Acabou a recessão!, que bom, que bom
Saíram os números para o 2º trimestre de 2009. O primeiro-ministro agarra-se aos 0.3% de crescimento do PIB e a oposição agarra-se ao aumento da taxa de desemprego em 0,2 pontos percentuais. Cada um encontrou a sua bóia de salvação. Aconselha-se cautela: ambas as bóias estão furadas.
Comecemos pela taxa de desemprego. Dizem os números que subiu de 8,9% para 9,1%. Logo a oposição culpa o primeiro-ministro por estes números maléficos. O relatório sobre as estatísticas do des(emprego) está disponível online. Lendo o documento, descobrimos que estes números são calculados com base numa amostra. Depois, com base nessa amostra, extrapola-se para a população total. Claro que, mesmo que o procedimento seja feito na perfeição, existe sempre uma margem de erro associada a estas estatísticas. O documento, detalhado como é, dá-nos informação suficiente para calcularmos um intervalo de confiança para a estatística que nos interessa.
Se calcularmos um intervalo de confiança de 95% para a taxa de desemprego, descobrimos que esse intervalo nos diz que a taxa de desemprego se situará entre os 8,6 e os 9,6%. Ou seja, estes números dizem-nos que é perfeitamente possível que a taxa de desemprego tenha diminuído, em vez de ter aumentado. Não é intelectualmente honesto usar este número como arma de arremesso contra o governo.
E a taxa de crescimento do PIB? Passa-se o mesmo, só que aqui é o primeiro-ministro a embandeirar em arco. 0,3% de crescimento face ao trimestre anterior é, com toda a certeza, um valor estatisticamente não significativo. Infelizmente, no INE, não consigo encontrar informação que me permita calcular intervalos de confiança, mas é fácil argumentar por que motivo é perfeitamente possível que o crescimento real tenha sido negativo.
Em primeiro lugar, é prática corrente rever estas estimativas. Por exemplo, a estimativa que saiu sobre a taxa de crescimento no primeiro trimestre deste ano, já foi revista em baixa em 0,2 pontos percentuais. Se uma revisão semelhante for aplica ao segundo semestre, já teremos uma estimativa para a taxa de crescimento de apenas 0,1%. Em segundo lugar, os dados são sazonalmente ajustados (para corrigir o fortíssimo efeito sazonal do Natal). Tal procedimento é puramente estatístico/econométrico e, como tal, tem a ele associado uma margem de erro. Acresce que este é um ano excepcional devido à crise internacional, fazendo com que a queda brutal na produção no 1º trimestre deste ano se confunda com as fortes quedas sazonais associadas ao trimestre que vem depois do Natal. Sendo mais difícil separar os efeitos, a probabilidade de erro é maior. Finalmente, o cálculo do PIB é também uma estimativa com base numa amostra, pelo que os argumentos apresentados relativamente à taxa de desemprego se aplicam, ipsis verbis, à taxa de crescimento do PIB.
É assim perfeitamente possível que a taxa de crescimento do PIB neste trimestre tenha sido negativa, sendo cedo para decretar o fim da recessão. O ministro da finanças, Teixeira dos Santos, como economista sério que é, sabe disto perfeitamente e, provavelmente por isso mesmo, já disse que com base nestes números não podíamos dizer que a crise acabou. Temos de esperar para ver.
Post Scriptum: Entrada publicada em estéreo nas Margens de Erro.

Olá,
Antes de mais, quero dar-lhe os parabéns pelo seu magnífico blogue. Acho que é deste tipo de que fazem falta na blogosfera. Vou ser leitor assíduo dos seus textos que são muito interessantes. Aliás, tornei-me seguidor para puder acompanhar o seu blogue com mais atenção.Continue o seu trabalho
Convido-o a visitar o meu blogue: o Interjeições, em interjeicoes.blogspot.com.
Escrevinhador
Comment by Interjeições — August 21, 2009 @ 3:00 pm
Caro Luís,
Percebe-se perfeitamente que, sendo a avaliação feita com base numa amostra, se o resultado cai dentro do intervalo de confiança não é garantido. De modo que, para o estaticista, mais-zero-vírgula-três-por-cento poderá ser tão provável como menos-zero-vírgula-três-por-cento. Mas será o mesmo para o politólogo ou para o economista? Creio que não.
Quando as sondagens atribuem o empate técnico para os dois principais partidos, por cair a diferença entre eles dentro do intervalo de confiança, que impacto tem o anúncio do resultado das sondagens sobre os resultados eleitorais dos principais partidos e dos outros? Tem, certamente, algum.
Do mesmo modo, ou mesmo por maior razão, um resultado de mais-zero-vírgula-três-por cento de crescimento económico avaliado com base numa amostra, tem um efeito animador que contrasta significativamente com o resultado simétrico, ainda que a diferença entre eles seja estatisticamente pouco relevante.
Em mercados globalizados (mercados de commodities, por exemplo) uma pequena diferença pode inverter uma tendência de forma sustentada ou desequilibrar um mercado apertado. É certo que algumas vezes a alteração da situação não encontra condições de sustentabilidade e volta tudo ao ponto de partida. Como os papagaios na praia: antes que levantem e se aguentem vaidosos nos céus onde as ventos sopram para o mesmo lado andam ao sabor dos ventos cruzados que se fazem sentir rente à areia.
Comment by rui fonseca — August 24, 2009 @ 1:36 pm
Caro Rui,
percebo perfeitamente que quem apoia o governo queira destacar a estimativa dos 0,3% (em vez de destacar a estimativa dos 3,7% negativos de crescimento homólogo ou a subida na estimativa da taxa de desemprego) e que quem está contra o governo queira destacar a estimativa da subida do desemprego ou estimativa negativa para a taxa de crescimento homóloga.
Esse não é o meu ponto. Apenas quero chamar a atenção para a incerteza que estes dados encerram e que são tratados no espectáculo mediático como se fossem a verdade dos factos e não estimativas. Há que esperar para ver. Não é com más interpretações das estatísticas que acaba a recessão.
Comment by LA-C — August 24, 2009 @ 2:07 pm
Post muito educativo.
Entretanto, aquilo que vi na revista The Economist foi, precisamente, especulações muito desenvolvidas sobre estas taxas de crescimento de 0,3%, que se verificaram não só em Portugal como também na Alemanha e França. Aparentemente, nessa revista dá-se tanta importância a esses números como os políticos portugueses dão.
O facto é que diversos países apresentaram recentemente as suas estimativas de crescimento económico no 2º trimestre, e muita especulação tem sido feita, não só em Portugal como noutros países também, sobre esses números. Aparentemente, o LA-C acusa todas essas especulações de terem pouco fundamento.
Comment by Luís Lavoura — September 1, 2009 @ 3:50 pm
Olá, Luís, obrigado pelo comentário. Não direi que os números têm pouco fundamento, apenas direi que taxas de crescimento do PIB são sempre estimativas. Neste caso, ainda por cima, estamos a falar de estimativas provisórias. Ou seja, é necessário esperar um pouco mais para ver e ter certezas. Mas concordo bastante com o que dizes, o quer que se escreva sobre este assunto é acima de tudo especular sobre este assunto.
Comment by LA-C — September 1, 2009 @ 11:32 pm