e aproveitando a internet sem fios do aeroporto da Portela. O Carlos sumariza aqui as nossas divergências. Eu sumarizo as divergências de uma forma ligeiramente diferente, mas deixo isso para o fim.


Diz o Carlos que eu tenho de concordar que Paul Krugman, HOJE, é keynesiano (por oposição a neoclássico, entenda-se). É verdade que num dos posts anteriores, o Carlos disse que não bastava alguém dizer que é um economista neoclássico para automaticamente ser neoclássico. Em tese, até concordo com o Carlos, mas, por favor, também não exageremos.

Então o Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, escreve em 2007 que é neoclássico (ver a citação no post anterior) e o Carlos diz que Paul Krugman não é! Convenhamos, e lamento estar aqui a usar um argumento de autoridade, mas é um pouco absurdo ser o Carlos a dizer que Krugman não é aquilo que o próprio diz que é.

Depois, e mais uma vez, o Carlos usa o termo keynesiano por oposição a neoclássico. Eu sei que é chato estarmos sempre a discordar, e lamento usar aqui uns termos mais técnicos que, provavelmente, apenas quem já fez o 1º ou 2º ano de licenciatura de economia entenderá. O Paul Krugman é keynesiano, concordo, mas um keynesiano da linha do pensamento de Hicks, Modigliani e Samuelson. Ou seja, usa o aparato da IS-LM, proposto originalmente por Hicks em 1937 (salvo erro), que Krugman defende ser um modelo de Equilíbrio de Geral simplificado. Este aparato adotado por Paul Krugan ficou conhecido na história do pensamento económico como, adivinhem lá!, Síntese Neoclássica. Carlos, em forma de brincadeira descontraída, quase que me dá vontade de dizer: cada tiro cada melro! (Para os curiosos, deixo aqui o link para um Powerpoint de um académico brasileiro, José Luis Oreiro. Afinal de contas não há motivo para usar sempre links anglo-saxónicos.)

Mais, as políticas expansionistas que Krugman tem vindo a defender nos últimos tempos são tudo menos heterodoxas. É a resposta mais convencional possível. É precisamente o que se ensina a alunos do primeiro ano de Macroeconomia. Usando, precisamente, o aparato da IS-LM explica-se que, quando as taxas de juro estão próximas de zero (a tão badalada armadilha de liquidez), os efeitos da política orçamental são máximos. Como digo, isto é tão pouco heterodoxo que é ensinado aos alunos do 1º ano (pelo menos no curso de Economia da Universidade do Minho).

Concluindo, eu resumiria as divergências com o Carlos de forma ligeiramente diferente. Quando se fala em pensamento neoclássico, geralmente fala-se no mainstream da academia e que se pode traduz numa metodologia que usa fortemente a matemática e que parte do princípio que as pessoas respondem a incentivos de forma inteligente e coerente. Basicamente presume que se alguém tiver de fazer uma escolha entre duas opções, escolherá a opção que acredita que lhe proporcionará mais bem-estar. Criticável ou não, é esta a abordagem que a maior parte da profissão, o tal mainstream ou os tais economistas convencionais, adopta. (Talvez a isto se possa acrescentar a crença de que vale a pena estudar os pontos de equilíbrio dos modelos económicos, bem como as trajectórias que levam a esses equilíbrios.)

O Carlos quando fala em neoclássicos, fala num ramo muito específico de neoclássicos. Fala naqueles que acreditam não há impedimentos ao bom funcionamento dos mercados, como por exemplo externalidades, rendimentos crescentes, poder de monopólio, problemas de informação assimétrica, carteis, etc. Ou seja, o Carlos quando fala em neoclássicos apenas se refere a um ramo muito específico de neoclássicos e que representam uma pequena minoria dos economistas.

Não havia mal nenhum nesta definição ultra-restritiva do Carlos, que confunde o todo com uma pequena parte. Cada um escolhe as definições que lhe apetece. O problema, como referi antes, é que o Carlos em muitas situações confunde, penso que não deliberadamente, a sua definição ulta-restritiva com pensamento convencional e hegemónico.

Por exemplo, em muitos posts, ele diz que as políticas económicas defendidas por Krugman vão contra o pensamento convencional. Nada de mais errado. Como atrás disse, estas são precisamente as políticas que são ensinadas aos alunos do primeiro ano de uma licenciatura de Economia. Isto é tão convencional que temos grande parte dos governos europeus e americano a segui-las com o apoio explícito de Olivier Blanchard, professor no MIT (salvo erro) e economista-chefe do FMI, esse antro de heterodoxos e inconvencionais. Como disse Krugman, é perfeitamente possível ser um economista neoclássico e acreditar em falhas de mercado em larga escala e defender uma forte intervenção do governo.

O Carlos, penso que não deliberadamente, ao confundir estes conceitos faz campanha pelos heterodoxos. O método é simples e facilmente desmontável. Confunde o todo com a parte, criticando uma minoria dos neoclássicos, para depois dizer que todos os neoclássicos são assim e que, portanto, são uns lunáticos sem qualquer ligação à realidade, enfim, que são uns neoliberais empedernidos. Portanto, a solução é virarmo-nos para as heterodoxias.

Para terminar, gostaria de clarificar o que penso sobre heterodoxias. Também eu, muitas vezes, nos meus textos falei de forma pouco rigorosa sobre as heterodoxias, misturando dois grupos de heterodoxias substancialmente diferentes. Uma heterodoxia é algo que não é aceite pela generalidade da profissão. Tal pode acontecer porque a metodologia usada não é a mais comum, ou porque as conclusões são estranhas ou porque os pressupostos do modelo são diferentes dos usuais. Mas, seja qual for o motivo, por definição, uma teoria heterodoxa é uma teoria que não é aceite pela generalidade da profissão. Dito isto, há quem seja heterodoxo porque está completamente ultrapassado e defende teorias caducas ou pretende reciclá-las. É  o caso, provavelmente, de marxistas e neo-marxistas. E há quem seja heterodoxo por motivos diametralmente opostos: porque está a empurrar a fronteira da ciência com ideias e métodos inovadores. É o caso dos que introduziram a psicologia na economia, que levou à economia comportamental e experimental e que começa agora a ser introduzida nos modelos macroeconómicos. É também, provavelmente, o caso de quem tenta introduzir ideias evolucionistas nos modelos económicos. Neste último caso, digo provavelmente porque ainda não passaram o teste do tempo.