diz, o objectivo de Roosevelt não foi o «crescimento». Foi a «estabilidade» e a «segurança» da vida económica. E muito em especial da vida dos muitos que haviam chegado à América há pouco e que eram as maiores vítimas. Por isso, muitas das medidas que sobreviveram e que são ainda as mais recordadas, têm todas tal objectivo num contexto económico que era entendido pelos economistas de então como de uma economia «madura». Salário mínimo. Obras públicas. Glass-Steagall Act. FDIC. SEC.
Por isso também tenho dificuldade em ver a mundialização da Finança como sendo a grande diferença. A mundialização mede-se pela «força» da arbitragem que não entendo que seja maior hoje do que há oitenta anos. A mundialização «acelera» os processos mas não lhes dá mais «força». A oportunidade do lucro de baixo risco desaparece com a mesma «força» mas muito mais «depressa». Pelo menos mais depressa do que o tempo que levaram os pombos dos Rothschild para anunciar o resultado da batalha de Waterloo.
Há para mim no entanto uma diferença muito grande. Que só por ver sistematicamente ignorada me envergonho de referir mais vezes. Tem a ver com a peça central do sistema económico: as Famílias.
A Família dos últimos quinze anos foi confrontada com um fenómeno jamais visto. A Finança (chamem-lhe Alta, Média ou Baixa) está hoje dentro da casa de todos nós como nunca esteve. Na compra da casa. Na compra do carro. Na compra dos bens duradouros. Na despesa com a educação dos miúdos. No planeamento da reforma. O Estado que nasceu depois de 1929 estava encarregado de tudo até há quinze anos. Antes disso, ou se era rico, ou se tinha um Patrão generoso, ou a família (alargada) lá da Terra tratava de tudo. Hoje, somos os únicos responsáveis por tudo isto.
Somos nós. Sem nunca alguém nos ter sido ensinado o que é isto da Finança. E com muitos daqueles que devem saber disso acabarem por ter de confessar que sabem tanto quanto nós. (Hoje fico-me por aqui nesta matéria.)
O Fernando Alexandre compreende possivelmente agora o que eu lhe quis aqui dizer há dois anos sobre a necessidade de voltar a pensar no que se deve ensinar. É que não é só o programa da Macroeconomia que precisa de ser repensado. Há que ensinar isto da Finança também.
Por fim, vem a questão dos paralelos com o fim já anunciado desta crise.
No princípio deste ano avancei com uma sugestão sobre o curso do ano: subida dos mercados de cerca de 50 por cento entre o dia 1 de Maio e o dia 1 de Novembro. E depois disso seria o regresso às quedas. (As gentes da Macroeconomia Aplicada sabe que a escolha deste dois dias não é inocente. É logo a seguir ao anúncio do valor do PIB trimestral nos EUA.) Eu passo a explicar o argumento.
A grande dimensão do estímulo monetário mundial justifica só por si o efeito. Recordem-se que as primeiras acções começaram em Outubro de 2007. O efeito apareceu com o «lag» necessário.
No meu entendimento o efeito deve muito pouco aos estímulos fiscais. Porque só houve um estímulo fiscal sério na China.
A continuidade do efeito fica assim dependente duma condição essencial: a coordenação das políticas monetária e fiscal. Sem essa coordenação o efeito acaba por passar.
No meu entendimento não tem havido coordenação. É evidente no caso da política fiscal. E no caso da política monetária, onde muitos vêm coordenação eu só vejo coincidências nas iniciativas.
Mas há um grande «paralelo».
Chama-se John Maynard. Estava vivo então. Revive hoje. Mas com uma perspectiva que não é muito referida. É que o pensamento de Keynes não era só a integração da teoria do valor com a teoria da moeda. Tinha também uma dimensão internacional que incluía o plano que levou a Bretton Woods e que não foi aprovado. Mais de 60 anos depois, a moeda já não é o «véu» da economia «real». E a coordenação internacional das políticas económicas é condição necessária do progresso.
Ficou uma questão por resolver.
Para Keynes, a Finança era parecida com um «casino». E como aquela «coisa» da Finança era «eficiente» e rápida a alcançar o «equilíbrio» com preços «justos», pôde bem ser ignorada nos últimos 60 anos da vida macroeconómica. Mas não pode mais. Que mais não fôsse porque nos entrou pela casa dentro…
Obrigado.
Comment by F — October 29, 2009 @ 12:04 am
“o grande desafio será a reforma do sistema financeiro internacional, dada a ausência de uma alternativa ao dólar, e o estabelecimento de um novo equilíbrio entre os países ocidentais e as economias emergentes”
Excelente veredito.
A alternativa ao dólar terá que ser encontrada na base da criação de um Banco Central Mundial, que emita e seja o guardião de uma moeda a ser utilizada nas trocas internacionais. Sendo esse Banco verdadeiramente Mundial, ele não terá interesse em imprimir moeda para financiar os deficits de quaisquer países em especial. É o que acontece atualmente, em larga medida, com o Banco Central Europeu, que, como é pan-nacional, não é facilmente submetido à vontade e aos interesses de qualquer dos países europeus em especial. Note-se também que a atual crise não atingiu muitíssimos países, em particular no Terceiro Mundo, que têm continuado a crescer alegremente. Havendo um Banco Mundial que forneça a moeda para as trocas entre todos os países, e que não preste especial atenção e deferência aos países “ocidentais” com os seus problemas caraterísticos, essa moeda será em princípio estável e não será adulterada, como o dólar o tem vindo a ser.
Comment by Luís Lavoura — October 29, 2009 @ 12:38 pm
Reparem que Wall Streer apenas demorou 16 anos a destruir a Economia dos EUA …
Comment by uma voz — October 30, 2009 @ 12:27 pm