O Carlos, qual Lucky Luke mais rápido do que a própria sombra, já me respondeu. Vale a pena ler a resposta porque se percebe a dificuldade de se chegar a consenso. Percebe-se também por que é estéril este debate blogosférico.


O Carlos volta às expectativas racionais dizendo que estas fazem parte do “core” do pensamento neoclássico. É muito interessante este ponto de partida. A teoria das expectativas racionais aparece em 1961 e apenas nos anos 70 são adoptadas por uma determinada corrente económica, na altura bastante minoritária. Ou seja, de acordo com o Carlos, a escola de pensamento neoclássico, que recua ao século XIX, sobreviveu entre 1870 e 1960, quase cem anos, sem o seu “core”. Hipótese bastante mais razoável, parece-me, é admitir que as expectativas racionais não fazem parte do “core”.

Foram, de facto, muito usadas nas décadas de 70, 80, 90 e continuam a ser usadas hoje em dia. Mas cada vez mais aparecem alternativas e será uma questão de tempo até que deixem de ser tão utilizadas. É aliás interessante verificar que um dos líderes da revolução das expectativas racionais, Thomas Sargent, tem estado nos últimos anos a trabalhar em hipóteses alternativas quanto à formação de expectativas. Cá está um dos grandes méritos da Escola Neoclássica: evolui. Como por aqui se vê, já havia neoclássicos antes das expectativas racionais e vai continuar a haver neoclássicos quando estas passarem de moda.

Num outro ponto, o Carlos reafirma que “a mera existência de bolhas especulativas contraria a ideia de que os agentes” formam as expectativas racionalmente. Mais uma vez, e não há outra forma de o dizer, o Carlos está errado. O assunto é, evidentemente, demasiado técnico para o estar a explicar aqui. Apenas posso indicar ao Carlos alguma bibliografia relevante. Pode, por exemplo, ler este artigo, que já indiquei no texto anterior. Poderá ver que o modelo assume expectativas racionais e que é perfeitamente compatível com estas bolhas. Posso-lhe indicar uns quantos mais, se quiser, como por exemplo o artigo de Jean Tirole na Econometrica de 1985. Mas compreendo que seja mais agradável declarar morte ao neoclassicismo.

Carlos acrescenta ainda que eu não poderei dizer “que a racionalidade à Becker não é neoclássica”. Nunca eu diria tal disparate. Concorde-se ou não com Becker, seja a corrente dele maioritária ou não, Becker é um dos maiores nomes da Economia Neoclássica. Tal como Joseph Stiglitz ou Paul Krugman (para só referir alguns que agora, legitimamente, andam na moda).

O Carlos diz ainda que modelos de inspiração evolucionista não têm cabimento na Economia Neoclássica. Mais uma vez engana-se. Volto a dar o exemplo de um dos meus orientadores, Karl Shell, que, em co-autoria com o biólogo Stuart Alan Kauffman, se inspirou em modelos evolucionistas para descrever o progresso tecnológico.

O que é fantástico nestas argumentações é que o nosso amigo Carlos diz que Economia Neoclássica é incompatível com uma série de coisas, quando eu conheço muitos economistas neoclássicos que estão precisamente a trabalhar nessas coisas. É chato, mas não há grande volta a dar.

O Carlos termina ao seu post dizendo que eu disse “que nada de novo alguma vez veio da heterodoxia”. Ora é evidente que eu nunca disse tal disparate (ou, se o disse, disse-o por engano). Muito pelo contrário. Acredito que a evolução científica se faz de heterodoxias. O que eu penso é que uma heterodoxia bem sucedida, será uma ortodoxia dentro de alguns anos, ou seja, será incorporada no mainstream. A Teoria Geral de Keynes, quando apareceu, era uma heterodoxia que nos anos 50 e 60, com a síntese neoclássica de Hicks, se tornou numa verdadeira ortodoxia (até Richard Nixon disse que era keynesiano!). Só foi desafiada por Friedman, que no início era visto como um heterodoxo, e cujos ensinamentos (especialmente na área monetária) vieram a ser incorporados pelo pensamento neoclássico. Depois vieram as expectativas racionais, de que Friedman nunca foi adepto. De seguida, Cass, Shell e Azariadis, entre outros, mostraram como as expectativas racionais eram compatíveis com os “animal spirits” de Keynes; os seus modelos de “sunspots” e de “self-fulfilling prophecies” nunca foram bem aceites pela malta que, originalmente, propôs as expectativas racionais. E por aí fora. Eu quase que diria que qualquer boa contribuição científica é uma heterodoxia no seu tempo. Já agora, também existe o caminho inverso, algo que numa fase é uma ortodoxia e que, posteriormente, é descartado pelo mainstream e vai parar às heterodoxias. É o caso, por exemplo, de Hayek (sei que muitos discordam desta minha opinião em relação a Hayek).

O Carlos termina dizendo que é urgente debater por que motivo o paradigma neoclássico é dominante no pensamento económico. Espero ter-lhe dado umas pistas para esse debate. A grande força do pensamento neoclássico reside em ser aberto a várias correntes dentro do seu interior (onde cabem Friedman e Becker, mas também cabem o Stiglitz, Mundell e Krugman) e saber incorporar o que de melhor tem cada heterodoxia. Numa palavra, evolui.