São Miguel já não é a mesma Ilha onde fui nado e criado e vivi até à arrogância dos vinte anos. Pude verificá-lo, há pouco, durante o 4.º Encontro Açoriano da Lusofonia, em que, para regozijo meu, não encontrei os costumeiros intelectuais de paco­tilha, que sabem tudo quanto no Universo se passa, com retrato de pose na galeria dos imortais há muito mumificados…


Na fase etária dos vinte, como dizia, o Mundo é comandado pela atrevida ingenuidade e força anímica de ser jovem sem o espetro da morte. Nem é sequer a mesma Ilha que foi, até há poucos anos, muito nublada, já não digo por um nevoeiro absoluto, mas por alguns resquícios aparentados a certas pesporrências de má memó­ria. O Poder foi demorado e alicerçou-se em argúcias e pezinhos de lã, que produzem falsas e hipócritas virtudes que o Povo vai engolindo de olhos fechados e com um estalido de prazer no céu estrelado da boca. Natu­ral. Como dizia Brecht, o que acontece sempre não é natural… Temos, porém, de convir que, durante séculos, certas forças religiosas, conluiadas com todos os poderes que se foram sucedendo no tempo e no espaço, foram o sustentáculo da ignorância abençoada pela trilogia Deus, Pátria e Rei de outros tempos, e Deus, Pátria e Família, do tempo de muitos de nós. Direi como Mestre Gil Vicente: E assim se fazem as cousas… E muito bem-feitas, reconheça-se. Concebidas geo­metricamente até à minúcia da perfídia, para que nada fosse descurado. E o Povo das Ilhas, sobre­tudo o micaelense, foi, na sua boa-fé, consentindo e conformando-se e habi­tuando-se a que fora da barca de um messianismo conivente e construído não poderia haver salva­ção possível… Como a barca da Igreja! Salva­ção neste mundo, porque, no outro, prometiam-lhe mundos e fun­dos, sem sequer necessitar de pagar seis vinténs furados.

Mas basta, por vezes, um im­ponde­rável pó de lucidez para que, de um instante para o outro, tudo se desmorone e se desnude na sua fétida fealdade. Levou tempo, mas o inevitável aconte­ceu. Acaba sempre. O medo e outras rançosas virtudes impostos ao espírito e nele lavrados em sulcos mais ou menos profundos (nem toda a terra consente a ignomínia), com relhas enferrujadas e passadistas, tem destes percalços – no ápice de um instante imprevisto esse terreno enfastiado de tanta ari­dez femen­tida e coerciva, súbito se de­volve à sua límpida condição de húmus que favorece  a estrutura do solo e do subsolo e do infra subsolo: o consciente, o subconsciente e o inconsciente… Além disso, esse húmus devolvido à sua dignidade, retém as águas do terreno que poderão ser a metáfora de uma cultura renovada e de uma men­talidade nova, sobre as quais se poderá então iniciar uma lavoura de ideias sãs, livres, não sujeitas aos falsificados fertilizantes de forjadores de velhas morais cediças.

Sublinho a traço vermelho grosso, bem gritante e visível: poderá esse labor, e sobre­tudo deverá, por um imperativo cate­górico, iniciar-se, paulatinamente, com muita paciência, mas com firmeza: nesta matéria, um passo em falso ou a pressa em dá-lo por espavento ou vanglória fácil, poderão fazer ruir ou minar todo o alicerce principiado.