Quando me ponho a pensar no mérito ou demérito destas charlas sobre a Língua Portuguesa, chego pelo menos a duas conclusões dis­tintas, con­soante os dias, isto é, conforme o humor (catadura, ourela, como se diz na Ilha: acordou de má ourela!) com que o sol me nasce: umas vezes julgo que estou a prestar um serviço útil à Humani­dade (não o faço por menos…), outras, arrenego das patacoadas que me não canso de escrevi­nhar.
A língua, qual­quer que ela seja, e as enfadonhas regras que a regem e tantas vezes a obscu­recem, são, no fim e ao cabo, um sistema tão frágil e tão conven­cional, que se esboroa à primeira brisa de uma atua­lização ou acordo ortográfico que entre em vigor. E adeus suor e lágri­mas com que se aprendeu uma palavra com esta ou aquela orto­grafia, óptimo, por exemplo (bom, melhor óptimo, como rezava a cantilena, sempre que o mestre-escola perguntava os graus dos adjetivos, agora sem o c), e a súbitas vêm uns senhores gramáti­cos, linguistas ou filólogos que sobem ao púl­pito da aca­demia e antes de atacar, pigarreiam, para aclarar a voz, e sermo­neiam para a assistência de fiéis que não somos nós: “Se o p ou o c, se não pronunciam, para quê mantê-los na palavra? Não seria mais curial escrever ótimo, reação, receção, ator, atriz, e outras pala­vras a que se não empresta voz à con­soante muda da traseira? A reação e os respetivos reacionários perderam o c, e hão de per­der mais, como o hífen de (hão-de, há-de), e o circun­flexo de vêem (veem); a ereção da manhã e a ação de graças; a descon­tração muscular e a contração do desem­prego; a fação partidária a que aderiram e a sua posterior defe­ção, não defeca­ção… Per­dem bastante, mas o pior será perderem a diretriz do aconteci­mento… No entanto, os alarmismos sobre a gripe suína, perdão, mexicana, melhor, do tipo A, vêm aí a cami­nho, e os cães que têm sarna ladram por pura reação ao alarido na capoeira (ver, conter, ter e seus derivados, mantêm o circun­flexo… Se por acaso a tal consoante traseira é sonora, então, que se escreva e pronuncie: facto, impacto, artefacto, hectómetro… Têm razão. Toda. Dou-lha toda e mais alguma que me sobre! O actual acordo, agora atual, isto é, o de mil novecentos e noventa (estarei equivocado?), já entrou em actividade, isto é, está no ativo no Brasil, tendo sido comummente aceite, o que está cor­reto (a con­soante dobrada persiste nas ortografias lusófonas). O nosso país, mais relapso a qualquer mudança, seja ela ortográ­fica, política, religiosa ou social (aqui fica bem um etc., dá sem­pre jeito…) – continua um velho respeitável transbordante de sabedura (tornou-se um grande acionista da bolsa de valores imutáveis), mas a lentura do seu passo faz com que Sócrates ganhe corridas ao fim de semana (agora sem hífenes) … Hei de voltar. Com outros hífe­nes e demais apêndices!