What is the principle of wisdom, if not to abstain from all that is odious to God? — Papa Bento XVI, num discurso proferido 4 dias antes de um referendo em Itália sobre fertilização in vitro.


Há cerca de dois anos eu e o Pedro Magalhães começámos a trabalhar juntos. Antes disso, apenas nos conhecíamos dos blogues e da imprensa. Foi na sequência do referendo sobre a despenalização do aborto. À época, o Pedro escreveu um artigo sobre as disfunções do referendo em Portugal. Em Portugal, para que um referendo seja vinculativo é necessário que pelo menos metade do eleitorado participe na votação. Esta regra é uma perfeita parvoíce e, tal como o Pedro, também eu o denunciei em jornal. Ao ler o artigo do Pedro apercebi-me de que, apesar de estarmos de acordo na crítica ao quórum, havia uma ligeira nuance. O Pedro criticava não só o quórum de participação (o que existe em Portugal) como também o quórum de maioria. Ora eu, no meu texto, defendia precisamente p quórum de mario. De acordo com esse esquema, a escolha da maioria em referendo só é vinculativa se essa maioria representar uma determinada fracção do eleitorado (tipicamente 25 ou 33%). O meu argumento era simples, enquanto a existência de um quórum de participação incentivava os apoiantes do ‘Não? a absterem-se, de forma a que o quórum não fosse atingido, com um quórum de maioria tal efeito perverso não existia.

Como disse, não conhecia o Pedro, mas mandei-lhe um email a perguntar se não queria trabalhar comigo para ver quem tinha razão. Para surpresa nossa, quer em Economia quer em Ciência Política, havia pouco trabalho rigoroso sobre o assunto. Em termos teóricos, havia duas referências de base. Um artigo de Herrera e de Mattozzi (que vai ser publicado no Journal of the European Economic Association) e um outro de dois economistas portugueses, Paulo Côrte-Real e Paulo Trigo Pereira, já publicado na revista Social Choice and Welfare. De acordo com o primeiro artigo, era o Pedro que tinha razão. De acordo com o segundo, parecia ser eu. Em termos empíricos, nada havia feito.

Dado que já outros académicos tinham feito trabalho teórico por nós, restava-nos reunir dados e trabalhá-los estatisticamente. Depois de longas discussões sobre qual o método estatístico adequado para trabalhar dados sobre participação eleitoral, lá escrevemos uma primeira versão do nosso artigo. Apresentámos o nosso trabalho em vários sítios. As nossas conclusões diziam que o Côrte-Real e o Trigo Pereira tinham razão. No entanto, numa demonstração de seriedade intelectual, esses autores avisaram-nos que estávamos a interpretar mal o modelo deles. Por muito lisonjeiro que fosse ter o nosso artigo a confirmar empiricamente as implicações teóricas do seu artigo, na verdade não podíamos retirar tais implicações.

Na sua versão original, o nosso artigo era quase como que uma corrida de cavalos para ver quem tinha razão, se Herrera e Mattozzi ou Côrte-Real e Pereira. Tivemos de dar um passo atrás e reescrever o artigo. Desenvolvemos um pequeno modelo do qual conseguíssemos retirar implicações que pudessem ser testadas. Desse modelo nasceram implicações novas e que foram confirmadas de forma quase comovedora pelos testes empíricos.

Depois de bastante trabalho e muitas revisões, o artigo foi finalmente aceite na Public Choice, uma revista científica que cruza a minha área (Economia) com a do Pedro (Ciência Política). Apesar de ainda não publicado em papel, já se encontra disponível online. Este artigo marcou o início de uma das co-autorias mais frutuosas que tive e que mantenho. Depois deste artigo, já escrevemos outro (que até foi publicado antes do primeiro), e outro, que estamos a rever para futura publicação, e ainda outro, que necessita de ser melhorado antes de ser submetido para apreciação numa revista séria, para não falar de mais uns quantos projectos que precisam de tempo para se concretizarem. Confesso que nunca me deu tanto gozo trabalhar como nestes trabalhos que mantenho com o Pedro.

Antes de terminar, imagino, o leitor estará curioso para saber quem tinha razão, se eu ou o Pedro. O nosso artigo mostrou que era eu que tinha razão. Mas depois, escrevemos outro. E esse outro diz que o Pedro tinha razão. Para já estamos empatados. Entre os nossos projectos futuros, está um que desempatará a contenda.

PS Pedro, isto tudo a propósito do prémio que recebeste. Não li os outros artigos, mas não tenho dúvidas de que foi merecido. Muitos parabéns.