Todos os nossos mestres, pensávamos, eram homens de bem, não se metiam em política, temiam a Deus, eram profundamente religiosos… Mas, por outro lado, o mais grado deles era Chefe dos barrigudos da Legião Portuguesa, outros eram Integra­listas e consideravam Salazar como o novo Messias anunciado, outros eram, enfim, nem vale a pena continuar, caso contrário, não have­ria tempo que chegasse.


Salvavam-se alguns, mas, esses constituíam uma minoria tão encolhida, que não sei como conseguiam sobreviver em ambiente tão agressivo. Ouçam esta dedicatória de um poeta liceal, escrita no pórtico do livro de poemas Flores com Fruto: “Este livro não é pretensioso, mas tem uma pretensão: contribuir, na medida das suas possibilidades, para a edificação espiritual de quem o ler. As flores são desbotadas, sem vida nem perfume. Mas os frutos, esses, são suculentos e saborosos, porque foram colhidos nas árvores frondosas e eter­nas do Amor de Deus, da Pátria e da Família.”

Com uma Escola desta natureza, constituída por um escol de professores com tal formação ideológica, com apenas seiscentos e poucos alunos na altura, que ha­via a esperar?

“Estou em frente dos futuros generais, dos futuros políticos, dos futu­ros médicos, dos futuros magistrados, dos futuros advo­ga­dos… Sim, porque os da Escola Comercial e Industrial desti­nam-se a tarefas de escritório, de mecânicos, eletricistas, ser­ralheiros… Por isso, meus ami­guinhos, a vossa responsabilidade é grande e espinhosa, mas foi Deus que assim o determinou” – ouço ainda nos meus ouvidos a lengalenga, centenas de vezes repetida, a fim de ficar bem cinzelada no íntimo de cada um. Alguns políti­cos, e outros da mesma matriz ou raiz, como certos “intelectuais” e eternos candidatos a escritor,  aprenderam bem a lição. Basta lançar um breve olhar retrospetivo, e não ter medo de abrir os olhos para tirar as devidas conclusões.