Foi na chamada Ilha do Arcanjo que me fui conscientizando das inqualificáveis desigualdades que, na altura, como no tempo de Arruda Fur­tado, lá imperavam. E ainda se fazem sentir, ape­sar dos esforços em sentido contrário. Nesse tempo de tomada de consciência de tais injustiças que vi de perto e senti na pele, tornei-me revoltado. Um revoltado ainda sem consciência revolu­cionária: era ainda uma nebulosa que dentro em mim pairava, ainda sem contornos definidos…


Estávamos nos princípios dos anos cinquenta. Vivia en­tre cam­poneses e artí­fices, as artes praticadas na família, e os meus companheiros de escola eram também da mesma humilde condi­ção. Fui como os outros rapaz de pé descalço, com eles brincava e acamaradava, com eles sonhava com a terra da América, o fastí­gio do sonho dos que amargavam as agruras de uma vida sem sen­tido e sem futuro.

Porém, por um destes bambúrrios da sorte, o destino esque­ceu-se de me marcar o destino que me era há séculos destinado. E fui estudar para o então Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde aprendi e desa­prendi, onde fui mau e bom aluno, onde contraí feridas insanáveis, cujas cicatrizes me doem em tom sustenido, e conservo ainda muitas outras em aberto que desconfio que só se fecharão no dia em que me emborcarem para dentro de um coval.

No Liceu elitista daquele tempo, ser de fora da cidade, como eu, o Medeiros Ferreira, o Viriato Madeira e alguns outros mais, era um estigma. Não que fôs­semos menos inteligentes do que os meninos-família, cuja grandeza lhes provinha quase tão-só de estirpes de nobreza mais que duvi­dosa, com templo de oração no Clube Micaelense…. A ostentação dessas insígnias eram por vezes suficientes para que certos professores se curvassem àquela mediocridade congénita, tratando-os com a venal deferência a que a aristocracia local se achava com direito.

O professor de moral lá estava, vigilante, para manter as coi­sas em seu devido lugar, the right thing in the right place, que Deus assim o ordenava, isto é, punha perfidamente cada macaco em seu galho, que as misturas de classe não estavam de acordo com a tradição nem com a moral vigente.

A toda esta distância que os anos me foram dando, só posso dizer que essa caricata personalidade foi, durante cerca de qua­renta anos, o maior defor­mador de almas e espíritos e mentali­dades que me foi dado encontrar pela vida fora. Éramos crianças e, como dizia Guerra Junqueiro referindo-se à alma infantil: […] Tudo quanto ali se escreve / Cristaliza em seguida e não se apaga mais […].

Guardião mais que idóneo do regime sala­zarista, e seria com certeza esse o seu principal múnus, cumpria a sua mis­são de ama­nuense da moral e da civilidade com tal excesso de zelo, que, num ano letivo dos anos quarenta, foi suspenso da sua actividade pedagógica, durante um ano, por ter, numa aula formativa ou per­formativa, afirmado que o então Presi­dente da República, Gene­ral Carmona, não era digno do alto cargo que ocu­pava - e não o era, mas não pelas razões que aduziu… As razões do guardião resumiam-se no facto de o então Presidente se ter casado com uma criada de servir da cidade de Chaves, em cujo Regimento era tenente!