A República Popular da China completa este mês 60 anos. Nos primeiros 30 anos, sob a direcção de Mao Tsé-Tung, a China ambicionou tornar-se uma potência tendo como principal referência o modelo Soviético. Neste período, a União Soviética era também o principal e quase único parceiro comercial. No final dos anos 1950 e no início dos anos 1960, começaram a surgir as divergências com a União Soviética e Mao, o grande timoneiro, procurou uma via própria para o socialismo com o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural. Os resultados trágicos daquelas duas experiências representaram uma grande desilusão em relação às possibilidades do modelo socialista poder tornar a China num país rico e poderoso. No final dos anos 1970, aquele fracasso contrastava claramente com o sucesso das estratégias de abertura ao exterior, e baseadas na iniciativa privada, de Hong-Kong e Taiwan.


Com a morte de Mao e a subida ao poder de Deng Xiaoping, em 1976, iniciou-se um processo de abertura ao exterior que viria a transformar um dos estados socialistas mais isolados do mundo – no início dos anos 1970 a soma da exportações e da importações representavam cerca de 5% do PIB chinês – na economia (de um grande país) mais aberta do mundo – em 2005, o comércio total com o exterior representava 64% do PIB (nos EUA, Índia, Brasil e Japão aquele valor rondava os 20%). A abertura ao comércio internacional da China, que culminaria com a entrada em Dezembro de 2001 na Organização Mundial de Comércio, é indissociável do extraordinário crescimento da economia chinesa nos últimos 30 anos. O crescimento do investimento directo estrangeiro nos anos 1990, concentrado nas indústrias exportadoras e predominantemente oriundo dos países do Leste asiático, teve um papel essencial na estratégia de abertura ao exterior e de crescimento económico: nos primeiros anos do século XXI, a China captava cerca de um terço do total do investimento directo estrangeiro dos países em vias de desenvolvimento.

O sucesso alcançado com a abertura ao exterior nos últimos 30 anos terão já feito esquecer a experiência traumática do contacto com o Ocidente no século XIX, iniciada em 1839 com a Guerra do Ópio e que se estendeu até aos anos 1930 e 1940 com a invasão dos japoneses. Hoje, a China não esconde a ambição de se tornar a curto prazo uma grande potência global e de partilhar o poder com os Estados Unidos. Os insustentáveis desequilíbrios que persistem na economia mundial, e que estiveram na origem da crise financeira internacional, não podem ser dissociados desta ambição e da estratégia de crescimento económico seguida. A China não cabia na ordem económica mundial que acabou com a crise financeira iniciada em 2007. Enquanto a China não encontrar o seu lugar na nova ordem mundial pós-crise os desequilíbrios irão persistir.