A Internet tem sido ao longo destes últimos anos um local infeto no tocante a certa publicidade enganosa, a alarmismos infundados, a ameaças de quebrar correntes de solidariedade lamecha, e muito outro lixo do mesmo jaez. Apenas um exemplo: a Coca-Cola seria de uma malignidade tamanha, que se pusesse um pedaço de carne, num copo cheio dessa água suja do imperialismo, o bife desfazer-se-ia enquanto o dialho esfregava um olho e coçava o cu pelado de muito inferno sofrido…
Na minha inocência, fiz o ensaio (sempre fui experimentadeiro) e cheguei à magna conclusão científica de que tanto o líquido castanho como a carne já cozinhada haviam ficado incólumes, apenas com uma certa simbiose no paladar, o que lhe dava um toque picante não-colonialista… Outros exemplos se poderiam aduzir, mormente no reino da saúde, com um rol de milagres causados por uma alimentação sadia, com chás e rezas à mistura, milagres que fariam inveja a qualquer candidato a uma vaga na santidade, que, como os empregos, anda pelo calvário da carestia… O Nuno Álvares Pereira lá conseguiu passar o limiar do desemprego, após uma entrevista com uma senhora que tinha escaldado um olho com azeite Condestável, passe a publicidade… A Lúcia anda agora a perfilar-se. Já consta que, apesar da crise, tem havido uns sintomas de milagre em algumas crentes que irão ser interrogadas pelo advogado do diabo no tribunal eclesiástico. Mas, como a justiça tem sido uma lesma de velocidade, é natural que a canonização se vá protelando até que o processo seja arquivado pela demora que mora nas secretarias…

Um destes dias, e a respeito do Novo Acordo Ortográfico, recebi um texto protestativo, igual ao que o CDS vai entregar na Assembleia para que o Lopes Mota seja interrogado em sede de comissão sobre um caso muito badalado ou baladado, que canta neste tom abemolado:

De fato, este meu ato refere-se à não aceitação deste pato com vista a assassinar a Língua Portuguesa.
Por isso… por não aceitar este pato… também não vou aceitar ir a esse almoço para comer um arroz de pato …
A esta ora está úmido lá fora… por isso, de fato lá terei de vestir um fato…

E a seguir este pedido:

Concordas com o modo de escrever acima exemplificado?
Se não concordares, clica na imagem que se segue e assina.

Como se lê e sente, trata-se de mais um prodígio da tão portuguesa imaginação criadora, sempre pronta para a anedota, nem sempre com pilhéria, que se compraz nesta e noutras trivialidades para entreter o pagode e fazer com que ele pense o menos possível. Não critico quem é contra o Acordo. Cada qual tem direito a ter a sua opinião, mas, aldemenos, que a baseie numa determinada solidez linguística.

De facto, este meu ato refere-se à não-aceitação deste pacto com vista a assassinar a Língua Portuguesa. Por isso, e por não aceitar este pacto, também não vou aceitar ir a esse almoço para comer um arroz de pato…
A esta hora está húmido lá fora. Por isso, de facto, lá terei de vestir um fato…  

Tanto barulho para nada (que me perdoe Shakespeare, que não tem culpa de tantas burridades)! Afinal de contas, onde estão os assassinatos? Garanto-vo-lo que, sempre que a vogal muda é articucada, não cai. Para quê escrever eléctrico com c e um acento aguda, se o c serve para abrir a vogal anterior? Os patos que comem o arroz dos ditos é que são de facto patos e não precisam de vestir fatos: podem ir com os miolos nus ou vesti-los com cuecas…

A ignorância e a arrogância são de facto o que diz o provérbio. E com elas não se deve pactuar ou compactuar! Antes de escrever asneiras piadéticas, seria melhor adquirir informação e estudar os assuntos. Mas não queremos continuar a pertencer ao país da anedota…