Reflexões sobre a Ilha onde nasci (5)
Todos os nossos mestres, pensávamos, eram homens de bem, não se metiam em política, temiam a Deus, eram profundamente religiosos… Mas, por outro lado, o mais grado deles era Chefe dos barrigudos da Legião Portuguesa, outros eram Integralistas e consideravam Salazar como o novo Messias anunciado, outros eram, enfim, nem vale a pena continuar, caso contrário, não haveria tempo que chegasse.
Salvavam-se alguns, mas, esses constituíam uma minoria tão encolhida, que não sei como conseguiam sobreviver em ambiente tão agressivo. Ouçam esta dedicatória de um poeta liceal, escrita no pórtico do livro de poemas Flores com Fruto: “Este livro não é pretensioso, mas tem uma pretensão: contribuir, na medida das suas possibilidades, para a edificação espiritual de quem o ler. As flores são desbotadas, sem vida nem perfume. Mas os frutos, esses, são suculentos e saborosos, porque foram colhidos nas árvores frondosas e eternas do Amor de Deus, da Pátria e da Família.”
Com uma Escola desta natureza, constituída por um escol de professores com tal formação ideológica, com apenas seiscentos e poucos alunos na altura, que havia a esperar?
“Estou em frente dos futuros generais, dos futuros políticos, dos futuros médicos, dos futuros magistrados, dos futuros advogados… Sim, porque os da Escola Comercial e Industrial destinam-se a tarefas de escritório, de mecânicos, eletricistas, serralheiros… Por isso, meus amiguinhos, a vossa responsabilidade é grande e espinhosa, mas foi Deus que assim o determinou” – ouço ainda nos meus ouvidos a lengalenga, centenas de vezes repetida, a fim de ficar bem cinzelada no íntimo de cada um. Alguns políticos, e outros da mesma matriz ou raiz, como certos “intelectuais” e eternos candidatos a escritor, aprenderam bem a lição. Basta lançar um breve olhar retrospetivo, e não ter medo de abrir os olhos para tirar as devidas conclusões.

Tenho estado a pensar e, de facto, não devemos ter medo de abrir os olhos e olhar para o passado. Sendo os meus pais católicos, nunca foram salazaristas. Mas aquele ensino instrumentalizado pelo regime marcava ainda assim o nosso caracter. Tendo lido alguns bons livros de História sei que a victória em Aljubarrota se deveu mais ao génio militar inglês do que à valentia do Condestável. Mas ainda assim, passados tantos anos, quando há uns tempos se gozou à fartazana com a beatificação do dito ( e ainda bem que se gozou…) a coisa custou-me no íntimo, pá. Algo que julgava enterrado há tantos anos ainda veio à tona, fruto dos ensinamentos liceais, “na guerra sempre os primeiros” e “servir sempre Salazar” e o raio que o parta…
Comment by João Campos — July 8, 2009 @ 10:21 pm
“…meus amiguinhos…”. Ei-lo, o PR.
Comment by A.R. — July 9, 2009 @ 11:38 pm
Tens razão, AR: o PR Cavaco Silva tem muitas culpas no cartório da tal social democracia patega que deixou afundar o nosso sistema de educação até este ponto… Concordo contigo, pá!
Comment by João Campos — July 10, 2009 @ 1:27 pm
PR= Padre Rebelo, na clandestinidade.
Comment by Anónimo — July 10, 2009 @ 11:33 pm
Gostei muito do seu livro “Charlas sobre a língua” mas gostaria que me dissesse porque usa etcoetra em vez de etc. Qual a diferença?
Comment by Teresa Silva — August 12, 2009 @ 8:19 pm