Agora é que é mesmo para concluir
Volto a pegar na pena de escrever, porque, mais uma vez, o Carlos escreveu um texto que merece ser lido. Penso que com este conjunto de textos ficam claras de onde vêm as nossas divergências.
Comecemos pelo que não interessa. O Carlos, mais uma vez, manda-me ler Lakatos e Mark Blaug (além de fazer considerações tolas sobre a universidade onde estudei). Eu costumo evitar responder a este tipo de name dropping, mas para ver se ele pára com isso, gostaria de lhe dizer que li esse autores. Li outros, também, mas, por uma questão estética, não gosto de acenar com os livros que li e que leio. A Filosofia da Ciência é um assunto que me interessa, e é precisamente uma antologia de artigos de Filosofia da Economia que levo comigo em viagem, já amanhã. O facto de ele me considerar ignorante nestes assuntos não tem nada de mal. É normal que assim pense e é recíproco.
Vamos agora ao que interessa. O Carlos “acusa-me”, entre aspas, de não dar um significado preciso à Economia Neoclássica. Tem ele toda a razão. Aliás, eu “acuso-o”, também entre aspas, de atribuir o significado que lhe dá jeito.
Do início. O Carlos não gostou que eu tivesse dito que o pensamento económico neoclássico vinha do século XIX. Lembro, esta discussão surgiu a propósito de o Carlos ter dito que as expectativas racionais estarem no “core” do pensamento neoclássico. Eu lembrei o Carlos de que as “expectativas racionais” apareceram na literatura pela primeira vez em 1961 e que era estranho que o pensamento neoclássico tivesse sobrevivido quase cem anos sem o seu “core”. O Carlos respondeu-me dizendo que eu estava a desviar a conversa e que não fazia sentido recuar tão atrás no tempo para definir o pensamento neoclássico. Ora, na verdade nem o Carlos concorda com o próprio Carlos. Vejamos: diz o Carlos, numa resposta a um outro blogonauta: “em nome do rigor convém dizer que a linhagem de Adam Smith até Karl Marx, inclusive, suportada numa teoria do valor trabalho, corresponde ao que geralmente se designam por economistas clássicos. Marshall encara o valor de um bem de uma forma radicalmente distinta, assente na utilidade que a última consumida desse bem pode proporcionar. O deslocar do enfoque do valor do trabalho para a utilidade marca o início do pensamento neoclássico (…). Por isso em bom rigor Keynes é antecedido por neoclássicos”. Como se vê, até o Carlos, dependendo dos dias, concorda que Marshal era neoclássico. Lembro que uma das obras principais de Marshal data de 1881… assim sendo, mantenho o meu argumento.
O Carlos de seguida delimita o que entende por pensamento neoclássico. É aqui que a porca torce o rabo e é precisamente aqui que vem o que me parece uma grosseira manipulação política. É também por isso que eu digo que, por diversas vezes, o Carlos confunde metodologia com ideologia. O Carlos limita de tal forma aquilo que entende por escola neoclássica, que quase que restringe o conceito à Escola de Chicago e do Minnesota. Sendo uma definição, o Carlos teria o direito de usar a definição que entende, claro, desde que fosse claro no seu exacto significado. O problema é que depois, em vários posts sobre diversos assuntos, fala dos neoclássicos como sendo o paradigma dominante e como representando a economia convencional. É aqui que está o erro. Se ele restringe tanto o conceito de neoclássico, então o mainstream não se enquadra neste pensamento. A maioria dos Economistas não se revê no monetarismo de Friedman nem se revê nos modelos de RBC (Real Business Cycles) da Escola do Minnesota. Dois dos expoentes máximos dos RBC, Robert King e Sérgio Rebelo, até escrevem no fim dos anos 90 um artigo com o título: “Resuscitating Real Business Cycles”. Obviamente, se tais modelos fossem dominantes não era necessário andar a escrever artigos com o objectivo de os ressuscitar.
O Carlos tem de fazer uma opção. Se restringe o conceito de neoclássico tanto quanto pretende, então tem de parar de dizer que é o pensamento dominante e hegemónico em economia, tem de parar de o chamar pensamento convencional e tem de deixar bem claro que se trata de uma corrente minoritária dentro da profissão. E deve parar de dizer que o pensamento económico convencional apoia o neoliberalismo que ele tanto gosta de atacar. Alternativamente, usa o conceito comummente aplicado à Economia Neoclássica e, nesse caso, dirige os seus ataques a uma corrente que, de facto, existe dentro da Escola Neoclássica. Que existe, mas não esgota, note-se bem. Se fizer esta opção, deve parar de dizer que os neoclássicos são neoliberais.
Para terminar, deixo aqui uma citação de Paul Krugman, economista que, a ver pela blogosfera portuguesa, é o campeão dos heterodoxos. O título é revelador: “Heterodox Errors”. Dedico este parágrafo aos heterodoxos da nossa blogosfera que tanto se curvam perante Krugman:
(…)I’d like to warn against an error I think both sides tend to fall into: assuming that you have to use heterodox economics to reach conclusions critical of free markets. As I said, both sides tend to fall into that error: the heterodoxishly-minded bash neoclassical economics because they claim that it automatically makes you a defender of capitalism red in tooth and claw, and the free-marketeers reject warnings about markets gone wrong as somehow necessarily reflecting ignorance of economic theory. It just ain’t so.
Let me give two cases in point. One is the California electricity crisis of 2000-2001. Those of us who saw it as a crisis produced by market manipulation did so on the basis of pretty standard economics, maximization, equilibrium, and all. (…)
The other is the effects of trade on income distribution. Anyone who thinks that neoclassical economics says that everyone gains from free trade, and that you have to reject the assumptions of the field to raise concerns, obviously doesn’t know anything about the subject.

Sabendo-te de partida fiz só um sumário por bullets de discordâncias.
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/07/neoclassicos-sumario-de-discordancias.html
Boa conferência.
Carlos
Comment by Carlos Santos — July 10, 2009 @ 7:42 pm
Grande abraço Carlos. Depois da conferÊncia devo tirar umas férias. Continuamos em Agosto (se estiveres disponível na altura, claro. nCaso contrário em Setembro).
Comment by LA-C — July 10, 2009 @ 8:10 pm
Caros
Estao a discutir dois conceitos diferentes, mas que nao podem ser separados, tratando-se tudo de uma questao de nomenclatura. A economia neoclassica refere-se ao pensamento Marshalliano do sec. 19. A chamada “sintese neoclassica” surgiu muito depois, nos anos 50, mas obviamente inspirada no pensamento neoclassico. Contudo, trata-se de tudo menos uma “sintese”, pois nunca deu lugar a um unico ramo de pensamento, dai termos expectativas racionais, sunspots, etc. Uma boa referencia e o New Palgrave Dictionary of Economics. Na minha opiniao, porem, os economistas Marshallianos (=neoclassicos “puros”) ja devem estar extintos…
Comment by vasco gabriel — July 10, 2009 @ 11:30 pm