Reflexões sobre a Ilha onde nasci (2)
Os ilhéus já não podem mais consentir o que em 1884 escreveu sobre o nosso Povo Arruda Furtado, um naturalista e cientista micaelense radicado em Lisboa: “Estamos em face de um povo sem instrução, com os sentimentos mais grosseiros, servindo nos seus quatro séculos de existência a uma completa exploração. Encontrando facilmente na cultura rotineira do solo os recursos de que carecem e uma emigração fácil no caso contrário, nada os obriga a desenvolver a sua inteligência curta, e são, para o encobrir, excessivamente manhosos, condição que acusam no falar ronceiro, mastigado, e respondendo sempre vagamente ao que se lhes pergunta. Sem dúvida, como por toda a parte, encontra-se inteligências notáveis nos nossos cavadores, mas é extremamente raro o camponês micaelense, e o camponês micaelense é essencialmente cabeçudo”.
Não sou político naquele sentido militante de que são exemplos, dignos, ou indignos, muitos dos que nos governam ou se governam, que ainda acredito não ser o mesmo. É uma actividade que considero das mais nobres, quando exercida com o significado de intervenção na polis. Mas o facto de dizer que não sou político, estou já a sê-lo, na profundidade do eu.
Militante, sou-o, não como desejava, da escrita… E um escritor não pode nem sequer tem o direito de se alhear do mundo, sob pena de a sua escrita ser mentirosa. E nada pior para um escritor do que ser acusado de mentir ou de bajular na escrita. Não me refiro, obviamente, à mentira da ficção, que, pela sua plausibilidade, é ainda mais verdadeira do que a realidade, à qual vai o artista de qualquer quadrante retirar a matéria-prima de trabalho, transfigurando-a.

“Não me refiro, obviamente, à mentira da ficção, que, pela sua plausibilidade, é ainda mais verdadeira do que a realidade”
Exactamente o facto que muitos aqui ignoraram quando leram O Braço Tatuado num sentido literal. Que importa se o Tenente Castelar matou mesmo o tal “terrotista” no mato da G. Bissau? Pode mesmo ser que nunca tenha existido tal episodo, ou mesmo tal tenente. Mas o facto de que muitos outros, na G. Bissau, Angola etc, perpetraram tais crimes torna o Tenente Castelar o espelho de muitos personagens verdadeiros, de muitos factos acontecidos, logo mais real do que a simples realidade. Pena que certos “cabeçudos” não vejam isto, não?
Comment by Lardozo — June 15, 2009 @ 5:39 pm
Esqueci-me escrever no texto que o cientista micaelense Arruda Furtado mantinha correspondência regular com Charles Darwin, que o admirava e chegou a ir aos Açores, mais precisamente à Ilha Terceira em jornada científica.
Comment by cristóvão de aguiar — June 16, 2009 @ 12:48 am
“Exactamente o facto que muitos aqui ignoraram quando leram O Braço Tatuado num sentido literal.”
Lardoso, é um pouco mais grave. Se fosse apenas o que dizes, seria um caso de mera ignorância. Mas não, eles perceberam muito bem até porque sabem o que lá fizeram. Não é de ignorância que se trata. É mesmo de má fé e de desonestidade intelectual.
Comment by LA-C — June 16, 2009 @ 9:24 am
Concordo, Luis.
Comment by Lardozo — June 16, 2009 @ 11:29 am
emuito mais…
Comment by Anonymous — June 16, 2009 @ 8:00 pm
Mais uma óptima charla. Parabéns.
Comment by Anonymous — June 17, 2009 @ 11:04 pm