Reflexões sobre a Ilha onde nasci (3)
Foi na chamada Ilha do Arcanjo que me fui conscientizando das inqualificáveis desigualdades que, na altura, como no tempo de Arruda Furtado, lá imperavam. E ainda se fazem sentir, apesar dos esforços em sentido contrário. Nesse tempo de tomada de consciência de tais injustiças que vi de perto e senti na pele, tornei-me revoltado. Um revoltado ainda sem consciência revolucionária: era ainda uma nebulosa que dentro em mim pairava, ainda sem contornos definidos…
Estávamos nos princípios dos anos cinquenta. Vivia entre camponeses e artífices, as artes praticadas na família, e os meus companheiros de escola eram também da mesma humilde condição. Fui como os outros rapaz de pé descalço, com eles brincava e acamaradava, com eles sonhava com a terra da América, o fastígio do sonho dos que amargavam as agruras de uma vida sem sentido e sem futuro.
Porém, por um destes bambúrrios da sorte, o destino esqueceu-se de me marcar o destino que me era há séculos destinado. E fui estudar para o então Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde aprendi e desaprendi, onde fui mau e bom aluno, onde contraí feridas insanáveis, cujas cicatrizes me doem em tom sustenido, e conservo ainda muitas outras em aberto que desconfio que só se fecharão no dia em que me emborcarem para dentro de um coval.
No Liceu elitista daquele tempo, ser de fora da cidade, como eu, o Medeiros Ferreira, o Viriato Madeira e alguns outros mais, era um estigma. Não que fôssemos menos inteligentes do que os meninos-família, cuja grandeza lhes provinha quase tão-só de estirpes de nobreza mais que duvidosa, com templo de oração no Clube Micaelense…. A ostentação dessas insígnias eram por vezes suficientes para que certos professores se curvassem àquela mediocridade congénita, tratando-os com a venal deferência a que a aristocracia local se achava com direito.
O professor de moral lá estava, vigilante, para manter as coisas em seu devido lugar, the right thing in the right place, que Deus assim o ordenava, isto é, punha perfidamente cada macaco em seu galho, que as misturas de classe não estavam de acordo com a tradição nem com a moral vigente.
A toda esta distância que os anos me foram dando, só posso dizer que essa caricata personalidade foi, durante cerca de quarenta anos, o maior deformador de almas e espíritos e mentalidades que me foi dado encontrar pela vida fora. Éramos crianças e, como dizia Guerra Junqueiro referindo-se à alma infantil: […] Tudo quanto ali se escreve / Cristaliza em seguida e não se apaga mais […].
Guardião mais que idóneo do regime salazarista, e seria com certeza esse o seu principal múnus, cumpria a sua missão de amanuense da moral e da civilidade com tal excesso de zelo, que, num ano letivo dos anos quarenta, foi suspenso da sua actividade pedagógica, durante um ano, por ter, numa aula formativa ou performativa, afirmado que o então Presidente da República, General Carmona, não era digno do alto cargo que ocupava - e não o era, mas não pelas razões que aduziu… As razões do guardião resumiam-se no facto de o então Presidente se ter casado com uma criada de servir da cidade de Chaves, em cujo Regimento era tenente!

i Grande professor de “moral” este! O texto não o diz, mas estou seguro de que tal personagem, alem de “professor” deve ser padre. Talvez mais padre e inquisidor-mor do que professor…
Comment by Lardozo — June 22, 2009 @ 12:46 pm
que me arranquem um dos dentes… padre bentes.
Comment by Anonymous — June 22, 2009 @ 2:53 pm
Interessante, Cristóvão. E interessante também o facto de essa “moral salazarenta” ser espalhada por padres pelo país inteiro. No Porto tive um professor de morar (mais vale não referir nomes…) que pregava as virtudes da Legião Portuguesa.
-Que faz a Legião?
- Prende, acho que prende bandidos…
- Não Sr Campos, a polícia prende, a Legião mata!
E isto vindo de um padre, caramba! Era assim que se faziam os tenentes Robertos ….
Comment by João Campos — June 22, 2009 @ 5:22 pm
Nem tudo é mau! O Pe Rebelo tinha uma característica “positiva”. Era tão ridículo que até nós miúdos dávamos imediatamente por isso, com o gozo que se seguia. Lembras-te das impagáveis imitações dele feitas pelo Salomé?
Comment by JVC — June 23, 2009 @ 1:00 pm
Lembro-me, sim senhor! O padre um dia, numa aula, pediu ao Salomé que o imitasse. O pobre do José Salomé resistiu, não queria, tinha receio de faltar ao respeito, mas, a insistências do professor de moral, civilidade e similares, o José Salomé (ainda meu primo)lá acedeu. Foi para o estrado, imitou-o, toda a turma se riu, mas, acabado o entremez, o senhor padre pô-lo na rua com falta disciplinar. E ainda dizes que ele tinha uma característica positiva… Tinha, tinha!
Comment by cristóvão de aguiar — June 23, 2009 @ 5:30 pm
Era também meu confessor, em tempos de jovenzinho cumpridor de deveres religiosos. A partir de certa idade minha, a sua curiosidade de confessionário sobre a minha lubricidade emergente era sôfrega…
Comment by JVC — June 25, 2009 @ 3:13 pm
Era um óptimo educador.Ensinava boas maneiras a quem as não tinha, aos mais humildes para deixarem os modos de carroceiros, como dizia. È grande a ingratidão humana
Comment by J Bosco — June 25, 2009 @ 6:10 pm
É de facto cobarde da parte do anónimo comentarista esconder-se por detrás de um nome que toda a gente conhece. Como carroceiro que continua sendo, não conseguiu aprender as tais boas maneiras ministradas nas aulas de civilidade. Dever ter sido um aluno muito, muito estúpido, pois o professor em causa repetia até ao vómito aquilo que não lhe entrou na cabeça dura. Valha-nos São João Bosco, patrono dos estudante, sobretudo dos cábulas…
Comment by cristóvão de aguiar — June 25, 2009 @ 7:36 pm
Ainda me hás-de explicar um dia por que motivo respondes a certos comentários.
Comment by LA-C — June 25, 2009 @ 7:40 pm
O Sr. Padre Rebelo era um pedagogo. Aproveitava as aulas de moral para ir passando as tais noções de civilidade que por vezes chegavam a ser lições de etiqueta. Á sua maneira democratizava a educação- Era, também um teólogo que adaptava a sua filosofia á juventude das halmas que conduzia. Daí a história do ovo e da galinha e da cana que ultrapassava a torre da Matriz para demonstrarem a existência de Deus. Foi precursor na luta anti-tabágica e anti-alcoólica( “conde lembra-te que és conde”)e denunciava a parte negativa do espectáculo de futebol. Paz á sua Halma (com H aspirado).
Comment by A.Raposo — June 26, 2009 @ 2:07 am
“Daí a história do ovo e da galinha e da cana que ultrapassava a torre da Matriz para demonstrarem a existência de Deus.”
Teologia bizarra, não? Seria uma com uma cruz na ponta a servir de para-raios, que (atraindo-os), faria crer aos alunos que havia sido fulminada por obra de Deus? Pouco pedagogico… Mas a componente anti-tabágica e anti-alcoólica parece-me bem. Talvez o erro venha de antes: porque motivo deve ser um padre a ensinar civilidade? Para quando uma disciplina de moral civica para substituir a “moral religiosa” imposta a uma sociedade multi-cultural? Sim, para quando?
Comment by Lardozo — June 26, 2009 @ 12:42 pm
Pois, JVC: estórias como essas, de o “confessor” querer saber pormenores da intimidade adolescente que a Deus nada interessam há-as aos centos! Fala-se é pouco disso em Portugal, talvez porque a Igreja ainda abafe muita coisa… Mas é pena que assim continue a ser.
Comment by João Campos — June 28, 2009 @ 12:13 am
Caros Cristovao, JVC, campos e outros que se queixam da qualidade dos nossos padres.
Portugal sempre foi um dos paises com piores politicos. Basta ser-se imigrante para perceber que os paises mais avancados elegem politicos melhores do que a corja Guterres / Socrates que nos governa e empobrece.
Agora em termos de padres, nao estou tao certo do que diz Cristovao. Toda a gente sabe de padres virados, filhos d. p. etc, especialmente no norte. Toda a gente conhece pelo menos um, e esse da Ilha deve ser um desses. Agora devemos dizer que em termos de padres, outros paises os fazem bem piores que Portugal. Veja-se o caso triste da Irlanda: dizem que sao avancados, etc, mas descobriu-se agora uma serie de casos de enrrabamento de miudos de 10 anos por padres em dezenas de escolas e igrejas! Ora comparados com estas bestas, os nossos padres sao todos santos e devemos ter orgulho neles. Eu que sempre detestei o f.d.p do padre da Se devo dizer que e um santo comparado com estes criminosos da Irlanda (uma casa-Pia toda de padres, uma vergonha que atinge a Irlanda de um lado ao outro)! Aqui levo os meus filhos a uma igreja polaca, para evitar contactos com essa corja. Obrigado!
Comment by Albano Duarte Albernaz (Belfast) — June 28, 2009 @ 1:21 pm
Confesso que nunca me tinha lembrado de fazer um ranking dos países com base na qualidade dos padres.
Comment by LA-C — June 28, 2009 @ 6:51 pm