Reflexões sobre o acordo ortográfico (conclusão)
O meu “conflito” inicial com o novo acordo ortográfico devia-se tão-só a uma mera estranheza afetiva. Estava longe de trajar-me de mosqueteiro e terçar armas pelo sim ou pelo não. Ao princípio, ver grafado ótimo sem p; ação sem c, veem sem circunflexo no primeiro e; para (sem acento agudo, terceira pessoa de parar e também preposição); pelo sem circunflexo para designar cabelo, pode confundir-se, mas também temos molho, que significa duas coisas: (môlho e mólho), tendo o plural duas pronúncias môlhos, da culinária, e mólhos, feixes de lenha; espetáculo, e algumas outras palavras do mesmo jaez, como seleção das quinas, arquiteto, teto da casa, atual situação do protecionismo estatal, etc., deixam-nos, ao princípio, um pouco perplexos, e a nossa reação traduz-se numa quase orfandade consonântica, que passa com um luto bem feito. No entanto, quando a consoante muda se articula, como em faccioso, ficcional, perfeccionista, bactéria, ela mantém-se no seu posto.
Sejamos otimistas, o otimismo é salutar, nada está perdido! Outras palavras podem ser baralhantes como o caso de Egito e Egípcio. Basta, porém, recordar a regra de ouro! Assim como adotar e adaptar, optar e opção. Por vezes não temos de adotar padrões europeus, mas, sim, adaptá-los à nossa realidade. Optar por ler um livro de um autor clássico constitui sempre uma boa opção. Os meses do ano passam a ser escritos com minúsculas: janeiro, fevereiro, etc. segunda-feira, terça-feira, etc., sábado e domingo, por analogia com os dias da semana, que já se grafavam com letra pequena…
Lembro-me, como muita outra gente, do grande alarido que fez esganiçar uma parte bem-pensante do País, aquando da construção do Centro Cultural de Belém. Eu também me incluí nas hostes do contra. O respectivo edifício, que lembrava arquitectura árabe (logo, infiel), iria desfear o Mosteiro dos Jerónimos, violentar o ambiente, e mais outras razões que se desejavam ponderáveis, mas que vieram a tornar-se imponderadas. Poucos anos depois, ninguém mais falou contra o CCB. E agora até se afirma que está bem enquadrado no local onde, mais côvado menos côvado, o Velho do Restelo, pela pena de Luís de Camões, tomou o partido contra os Descobrimentos…
O mesmo acontece quanto ao Acordo Ortográfico, a ser posto em prática não se sabe bem quando. Daqui a meia dúzia de anos, ninguém pronunciará uma só sílaba contra o que é ainda, para alguns intelectuais, o tão malfadado Acordo. As crianças de hoje, ao atingirem a idade adulta, rir-se-ão dos seus antepassados, como muitos se riram ao ver grafado, em livros antigos, pharmacia, photographo, etc. Não, não vou nem quero fazer ecoar a voz do Velho do Restelo. A Língua Portuguesa sempre teve acordos ortográficos, e não lhe caíram os parentes na lama por causa dessas inovações, embora, em cada desses momentos, houvesse detractores que quase se batiam em duelo com os linguistas e os gramáticos do tempo…
A propósito de duelos, vou transcrever alguns passos de um texto de Eça de Queirós, extraídos dos Echos de Paris (Ecos de Paris, menos complicado), livro póstumo, publicado em 1924, e transcrito pelo filho segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1911. Vou, a seguir, transcrevê-lo conforme o de 1945 e também segundo o atual:
[…] Os duellos succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo que o sol, o velho e dourado Phebo, avista ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras essenciaes de outro francez.
[…] Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d’onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um mólho de espadões debaixo do paletot […].
Entre o texto segundo o Acordo de 45 e o de 1990, há apenas um c a mais!
[…] Os duelos sucedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectáculo (espetáculo, para grafar à Acordo de 1990) que o sol, o velho e dourado Febo, avista, ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francês em mangas de camisa e de florete na mão, à beira de um arroio ou nas ervas de um prado, procurando varar as vísceras essenciais de outro francês. […] Não pode agora um honesto melro gorjear as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper a velha caleche de onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões debaixo do paletó […].
Segundo o pouco ambicioso acordo ortográfico de 1973, os advérbios terminados em mente e as palavras com sufixo inho, deixaram de ser acentuados com acento grave. Antes daquela data, escrevia-se necessàriamente, sòzinho, espontâneamente, Zèzinho etc., passando a escrever-se necessariamente, sozinho, espontaneamente, Zezinho, etc., que continua a manter-se no Novo Acordo. Será que quem nasceu depois de 1973 necessita da gravidade oblíqua desse acento? Mesmo aqueles que já eram homens feitos se habituaram. Uma questão de hábito que, como se sabe, é uma segunda natureza…
Eis o bicho-de-sete-cabeças! Afinal, um tigre de papelão. Os leitores coetâneos do primeiro texto com certeza se sentiram “agredidos” com as alterações do alterações introduzidas após 1911. Teriam razão? E os atuais leitores e escreventes? Acham, porventura, que, apenas com um c a mais ou a menos, será o bastante para tanto cacarejo? Não será tudo isto uma questão de lana-caprina? Um tempestade num copo-de-água?

Ótimo artigo. Apenas um leve apontamento: Se o português se “re-galeguizasse” (relegalizado já está), determinadas colusões desapareceriam. Por exemplo, entre “te(c)to” e “teto”… Na Galiza há gente que ainda diz “teito” vs. “teto”. Tabém se evitariam castelhanismos desnecessãrios. Por exemplo, “trecho”. Na Galiza preferimos “treito”. Enfim…
Grato por ler o seu artigo: António Gil (AGIL)
Comment by AGIL — May 11, 2009 @ 1:23 pm
O açórico Carlos Reis fez um bom trabalho…
Deu a volta a Cristóvão de Aguiar.
Comment by anónimo — May 11, 2009 @ 2:49 pm
Boa! Parece-me que o que C.A. diz faz todo o sentido, contra os Velhos do Restelo!
Comment by Lardozo — May 11, 2009 @ 4:34 pm
De novo o anónimo, que não é anónimo,a escrever disparates. Que tem o Carlos Reis a ver com tudo isto, molusco lapa?
Comment by cristóvão de aguiar — May 11, 2009 @ 8:40 pm
Caro António Gil,
Estou de acordo. O Galaico-português tiraria muitas teimas. Na Ilha de S. Miguel, diz-se “feito” para feto (planta, para se distinguir de feto, bebé antes de nascer. No Alentejo diz-se fêto para a planta. As raízes da nossa Língua vão bastante longe.
Comment by cristóvão de aguiar — May 11, 2009 @ 8:46 pm
Braga é a Lisboa do Norte e o «Portocentrismo» é um bode expiatório
http://norteamos.blogspot.com/2009/05/braga-e-lisboa-do-norte-e-o.html
Comment by José Silva — May 12, 2009 @ 10:02 am
Outro comment despropositado, fazendo lembrar Carlos Santos nos seus piores tempos. Talvez seja tradicional no Porto ou Braga, visto que C. Santos e J. Silva são anbos oriundos, provenientes, desta região.
Comment by Lardozo — May 13, 2009 @ 5:54 pm
Oh Lardoso, você nem piou no primeiro de maio que também é vermelho. O respeitinho fica-lhe muito bem.
Comment by Anonymous — May 14, 2009 @ 12:23 am
enésimo
Comment by Anonymous — May 14, 2009 @ 12:36 am
Somos uns tristes. Não soubemos colonizar. Abandonámos as colónias, mal, tarde e a más horas.Agora somos colonizados pelas ex-colónias naquilo que de mais genuino tínhamos: a língua! Quanto a renegados , infelizmente sempre os tivemos ao longo da nossa História.Estamos conversados.
Comment by Garcia — May 15, 2009 @ 4:44 pm
Somos uns tristes. Não soubemos colonizar. Abandonámos as colónias, mal, tarde e a más horas.Agora somos colonizados pelas ex-colónias naquilo que de mais genuino tínhamos: a língua! Quanto a renegados , infelizmente sempre os tivemos ao longo da nossa História.Estamos conversados.
Comment by Garcia — May 15, 2009 @ 4:45 pm