O Carlos Santos comentou no seu blogue o artigo que aqui (e no Jornal de Negócios) publiquei, em co-autoria com o Pedro Bação, sobre o ensino da economia e a crise económica. No seu texto, o Carlos rejeita os princípios da economia neoclássica, acusa os seus seguidores de estarem ao serviço de uma agenda política e aconselha mais ética no lugar daqueles princípios.  

É verdade que os princípios da economia neoclássica não explicam tudo. Por exemplo, a Síntese Neoclássica criada por vários ilustres keynesianos (Hicks, Modigliani, Samuelson) foi uma simplificação das ideias originais de Keynes. No entanto, a gestão da procura agregada que dela resultou parece ter contribuído para um período de extraordinária prosperidade. Da mesma forma, esquecer, com a actual crise, o contributo da ciência económica para a prosperidade que o mundo conheceu nas últimas décadas também me parece ousado da parte dos críticos com que o Carlos parece estar alinhado.

O contributo da ciência económica e dos seus protagonistas para aquela prosperidade terá sido exagerado pelos comentadores e alguns economistas (por exemplo, no fim da extraordinária era Clinton, Alan Greenspan era incensado como o Maestro). Mas, também hoje, as críticas em relação à responsabilidade dos economistas na actual crise são exageradas e resultam, em grande medida, das expectativas exageradas da sociedade, dos políticos e da comunicação social em relação à ciência económica (e também da ignorância, às vezes confrangedora, de muitos comentadores, entre eles alguns economistas).

Embora o funcionamento do mercado de capitais ou do mercado de trabalho não deva reduzir-se aos modelos simples neoclássicos, parece-me útil compreender os seus princípios para depois os podermos criticar. É isso que os críticos do actual paradigma, que eu aprecio, fazem. Ver, por exemplo, o último livro de Robert Shiller, em co-autoria com o Nobel George Akerlof, Animal Spirits.

Em relação à agenda do neoliberalismo, apesar de muitas vezes referida por intelectuais e outros pensadores portugueses, confesso que não a conheço.

Concordo com a utilidade (termo económico) de incluir cadeiras de ética nos cursos de economia e gestão. Mas o Carlos não acha que a inclusão daquelas matérias numa fase mais precoce da formação seria mais eficaz (termo económico)? Isto é, não valerá a pena, no lugar de estarmos apenas focados nos cursos de economia, averiguarmos a responsabilidade do fim das cadeiras de religião e moral (ou do facto de estas terem passado a opcionais) na actual crise económica?