Não tenho a mínima dúvida de que esse professor feriu gera­ções de almas jovens, incutindo-lhes valores cediços e boloren­tos, racistas e retró­grados, fornecendo-lhes visões da sociedade e da vida e da relação entre os homens tão aviltantes, que só podiam ser possíveis num regime fascizante e injusto, embora a pomposa voz de Hermano Saraiva, televisivo divulgador de histó­rias, que não da História, viesse há tempos proclamar que Salazar era profundamente antifascista… Por quem Deus nos manda os avisos!


Nem todos os alunos ficaram decerto tatuados com os imorais dislates do professor de moral. Não somos iguais na retenção dos ensinamentos nem tão-pouco na sua posterior interiorização. E até admito, e respeito a atitude, que grande parte guarde dele uma excelente memória. As suas aulas, sobretudo as dos primei­ros anos, corriam com tamanha rapidez, que até julgávamos que o senhor Tavares, o sacerdote laico dos toques da sineta, se havia enga­nado na hora e badalado mais cedo. Eu também me in­cluía nesse número, porque lhe bebia as palavras como um licor fino. O tempo, porém, e as endiabradas e torturantes introspeções a que eu me fui submetendo ao longo da vida para me esclarecer de certos fantasmas que me perseguiam, e alguns ainda não desisti­ram, foram-me, paulatinamente, esclarecendo da perversidade daquelas aulas que galopavam a cavalo dos ponteiros do reló­gio…

Salazar foi um grande psicólogo. Como se poderá compreender a longevidade de um regime desumano sem se pensar que tudo foi muito bem planeado? E o ensino era e é de facto o campo ideal para for­mar ou deformar a juventude, consoante a perspetiva em que nos coloque­mos. Tudo era feito a sério. Naturalmente que as sementes lançadas podiam não cair todas em terreno fértil, mas grande parte delas não só caiu como germinou, cresceu e deu grados frutos sumarentos.

A Democracia, que será o regime mais im­perfeito do Universo, mas também o mais justo e o mais respeitador dos direitos humanos, se exercido com a dignidade, a elevação, tem vindo a descurar este campo fun­damental, para mal das novas gerações um tanto ou quanto desorientadas. Passou-se do mar à serra num abrir e fechar de olhos: andamos não sei há quantos anos aos trambolhões, com um sistema de ensino mais que medíocre, ainda pior que mau, por não ser frio nem quente. Como se sabe, e vem na Bíblia, Deus abomina e vomita os mornos do parapeito do Céu!

Nas Ilhas, um regime de envergonhada social-demo­cracia durou cerca de vinte anos. Estabilidade? Creio que não. Na base da sua duração encontram-se muitos fatores que não sei nem vou deslindar - essa é seara alheia onde não devo meter a foice. Mas não estarei longe da verdade se afirmar que muito do que atrás apontei teve grande influência: os seculares medos de um povo martirizado, sofrido, conformado com a sua sorte, amea­çado pelos terrores que lhe ia inoculando uma religião servil, ultramontana, apostada na manutenção dos grandes senhores da terra de onde lhe provinha as benesses temporais para melhor pregar ao povo os benefícios de que iria usufruir na vida eterna.

Como cantou o Poeta Armando Côrtes-Rodrigues, na sua fase franciscana ou retrógrada: Bendita seja a pobreza / De tão subido valor / Que para sua companheira / A esco­lheu o Senhor // Louvada seja a pobreza / Que é a riqueza melhor: /Quem nada tem, tem no céu / Inda um tesouro maior.