Rescaldo das previsões eleitorais

Os cientistas sociais estão habituados a explicar por que motivo erraram nas suas previsões. Quando, antes do Verão de 2008, eu e o Pedro Magalhães nos propusemos a prever os resultados das eleições legislativas de 2009, estávamos, naturalmente, preparados para que tal viesse novamente a acontecer. Esse trabalho, publicado na Ipris Verbis, teve destaque de primeira página no semanário Sol.
Uns tempos depois de escrito e publicado, as condições que nos permitiram fazer as previsões alteraram-se com a crise financeira internacional. As nossas previsões baseavam-se em dados do pós 25 de Abril e nos nossos dados nada havia de comparável a esta crise. Estávamos preparados para justificar eventuais erros nas nossas previsões com base nisso. A crise financeira internacional, que atirou o mundo para uma recessão apenas comparável à dos anos 30 do século passado, tornou estas eleições num perfeito outlier. Qualquer tiro na água seria facilmente explicado.
Mas a realidade trocou-nos as voltas. A nossa previsão resumia-se a dois números: 38% para o PS e 27% para o PSD. Valores notavelmente próximos do resultado final. Assim, em vez de explicarmos por que motivo falharam as nossas previsões, vemo-nos na peculiar contingência de ter de explicar por que motivo acertámos, apesar da radical mudança de cenário.
É um assunto que iremos explorar em trabalhos futuros, mas, à primeira vista, há duas hipóteses óbvias. A primeira hipótese, e como não podia deixar de ser, é a de que o nosso modelo de muito pouco vale e se acertámos quase em cheio tal aconteceu por mero acaso. Ou seja, a sorte explica o sucesso da previsão. Uma segunda hipótese é mais simpática. Com a crise internacional, os eleitores ficaram com dificuldades em responsabilizar os governos pelas más performances da Economia que ocorreram no último ano. Assim, quando chamados a votar, fizeram a avaliação do governo com base nos dados que havia disponíveis antes da crise. Se esta segunda hipótese estiver correcta, então não é de admirar que o nosso modelo se tenha portado tão bem, dado que usámos os dados económicos que estavam disponíveis até pouco antes da crise internacional se alastrar para Portugal.
Neste momento, e com honestidade intelectual, teremos de reconhecer que não sabemos qual das duas hipóteses estará correcta. Quando estudarmos a questão, e como acontece tantas vezes, é até provável que surja uma terceira explicação que de momento não descortinamos.
Publicado em paralelo nas Margens de Erro.

Caro Luis,
Era difícil que o vosso artigo passasse despercebido. Comentei-o no meu caderno de apontamentos em
http://aliastu.blogspot.com/2008/08/3835275.html
Hoje penso que foi MFLeite quem fundamentalmente ajudou à quase precisão do vosso “tiro”. Tivesse JSócrates enfrentado um candidato do PSD menos inibido e os resultados poderiam ter sido muito diferentes.
Tanto pior para o país? Talvez.
Comment by rui fonseca — September 28, 2009 @ 5:07 pm
Excelente entrada. Parabéns. E obrigado.
Comment by F — September 29, 2009 @ 11:54 am
Obrigado, F
Rui, os resultados do PSD de MFLeite estão em linha com o que é a sua votação histórica:
Ano - Votação do PSD
1975 - 26.4
1976 - 24.4
1979 - 25.7
1980 - 27.1
1983 - 27.2
1985 - 29.9
1987 - 50.2
1991 - 50.6
1995 - 34.1
1999 - 32.3
2002 - 40.2
2005 - 28.7
PS Nos anos de coligações da AD, dividi os votos entre o PSD e o CDS com base nas distribuição de votos que houve nas eleições anteriores à AD.
PPS As eleições de 1975 foram para a constituinte.
Comment by LA-C — September 29, 2009 @ 2:44 pm
Muitos parabens pela excelente previsão: acertaram em cheio pelo merito da metodologia correcta que utilizaram, nunca por sorte!
Comment by Lardozo — September 29, 2009 @ 4:46 pm
Caro Luís,
Insisto, sobretudo para lhe agradecer a atenção que lhe mereceu o meu comentário.
Confirma-se que os maiores partidos têm um “núcleo duro” de militantes e simpatizantes tão fiel como os adeptos da bola. O do PSD andará pelos quase 30%.
Para além deste núcleo duro, os resultados eleitorais são influenciados pelos votos oscilantes. E aí, a capacidade dos líderes do momento provoca a diferença.
Eu nunca me convenci que os resultados das europeias pudessem, de algum modo, replicar-se nas legislativas. São campeonatos diferentes e os líderes também. O confronto Vital Moreira-Paulo Rangel não foi um ensaio geral do Sócrates-Ferreira Leite.
Sócrates tinha-se submetido (na ordem interna) e tinha sido submetido (pela crise global) a um desgaste que Ferreira Leite não soube (porque não é capaz) aproveitar.
Depois o conjunto de casos desfez o resto das ilusões.
O modelo que utilizaram não conta nem poderia contar (porque não é, nem pretende ser, um exercício de adivinhação) com estes imprevistos.
Salvo melhor opinião.
Comment by rui fonseca — September 29, 2009 @ 5:49 pm
“O modelo que utilizaram não conta nem poderia contar (porque não é, nem pretende ser, um exercício de adivinhação) com estes imprevistos.”
Certo, mas o nosso argumento é precisamente que esses imprevistos são muito menos relevantes do que comummente se pensa.
Comment by LA-C — September 29, 2009 @ 7:11 pm
Se calhar é bruxedo, Rui Fonseca.
Comment by José Duarte — September 29, 2009 @ 7:11 pm