No ano de quase todas as eleições é ainda mais comum discutir-se a qualidade dos nossos actuais e futuros governantes. Fala-se do actual e dos últimos primeiros-ministros de Portugal e ouve-se dizer: será que não se consegue arranjar melhor do que isto? A minha opinião sobre este tema continua a ser a mesma de sempre: cada povo tem os governantes que merece, por injusto que isso possa parecer.


Contra esta minha posição costumam ser apresentados dois argumentos. Na opinião de alguns, a política hoje em dia tem tão má fama que ninguém respeitável se lhe quer associar. Ou seja, dado o estado das coisas, na escolha dos políticos muitos dos nossos melhores auto-excluem-se, fazendo assim baixar a qualidade (se real esse desvio de talentos poderia ser muito proveitoso para a sociedade). De acordo com esta perspectiva, àqueles devemos ainda somar os inocentes trucidados pela maldade e falta de escrúpulos que visivelmente predominam na política, afastando assim os mais honestos da política. É verdade que estes comportamentos de auto-exclusão e exclusão existem, mas também é verdade que sempre existiram (por exemplo, Maquiavel mostrou a dificuldade de compatibilizar a moral cristã com a luta pelo poder e com a sua manutenção). Ou seja, esta explicação para os descontentes com a qualidade dos nossos governantes não colhe.

Noutra extremidade estão os que manifestam uma opinião oposta e defendem que os nossos governantes são os melhores de entre nós: precisamente por o combate político ser tão duro os que vencem são naturalmente e justamente os nossos líderes. Talvez estejam entre os defensores desta visão alguns portugueses muito respeitáveis a quem ouvi afirmações como: “Quem dera aos americanos terem um presidente como Jorge Sampaio” ou “Não faltam ao Governador do Banco de Portugal qualidades para ser o presidente do Banco Central Europeu”. Embora aquelas afirmações pequem por falta de verosimilhança é possível que aqueles portugueses tenham virtudes que nunca nos foram reveladas em público: afinal de contas a Europa não descobriu em Durão Barroso um líder que os portugueses nunca conseguiram adivinhar? Desta perspectiva retira-se que com tão bons líderes as dificuldades do nosso país teriam de estar mesmo no povo. Mas então como é que um povo (como direi) tão difícil poderia gerar tão excelsos líderes, mas que seriam ainda assim incapazes de governar adequadamente o povo de que são originários?

Perante as fragilidades destes dois argumentos sou obrigado a manter a minha posição: temos os governantes que merecemos ou, dito de outra forma, os governantes que a nossa sociedade consegue gerar.