Os ilhéus já não podem mais consentir o que em 1884 escre­veu sobre o nosso Povo Arruda Furtado, um naturalista e cien­tista micaelense radi­cado em Lisboa: “Estamos em face de um povo sem instru­ção, com os sentimentos mais grosseiros, ser­vindo nos seus quatro séculos de existência a uma completa exploração. Encontrando facilmente na cultura rotineira do solo os recursos de que carecem e uma emigração fácil no caso con­trário, nada os obriga a desenvolver a sua inteligência curta, e são, para o encobrir, excessivamente manhosos, condição que acusam no falar ronceiro, masti­gado, e respondendo sempre vagamente ao que se lhes pergunta. Sem dúvida, como por toda a parte, encontra-se inteligências notáveis nos nossos cavadores, mas é extremamente raro o camponês micaelense, e o camponês micaelense é es­sencialmente cabeçudo”.

Não sou político naquele sentido militante de que são exem­plos, dignos, ou indignos, muitos dos que nos governam ou se governam, que ainda acredito não ser o mesmo. É uma actividade que considero das mais nobres, quando exercida com o signifi­cado de intervenção na polis. Mas o facto de dizer que não sou político, estou já a sê-lo, na profundidade do eu.

Militante, sou-o, não como desejava, da escrita… E um escri­tor não pode nem sequer tem o direito de se alhear do mundo, sob pena de a sua escrita ser mentirosa. E nada pior para um escritor do que ser acusado de mentir ou de bajular na escrita. Não me refiro, obviamente, à mentira da ficção, que, pela sua plausibilidade, é ainda mais verdadeira do que a realidade, à qual vai o artista de qualquer quadrante retirar a maté­ria-prima de trabalho, transfigurando-a.