Ao livro “Um Inquérito à Causa e Natureza da Riqueza das Nações” de Adam Smith é geralmente atribuída a criação da ciência económica. Embora mais tarde os economistas tenham tornado o objecto das suas inquirições mais difuso (como dizemos aos nossos alunos, todos os assuntos são susceptíveis de ser analisados pela perspectiva económica), na verdade a questão original continua a ser a questão mais fascinante da ciência económica: o que é que faz crescer os países ou por que é que uns países são ricos e outros são pobres?

A caminho de uma década de estagnação da economia portuguesa acredito que esta é também uma questão cada vez mais presente na cabeça dos economistas portugueses: por que é que a economia portuguesa não cresce e, historicamente, apenas excepcionalmente consegue ultrapassar os 70% do rendimento per capita dos países mais ricos da Europa?

E na cabeça de alguns portugueses acredito também que surja cada vez mais a questão: qual é o contributo que os economistas portugueses podem dar para ajudar Portugal a sair da crise?  


A este propósito recordo aqui uma discussão ocorrida há uns meses em Israel sobre a situação dos departamentos de economia daquele país – os das Universidades de Telavive e de Jerusalém encontravam-se até há pouco tempo entre os 10 melhores do mundo – e o contributo que eles poderiam dar para ajudar a ultrapassar a crise económica. Nesta discussão, que teve bastante repercussão no meio académico israelita e na comunicação social, foram levantadas questões muito interessantes sobre o papel dos economistas na solução das crises.

Uma primeira questão é se os economistas podem de facto ser úteis na resolução dos problemas económicos, isto é, a questão da utilidade social da ciência económica. De facto, não sendo uma ciência exacta e não chegando os economistas alguma vez a acordo sobre a melhor solução para um qualquer problema pode discutir-se o contributo que os economistas podem dar para melhorar o bem-estar social. No que se seguiu assumiu-se que os economistas podem ser úteis na resolução de problemas económicos.

No entanto, ainda em relação à utilidade social da ciência económica, discutiram-se as áreas de investigação que devem ser privilegiadas na atribuição de financiamento. Nomeadamente, foi proposto que nos financiamentos da investigação fosse dada prioridade a trabalhos empíricos sobre a economia israelita (nos últimos anos os economistas israelitas têm-se se distinguido essencialmente no campo da economia teórica).  

Uma outra questão é onde estão os economistas que podem ajudar a resolver a crise. Talvez porque tenham assumido implicitamente que os nacionais residentes conhecem melhor os problemas da sua economia, o que por várias razões me parece ser sensato, os israelitas discutiram a qualidade dos seus departamentos de economia numa perspectiva internacional, para concluírem que aqueles se encontravam numa trajectória descendente, dada a dificuldade em manterem nos seus quadros os melhores economistas israelitas (16% dos economistas das 10 melhores universidades americanas são israelitas). Um relatório elaborado por alguns dos melhores economistas israelitas propõe uma série de medidas para alterar essa situação.   

No caso português, apesar de muitos dos melhores economistas portugueses estarem em universidades estrangeiras, os departamentos de economia encontram-se numa trajectória ascendente em termos do reconhecimento internacional da sua investigação (embora ainda com um longo caminho pela frente como na generalidade das outras áreas científicas em Portugal). Por outro lado, os economistas portugueses que se dedicam à economia teórica são a excepção.

O que é que fica a faltar para que os economistas portugueses nas universidades portuguesas se interessem mais pela economia portuguesa?