Muitas vezes fico com a sensação de que grande parte das críticas que heterodoxos, quer de esquerda quer de direita, fazem ao paradigma da Economia Neoclássica se deve, essencialmente, a uma supina falta de conhecimento do que criticam. Fico com a sensação de que estudaram o paradigma neoclássico por sebentas escritas à máquina. Este texto do Carlos Santos é disso um excelente exemplo. Ele divide o seu texto em 5 pontos. Os 5 pontos estão, na minha opinião, errados.


A concluir o ponto 1, escreve: “o problema que aqui refiro é que a economia neoclássica nunca compreende o que se passa a nível macroeconómico, porque assume que é o resultado de agentes micro iguais entre si.” Tal afirmação é, pura e simplesmente, falsa. Há imensos modelos neoclássicos que assumem agentes micro heterogéneos. É, aliás, uma área fértil de investigação. Já agora, diga-se, que o Carlos prefere modelos em que se postule determinados comportamentos agregados sem conseguir fundamentar que tipo de comportamentos individuais podem dar origem a tal efeito agregado. (Diga-se de passagem que não é muito diferente de assumir que todos os agentes económicos têm exactamente o mesmo comportamento.)

No ponto 2, escreve duas ou três coisas interessantes. Primeiro, diz que os modelos com expectativas racionais não conseguem explicar bolhas especulativas. O que é falso. Mas justifica-se numa citação de Becker (economista de Chicago com que Carlos não concorda) para dizer que os modelos de expectativas racionais que explicam as bolhas não prestam. É evidente que Becker, que nem é especialista neste assunto, sempre rejeitou esses modelos porque eles contrariam a sua (de Becker) fé na auto-regulação dos mercados. Por isso a negação de tais modelos tem a credibilidade que tem. Bolhas especulativas são compatíveis com expectativas racionais, pelo menos, desde 1984. Mas, porque não?, deixo aqui o link para um modelo muito recente de um dos meus orientadores, em co-autoria com um colega de doutoramento, sobre o assunto.

A verdade, é que a maioria dos neoclássicos não concordam com a visão extremista da Escola de Chicago. Confundir ideologia com metodologia dá nisto… Depois escreve ainda “A economia neoclássica não admite interdisciplinaridade, e não compreende o que pode importar da psicologia social, a única forma razoável de compreender euforias nos mercados financeiros.”. Tal é, obviamente e mais uma vez, factualmente falso. Não há muito a dizer, há imensos economistas neoclássicos a trabalhar precisamente nesta área. A introduzir conceitos comportamentais nos modelos. Basta fazer uma pesquisa google com as palavras “irrational expectations”, bounded rationality”, e outras do género. (Acrescento, no entanto, que também penso que a Ciência Económica devia estar mais aberta aos ensinamentos das outras ciências. Eu próprio tenho procurado trabalhar com co-autores que vão desde a Ciência Política à Matemática.)

No terceiro ponto, escreve: “a economia neoclássica chega necessariamente a resultados a que chama de equilíbrios optimizadores.” Novamente, tal é falso. Há imensos modelos neoclássicos que não chegam a estes resultados. Mais uma vez, confunde neoliberais com neoclássicos.

No ponto 4, escreve “Aliás o entendimento do mercado de trabalho na economia neoclássica é muito deficiente porque não compreende sequer a ideia de negociação colectiva, nem de 8 horas de trabalho diário. Na mitologia neoclássica, as pessoas podem escolher trabalhar 4,564 horas por dia. A padronização por unidades indivisíveis é estranha a este mundo.” Mais uma vez tal é falso. Pelo menos desde 1985, quando Hansen introduziu precisamente a indivisibilidade do trabalho nos modelos de ciclos económicos. Eu próprio, em todos os papers que já escrevi, considero sempre o trabalho indivisível. O motivo para muitos economistas não se preocuparem com isto tem precisamente a ver com o facto de na maioria das vezes tal efeito ser pouco relevante. Digamos que em vez de se concluir que se tem uma taxa de desemprego de 10%, se conclui que as pessoas trabalham menos 10%. Claro que quando se faz a leitura destes resultados, só um estúpido os iria interpretar desta forma, e qualquer pessoa percebe que se está a falar de 10% de desemprego. De qualquer forma, como disse, esta crítica não é válida desde 1985.

No ponto 5, outro disparate. Não vou citar tudo, porque é demasiado extenso, mas diz que “A economia neoclássica assume que o sistema de preços trata de tudo” e que não tem em conta o poder negocial das partes. Mas mais uma vez isto é totalmente falso. A teoria dos jogos há muito que trata destas situação e há muito, pelo menos desde os anos 80, que tal é incorporado em diversos modelos económicos, quer a nível micro quer macro.

Talvez se perceba agora porque tão poucas vezes me dou ao trabalho de responder a heterodoxos da nossa blogosfera. Além de uma manifesta falta de tempo, parece-me sempre que estão a criticar uma corrente minoritária da teoria neoclássica (aquela que corresponde à Escola de Chicago), confundindo o todo com a parte, ou então que estão a criticar modelos que já estão desactualizados há mais de 30 anos. Os erros factuais são demasiados e, ao se estar a explicar isto, parece que se está a chamar ignorantes às pessoas, o que obviamente não é minha intenção. Depois, naturalmente, os visados pensam que eu é que sou ignorante e que não percebo as críticas que fazem. E, claro, é difícil manter uma conversa profícua nestes termos.

PS Dentro em pouco vou partir para esta conferência. Enquanto estiver neste antro de neoclássicos deixarei o blogue entregue ao Cristóvão e ao Fernando. Não estranhem a ausência de notícias minhas