Crise financeira, incerteza e a recuperação
When people want to understand apparently inexplicable events, they look to a historical parallel.
Harol James, The Creation and Destruction of Value (2009, pp. 36)
Desde o seu início que o paralelo histórico para a crise financeira internacional de 2007/08/09/… é a Grande Depressão dos anos trinta. No seu novo livro, The Creation and Destruction of Value – The Globalization Cycle, Harold James, professor da Universidade de Princeton, analisa a crise financeira internacional e as suas possíveis consequências para a globalização à luz dos acontecimentos dos anos trinta – como o autor refere em vários pontos do livro, o paralelo histórico deve ser estabelecido com a crise bancária iniciada em 1931 na Europa e não com o crash da bolsa americana de 1929.
Na crise de 1931, como na crise de 2007/08/09…, a confiança nas instituições e na capacidade auto-reguladora dos mercados foi fortemente abalada e as trocas internacionais recuaram de forma dramática. A comparação entre aquelas duas crises sugere que o aumento da incerteza na sequência da crise financeira internacional em relação ao valor dos activos poderá vir a tornar mais difícil a recuperação económica. A incerteza relativamente à evolução das taxas de câmbio e à evolução dos preços (inflação ou deflação?) são os dois mais importantes sinais das dificuldades que poderão surgir.
Reflexo (e causa?) daquela incerteza terão sido as flutuações do dólar nos anos que precederam a crise (a significativa desvalorização face aos principais parceiros comerciais desde 2002), ou a valorização nos meses que se seguiram à falência em Setembro de 2008 do banco de investimento Lehman Brothers (com o dólar a servir de porto seguro num contexto de grande falta de confiança), ou ainda, a desvalorização recente do dólar, que parece ser o retomar da estratégia de correcção dos desequilíbrios externos da economia americana adoptada desde 2002. Neste contexto, surgem mais uma vez as dúvidas em relação ao valor fundamental do dólar: quanto vale o dólar? Qual a alternativa ao dólar? Qual poderá ser o papel da China, cujo sistema financeiro é dominado por quatro grandes bancos estatais que decidem o destino a dar às colossais poupanças das famílias chinesas?
Como Harold James refere, o valor do dólar dependerá do crescimento futuro da economia americana e da evolução da percepção dos agentes económicos em relação à segurança (incluindo a que resulta da estabilidade política) dos investimentos em activos americanos. A incerteza em relação ao valor da moeda americana é uma fonte de instabilidade para a economia mundial. A ausência de alternativa para o lugar que o dólar tem ocupado no sistema monetário internacional é a maior fonte de incerteza da economia mundial e o maior obstáculo à sua recuperação. E não sem consequências para a ameaça de deflação.

Caro Fernando Alexandre,
Agradeço a resenha.
É mais um livro que traz a perspectiva do historiador. Já tivemos a «telenovela história» sobre o Dinheiro de outro Inglês, Niall Ferguson, que é uma boa leitura para historiadores ignorantes da Economia e para economistas ignorantes da História. Perdi muito tempo com a leitura mas ganhei um bom «syllabus» para um curso sério.
Mas já cometi outros erros. O Jacques Attali que foi um «virtuoso» nas suas «Histoires du temps», «La parole et l’Outil», e na sua «Au propre et au figure, Histoire da le propriété», que vieram depois da sua «Analyse économique de la vie politique», e sem falar das biografias. Acabou. «La crise, at après?» (Paris: 2008) Fayard, é uma conversa de banalidades de quem pensa que por ter passado pelos corredores de mármore do BERD em Londres, fica a perceber (certamente por osmose) de Alta e Baixa Finança. Por isso, a leitura só me deu tristeza.
Mas há infelizmente mais. Michel Aglietta, «La crise: Porquoi en est-on arrivé là? Comment en sortir?» (Paris: 2008) Editions Michalon. Para mim foi uma desilusão porque depois de ter lido as suas «Dérives du capitalisme financier» fiquei com a ideia de que poderia haver substância numa explicação alternativa da Teoria Financeira. Mas são 126 páginas para concluir que a dívida é a causa de tudo isto (para isso, chega-me o Deuterónimo) e que os fundos soberanos vão ter agora que investir nos próprios países (esquecendo que a maior parte deles perdeu cerca de 60 a 70 por cento do capital).
Enfim. Vou ter mesmo que esperar pelo livro do Fernando Alexandre e dos seus companheiros.
Obrigado.
Comment by F — October 20, 2009 @ 11:07 am
Caro F.,
como já disse, esperamos que o nosso livro não desaponte - o objectivo foi dar uma panorâmica da crise financeira internacional.
Confessor que dei pela existência dos livros que referenciou, mas ainda nãotive oportunidade de os ler. O livro do Harold James é um livro muito bom - não dá muitas respostas mas lança muitas questões. Voltarei à questão da China.
Comment by Falex — October 20, 2009 @ 6:39 pm