Bico-de-obra diacrítico (conclusão)
Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográfico, também ele em letárgico stand-by…
- Queres saber uma coisa, Firmino?
- Diz lá, Benedita…
- Parece-me que senti outra vez uma pancada nas entranhas, e esta foi rija; deve ser o nosso filho dando o seu toque-toque à porta do mundo!
- Deixa-me cá pôr a mão sobre a barriga… Parece um odre cheio, salvo-seja, que não és nenhuma pipa… Quantas luas faltam? Pouco menos de um mês? Ainda é cedo, mas é preciso não descuidar… O saco das águas não vai ainda rebentar… Não senti o pimpolho a espernear; deve-se ter recolhido para ninar; para outra vez será, há mais marés que marinheiros…
- Estás contente, meu marido?
- Ora se estou; parece um milagre; se não fosse aquele doutor da cidade, um judeu alemão fugido da grande guerra, ainda andávamos na tal mulher-de-virtude, gastando rios de dinheiro e a gastar-nos a correr Ceca e Meca e olivais de Santarém. E tu a beberes chás de erva-benta e de outras de igual santidade, que te puseram escanzelada, fraca das canetas e com a amarelidão da morte na cara…
- Lembro-me como se fosse hoje, Firmino. Mal entrei no consultório, mandou-me deitar na marquesa… Senti uma vermelhidão na cara com vergonha de estar ali de perna aberta e ele a meter os dedos… a apalpar-me a barriga… Quando depois encarei contigo, até me senti culpada de um pecado que não cometi…
- Cá nada. Os doutores são como as mulheres honestas: não têm olhos nem ouvidos e são bem-educados e bem-intencionados…
- Isso é o que pensas, Firmino. Ele há de todas as qualidades, como em tudo neste mundo; alguns são sacos-rotos: despejam os segredos das doentes com outros do mesmo ofício, e riem-se à gargalhada – uns sem-vergonha na cara; outros, como o judeu que me operou à trompa esquerda, são o que tu disseste, e mais ainda: são bem-fazentes e muito bem-criados.
- E a respeito do nome, meu homem? Já pensaste nalgum?
- Pensar, pensei. Em dois, para te falar a verdade. É que a gente não sabe se é macho ou fêmea aquele ou aquela que, mais semana menos semana, nos vem encher as meninas-dos-olhos! E tu, já…
- Já, Firmino. E pensei num só nome. Vai servir para ambos, e é este que vai ficar, e eu tenho a certeza de que vais ficar do meu lado…
- Um nome que serve para rapaz e rapariga?! Essa é boa, Benedita. Não te sabia tão entendida nessas sabedorias! Mas, vê lá o que foste engenhocar: se for rapaz, como tem de ser, não quero que ele tenha um chamadouro assim, como hei-de dizer, assim meio azabelado… Estás-me a entender, não estás, Benedita?
- Entendo-te muito bem, Firmino! Já te vi o rabo muitas vezes e já durmo contigo há anos sem-fim… Não te amofines, que o nome serve para ambos como luva de pelica…
- Então, desembucha, minha mulher, que estou em pulgas!
- Olha, marido, o caso é simples como o mistério da Santíssima Trindade. Se for rapaz, será Benvindo; se for rapariga, Benvinda. Benvinda Maria…
- Não desgosto, não senhora. E por que te foste lembrar destes nomes?
- Ambos, quer seja rapaz quer seja rapariga, serão muito bem-vindos à nossa casa, e hão-de acogulá-la de alegria…
- Tens-me aqui ao teu lado, minha maçã bravo-de-esmolfo, uma das mais perfumadas que conheço! Dá-me cá esta alma enrolada no teu corpo para te dar um aperto dos meus, que sempre foste o meu ai-jesus!

Boa charla, e excelente conclusão do conjunto iniciado semanas a esta parte! Pena que os jornais de hoje-em-dia não publiquem colunas com retalhos desta monta, como no passado soia.
PS: Fui ao Continente comprar maçãs bravo-de-esmolfo, mas sem sucesso. Disseram-me que tinham “muitos outros produtos espanhois, mas que esse não”. Falta a leitura de charlas como esta, não apenas para aprender a lingua, mas tambem a cultura de um povo!
Comment by Lardozo — April 24, 2009 @ 11:02 am
Cá está o que considero, sem bajulices, um final de mestre. Confesso que tinha já urdido um final para a história no caso desse repto ser lançado. Também no “meu” final a Benedita engravidava mas através do hífen do sacristão-marreca, que ainda não tinha aparecido,enquanto o hífen do marido o ligava à bruxa, mulher sem pretensões a fertilidade mas ainda com apetites carnais. Mas para descrever tudo isto faltar-me-ia a mestria(sem bajulice) da escrita de CA.
Comment by Anónimo — April 24, 2009 @ 11:21 am
Bravo-de-esmolfo de certeza? Porque me lembro de, num programa televisivo, ter ouvido alguém dizer confiantemente que o nome das maçãs provém da localidade onde a variedade primeiro apareceu, no caso Esmoufe.
Comment by JMG — April 24, 2009 @ 6:35 pm
Boa, Cristóvão! Andava a ver como é que ias arranjar maneira de rematar esta trama. Mais uma vez não desiludiste e o final condiz com as restantes e excelentes charlas!
Essa do Esmofo, de facto não sei: por ventura Esmofo fica em Portugal? E porquê bravo? Mas é uma questão menor, pá! Vale a obra, valem as charlas!
Comment by João Campos — April 24, 2009 @ 6:57 pm
quanto à origem da maçã, pode-se ver aqui: http://www.netsigma.pt/drabi/info_divulg/agro_florestal/p_q_bi/maca_b_esmolfe.asp
Comment by LA-C — April 24, 2009 @ 8:42 pm
Very nice, I enjoyed reading this story. Looking forward to others.
Comment by matilde — April 29, 2009 @ 6:57 pm