Carta à minha neta Ana Laura no seu primeiro aniversário
Minha Querida Ana Laura,
Justo há um ano, meu amor! Teu choro primigénio transpôs o portal do mundo e nele entraste coroada de entidade. Mesmo na longitude onde me recolhia, ouvi-o e agasalhei-o no abrigo que construí dentro em mim – era o primeiro timbre da tua voz, e eu quis guardá-lo. Tem-me servido de pão com que sustento a saudade e me adoça as agruras de tantas solidões que me açoitam o peito e escurecem o crepúsculo para onde viajo.
Desse nítido dia vertical, relampeja-me na lembrança o brasido da ternura que me invadiu nesse instante. E perdurará, até o tempo deixar de conjugar-me. Sinto-me apto a palmilhar todos os longos segundos que demoraste na jornada entre o teu ainda quase não ser e o teu ser em sua explodida inteireza. O teu destino é amanhecer devagar.
O Vovô ainda se encontra sobre mesmo penedo, no meio do mar imenso. Sinto-o e vejo-o e contemplo-o da janela do sótão. Por mais um triz, batia-me à porta, e eu deixava-o entrar para fraternizarmos os dois. Somos velhos amigos de infância e de jornada. É bom companheiro e conta-me histórias de adormecer. Do tempo em que o Vovô mergulhava no sono e no sonho embalado pela mansuetude do seu sussurro ou pela braveza do seu ribombar contra as falésias.
Nesse tempo, o mar pernoitava ao lado do berço do teu Vovô, ainda menino como tu. Muito mais de um carro de anos se escoaram, e o mar, apesar da sua constância, decidiu entornar-se para dentro da caixa-de-ressonância de um búzio… Imita a sua voz e faz-me companhia nas marés vazas… O berço, porém, ainda está aí, dando testemunho, em sua rija madeira de castanho, de uma remota presença, já delida pela usura do tempo. Mas sinto que ele, tal como eu, sente saudades do mar antigo e das embaladas noites de vento e chuva ou bêbedas de lua.
Um dia, minha querida neta, hei-de contar-te um caso. Um caso, conto ou história, tanto faz, sobre minha vida comprida, não sei se cumprida, os sangues que te precederam e de que teu Vovô se originou e de alguns deles coetâneo… Nesse dia – tenho a certeza –, virás enroscar-te no meu colo, derramarás os teus tranquilos olhos da cor do mar nos meus, sobre ti descerá uma capa de silêncio, porque queres sorver o licor da palavra conversada. Tenho esperança de que o tempo me não vai atraiçoar. Ele e o destino pelam-se por jogar xadrez num tabuleiro de casas imprevisíveis…
Sou um garajau. Ave marinha de arribação, espera o Outono para tomar o rumo do vento e seguir a rota da migração. Depois, regressa ao seu penedo. Regressa sempre. Vem do reino do Sol, e logo que ele arrefece, retorna à origem. Se emigrasse, talvez não voltasse. O Vovô há-de um dia emigrar. Para que reino, não sei… Talvez do Sol, talvez da Noite!
Ao escrever-te esta carta fico com a sensação de que estou a endereçar-me ao futuro. A ti. O Vovô já o teve fechado na mão. Escapou-se-lhe num dia cansado. Sei que para ti o tempo não existe, é redondo. Um destes dias, ao meu colo, reclinaste a tua cabecinha no meu peito. Olhaste-me e sorriste. Decorei ambos, o olhar e o sorriso. Depois, tombaste no sono, serena na tua inocência. Nesse instante, senti que o universo se havia enroscado no meu colo para adormecer contigo… Por muitos anos, meu amor. Vive-os em plenitude.
Teu Avô paterno.!7 de Julho de 2009
