Economia e ética (e religião e moral?)
O Carlos Santos comentou no seu blogue o artigo que aqui (e no Jornal de Negócios) publiquei, em co-autoria com o Pedro Bação, sobre o ensino da economia e a crise económica. No seu texto, o Carlos rejeita os princípios da economia neoclássica, acusa os seus seguidores de estarem ao serviço de uma agenda política e aconselha mais ética no lugar daqueles princípios.
É verdade que os princípios da economia neoclássica não explicam tudo. Por exemplo, a Síntese Neoclássica criada por vários ilustres keynesianos (Hicks, Modigliani, Samuelson) foi uma simplificação das ideias originais de Keynes. No entanto, a gestão da procura agregada que dela resultou parece ter contribuído para um período de extraordinária prosperidade. Da mesma forma, esquecer, com a actual crise, o contributo da ciência económica para a prosperidade que o mundo conheceu nas últimas décadas também me parece ousado da parte dos críticos com que o Carlos parece estar alinhado.
O contributo da ciência económica e dos seus protagonistas para aquela prosperidade terá sido exagerado pelos comentadores e alguns economistas (por exemplo, no fim da extraordinária era Clinton, Alan Greenspan era incensado como o Maestro). Mas, também hoje, as críticas em relação à responsabilidade dos economistas na actual crise são exageradas e resultam, em grande medida, das expectativas exageradas da sociedade, dos políticos e da comunicação social em relação à ciência económica (e também da ignorância, às vezes confrangedora, de muitos comentadores, entre eles alguns economistas).
Embora o funcionamento do mercado de capitais ou do mercado de trabalho não deva reduzir-se aos modelos simples neoclássicos, parece-me útil compreender os seus princípios para depois os podermos criticar. É isso que os críticos do actual paradigma, que eu aprecio, fazem. Ver, por exemplo, o último livro de Robert Shiller, em co-autoria com o Nobel George Akerlof, Animal Spirits.
Em relação à agenda do neoliberalismo, apesar de muitas vezes referida por intelectuais e outros pensadores portugueses, confesso que não a conheço.
Concordo com a utilidade (termo económico) de incluir cadeiras de ética nos cursos de economia e gestão. Mas o Carlos não acha que a inclusão daquelas matérias numa fase mais precoce da formação seria mais eficaz (termo económico)? Isto é, não valerá a pena, no lugar de estarmos apenas focados nos cursos de economia, averiguarmos a responsabilidade do fim das cadeiras de religião e moral (ou do facto de estas terem passado a opcionais) na actual crise económica?

“não valerá a pena, no lugar de estarmos apenas focados nos cursos de economia, averiguarmos a responsabilidade do fim das cadeiras de religião e moral (…) na actual crise económica?”
Parece-me que não há base empírica que sustente a ideia de que o fim das disciplinas de Religião e Moral seja uma das causas da actual crise económica. Na verdade, quer os banqueiros que estão presos, quer a classe que dirige os bancos, são pessoas acima dos 40 anos, ou seja são de uma altura em que ainda se ensinava Religião e Moral nas Escolas.
Comment by LA-C — April 21, 2009 @ 1:39 pm
Luís,
e se no contrafactual controlasses para o efeito de ter conviver com crianças que ainda não foram contaminadas pela ganância e avareza presentes nos princípios da economia neoclássica e que poderiam servir de exemplo aos pais?
Comment by Falex — April 21, 2009 @ 2:14 pm
A verdade é que agora, nas escolas, ensinam aos miúdos que se deve reciclar o lixo e não fumar. Os putos depois vão para casa ensinar aos pais como é importante fazer a reciclagem…
Talvez tenhas razão, devia-se explicar aos putos que os pais não devem ser tão gananciosos.
Comment by LA-C — April 21, 2009 @ 2:18 pm
E a verdade é que muitos estudos mostram que o background social é o principal determinante dos resultados escolares. Estou desanimado. Talvez o Carlos tenha uma solução para um mundo melhor.
Comment by Falex — April 21, 2009 @ 2:22 pm
Não é motivo para ficares desolado, pelo contrário.
Quanto ao background social…, deves estar enganado. Se isso fosse verdade, o ranking das escolas secundárias, que é feito todos os anos com base nos exames dos alunos, seria, de facto, um ranking dos melhores bairros do país. Recuso-me a acreditar que esses rankings sejam uma completa mistificação.
Comment by LA-C — April 21, 2009 @ 2:30 pm
Na prática, o sucesso escolar e também o percurso profissional é em grande parte influenciado pelo background social e/ou nível de escolaridade dos pais. Felizmente, há excepções, mas os estudos empíricos demonstram essa realidade.
Podemos facilmente constatar através deste simples exercício, onde se encontram a trabalhar os filhos dos sócios das grandes sociedades de advogados em Portugal e onde estudaram? Onde estudaram os filhos dos gestores das empresas portuguesas? Onde estudaram e trabalham os filhos dos políticos?
Para o bem e para o mal, os pais influenciam (“educação, classe social, bairro”) a vida dos filhos.
Comment by zideco — April 21, 2009 @ 4:34 pm
Zideco, nesse caso, e seguindo o seu raciocínio segundo o qual são os pais que influenciam os filhos e não o contrário, concorda que não foi o fim da disciplina de Religião e Moral uma das causas da crise que atravessamos. Ou seja, concorda comigo e não com o Fernando
Comment by LA-C — April 21, 2009 @ 4:37 pm
Concordo com o Luís, penso que não há uma relação directa entre o fim do ensino de Religião e Moral nas escolas com o teor desta crise. Como disse e bem, uma grande parte das pessoas que estão nos locais de decisão, tiveram Religião e Moral nos seus currículos académicos, outros ainda fazem parte de associações e/ou organizações com práticas diárias religiosas (“ir a missa todos os santos dias”), e no entanto a ética não é a característica que mais salta á vista quando pensamos nestas ilustres personalidades, falo-vos de alguns dos gestores do Board do BCP e BPN.
Comment by zideco — April 21, 2009 @ 5:11 pm
Luís, a minha questão é meramente académica e procura explorar os pressupostos enunciados pelo Carlos no seu texto/comentário ao ensino da economia e a sua relação com a crise económica. Eu e o Pedro aceitamos os limites da educação no condicionamento da conduta humana.
Comment by Falex — April 21, 2009 @ 5:28 pm
Fernando,
Confundir ética e responsabilidade social, com tentativa de impor o ensino de religião e moral, sabe bem que não é permissa do meu texto. Mas isso é um promenor. O âmago das minhas críticas à proposta lectiva neoclássica tem a ver com outros aspectos, que procurei clarificar em novo texto que lhe deixo como proposta de debate, para quando o tempo de permitir, me contrariar. Eu continuo a advogar que a defesa que faz da economia neoclássica em pressupostos que numa óptica de Lakatos, não estão no seu core.
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/04/keynes-regulacao-e-etica-o-novo-papel.html
Um abraço,
Carlos
Comment by Carlos Santos — April 21, 2009 @ 5:59 pm
Religião e Moral no meu tempo era para visitas de estudo, cantar umas canções se tivéssemos sorte com o professor, e a partir de março faltar para ir jogar à bola.
Eu cá tive uma licenciatura sem as éticas e essas coisas todas bonitas que evitam crises, e nunca me passou pela cabeça ser desonesto. Principalmente por medo que a minha mão descobrisse.
Comment by Kordny — April 22, 2009 @ 12:52 am
Só para dizer que concordo plenamente com o Luís, quando lembra que os ladrões do BPN tiveram todos aulas de moral na escola. Não nos esquçamos que os empresários do tempo do fascismo, que exploraram trabalhadores em Portugal e exploraram mais ainda em África durante décadas tiveram todos lições de moral. Os pides, os esbirros do regime também! Ora se o moral não põs cobro a décadas de ladroagem, tortura e assassínio, é ingénuo esperar que nele esteja a chave para acabar com a crise, Falex. Mais, pá, um amigo italiano contava-me que na Sicília, a padralhada ainda domina o ensino, e o resultado está à vista desarmada…
Carlos: essa interpretação do Lakatos está bem vista, pá! Esta contrvérsia dos clássicos, neo-clássicos, novo-clássicos e quejandos é mais interessante do que julgavs antes de ler a Destreza!
Comment by João Campos — April 22, 2009 @ 1:30 am
Caro Kordny e car João Campos,
Eu reitero que essa da religião e moral não é minha. Eu falei em ética empresarial e responsabilidade social das empresas. Mas como digno no post nem é isso o fundamental. Eu não acho que o mal da economia neoclássica seja ter provocado e crise. Acho é que o texto primeiro que o Fernando produziu e o do Nuno Garoupa sustentam uma boa tese contra a economia neoclássica: porque implicitamente eles estão a admitir a relevância dos evolucionistas e dos institucionalistas.
Agora o pessoal de Wall Street na maior parte dos casos nem é economista.
Carlos
Comment by Carlos Santos — April 22, 2009 @ 3:15 am
O Korndy tocou no ponto: ele disse que se lembrava da mãe; talvez seja a consciência ou o grilo do pinóquio. é fundamnetal manter essa campainha activa, na actual crise ela desactivou-se (Robert Shiller e Akerlof atribuem à corrupção um papel em todas as crises financeira). As cadeiras de ética ou de humanidades em geral são muito importantes e já aparecem em quase todos os curricula há muito tempo. Mas não são elas que vão acabar com a ganância. Nem que comecem a ser leccionadas na primária. A escola não tem o poder que, sobretudo os professores, gostam de lhe atribuir.
Comment by Falex — April 22, 2009 @ 1:45 pm
João Campos, deve ter saltado algum passo do meu texto porque o que eu quero com ele dizer é que não me parece que haja muitos ganhos (marginais) em introduzir mais disciplinas de ética ou moral (termos que têm a mesma raiz). Os cursos de economia, na sua generalidade, são já bastante interdisciplinares.
Comment by Falex — April 22, 2009 @ 1:49 pm
Caro Carlos,
porque achas que a economia neoclássica provocou a crise? a gestão Keynesiana da procura agregada dos últimos anos, que gerou grande prosperidade desde o pós-guerra, parece-me ser uma das grandes causas desta crise (a política de estabilização foi levada ao limite, o que ajudará a explicar a suavidade das recessões que se verificaram na maioria dos países industrializados desde o início da década de 80.
E achas mesmo totalmente inválida a teoria neoclássica? a noção de benefício e custo marginal é inválida ou é insuficiente para explicar muitos factos económicos?
Comment by Falex — April 22, 2009 @ 1:54 pm
Fernando, por favor leia o que eu escrevi ou diga onde me enganei: eu não disse nunca que a economia neoclássica provocou a crise. Falei na importância do ensino da ética como footnote, porque por alguma razão os contabilistas hão-de ter que a estudar para serem TOCs por exemplo.
O âmago da minha discussão é este:
-a economia neoclássica não tem natureza científica. Isto não tem nada a ver com a crise. É um problema epistemológica. Se olhar para o método científico há etapas cruciais que falham na economia neoclássica e isso é um critério de base de validação da ciência. O pressuposto da racionalidade perfeita, core da economia neoclássica não é um pressuposto simplificador porque tem consequências não neutrais nos resultados (veja o exemplo do texto do Becker em que ele admite que as bolhas são uma falha que a teoria não consegue explicar). Por isso a minha pergunta é diferente: para quê insistir em ensinar coisas que sabemos estarem erradas?
- a explicação que encontro e que é suportada pelos argumentos do seu outro texto e do Nuno Garoupa tem a ver com duas coisas que desenvolvo no post: a carreira académica está institucionalizada de tal forma que é preciso publicar em revistas com corpos editoriais dominados por neoclássicos (isto é uma explicação razoável mas Institucionalista– na economia neoclássica a arquitectura institucional tem algum papel? Em que modelo?) e porque há rotinas e dependência de trajectória que geram o encerramento do investigador nas linhas de investigação que acabam por lhe ser mais familiares (isto é evolucionismo puro! — a economia neoclássica não responde aos problemas de path dependence e comportamentos rotineiros porque nem sabe o que é a rotina).
Peço-lhe que leia a resposta que lhe deixei ontem: http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/04/keynes-regulacao-e-etica-o-novo-papel.html e me contrarie nesta base. Não em negar que a economia neoclássica tenha causado a crise porque tanto no primeiro texto como neste eu não digo que seja esse o caso. Como aqui escrevi o perssoal em Wall Street nem sabe o que ´é a economia neoclássica. O meu problema e aí acho que temos obrigação como académicos de pensar com seriedade é se estamos a ensinar “não ciência” e a construir uma feitiçaria.
ABraço,
Carlos
Comment by Carlos Santos — April 22, 2009 @ 2:22 pm
A parte do meu comment sobre a Religião e Moral era, obviamente, uma piada.
A parte séria era a da minha mãe. Porque no fundo é tudo uma questão de educação. E por muito que seja politicamente correcto por uma cadeira de ética nos cursos de economia e gestão, não me parece que faça muita diferença: só lhes vai dar atenção quem já estiver sensibilizado para as noções de honestidade, os outros vão fazê-la como as outras cadeiras teóricas (IGO’s, História Económica, Epistemologias, etc) - estudam antes do exame e, passado duas semanas, já não fazem ideia sobre o que era a disciplina. O mito que são as escolas que educam os miúdos é um mito de pais demasiado ocupadas (leia-se preguiçosos) para educarem os filhos como deve ser. Acho eu.
Comment by Kordny — April 22, 2009 @ 3:23 pm
Em Wall Street e na city, muitos sabem o que é a economia Neoclássica, e outros ainda têm qualificações como CFA (www.cfainstitute.org), CAIA (www.caia.org), no qual para a obtenção de tais certificações, matérias como “ethics and code of standards” é factor eliminatório, no entanto vai uma longa distância entre aquilo que se aprende e aquilo que se aplica. Como disse Warren Buffet em relação a esta crise “em Wall Steet a ética tem uma relação inversa ao salário”, há medida que aumenta os salários e os bónus, diminui os princípios éticos.
Os modelos ensinados nas escolas, não incorporam variáveis como “poder”, “salário”, “bónus”, “ambição”, “competitividade”. Mas, infelizmente são estes os drivers da sociedade actual.
O instinto animal, diz-nos que é a ânsia de cada um em maximizar a sua utilidade que construímos o “óptimo de Paretto”, é a luta pela sobrevivência, que depois varia de país para país de acordo com o grau de desenvolvimento dessas sociedades. “Mais ou menos consciência social”.
Comment by zideco — April 22, 2009 @ 3:45 pm
“O meu problema e aí acho que temos obrigação como académicos de pensar com seriedade é se estamos a ensinar “não ciência” e a construir uma feitiçaria.”
Que voces andam a ensinar nao-ciencia ja eu suspeito ha muito tempo.
Simplesmente nao me parece que seja um problema exclusivo da teoria Neo, proto, pseudo ou classicoforme…
Agora concordo consigo numa coisa. Do pouco que leio e apreendo sobre teoria neoclassica e austriaca estas nem sequer ao estatuto de engenharia ou filosofia politica chegam. Andam mais proximas da Teologia.
Comment by Lowlander — April 22, 2009 @ 4:35 pm
Num país onde os pais obedecem aos filhos e os filhos obedecem à ficção adolescente nacional da TVI, a escola é naturalmente a última responsável pela aparentemente deficitária ordem hierárquica das famílias portuguesas.
Comment by LuSiFer — April 22, 2009 @ 5:17 pm
É lá! Com Lowlander agora metido ao barulho a coisa vai aquecer!
Comment by João Campos — April 22, 2009 @ 5:55 pm
Há uma confusão neste post entre “cadeiras de ética” e “cadeiras de religião e moral”, confusão essa que eu não entendo. O que é que a religião tem a ver com a ética? Aquilo que se ensinava (ou se ensina) nas cadeiras de religião e moral era ética, ou eram dogmas religiosos? Como s pode aprender ética aprendendo religião?
Comment by Luís Lavoura — April 23, 2009 @ 10:16 am
Luís Lavoura, acha mesmo que é esse o ponto?, que é essa a questão do Fernando?
Comment by LA-C — April 23, 2009 @ 11:10 am
Luís (Lavour e Aguiar:)
Eu acho que o post se prende de facto em excesso com a questão do ensino da ética, mas para mim isso é marginal no debate epistemológico de fundo. E quanto a Wall Street, eu tenho a percepção que o recrutamento financeiro internacional é maciçamente dirigido a pessoas com skills quantitativos: seja pela via da matemática, estatística, econometria, física, ou o que quiserem. Da JP Morgan Chase a muitas outras, nos últimos anos o que eles procuravam no “job market” era iso: não necessariamente economistas neoclássicos ou não.
Por isso eu estou em parte Lowlander, embora ainda lhe deva um post cabal sobre a cientificidade da economia se feita por métodos alternativos.
Abraço,
Carlos
Comment by Carlos Santos — April 23, 2009 @ 4:28 pm
Carlos, o post tem 6 parágrafos. Apenas no último se fala da questão da ética e, em forma de brincadeira, se pergunta se a questão da ética não devia começar mais cedo, em vez de ser um exclusivo das licenciatura de economia e gestão.
Comment by LA-C — April 23, 2009 @ 4:32 pm
Obrigado Luís, Aguiar.
Comment by Falex — April 23, 2009 @ 4:41 pm
Luís Lavoura
a religião tem, como é claro, a ver com ética:
“A ética protestante e o espírito do capitalsimo” de Max Weber. É só um exemplo (para não entrar numa discussão de conceitos).
Comment by Falex — April 24, 2009 @ 9:16 am
“a religião tem, como é claro, a ver com ética”
Mas é ainda mais claro que se pode (i e deve!) ensinar ética sem religião!
Comment by Lardozo — April 24, 2009 @ 11:05 am
Concordo com o Lardozo.
Comment by LA-C — April 24, 2009 @ 11:15 am
concordo - embora implicitamente ela esteja imbuída no nosso quadro de valores.
Comment by Falex — April 24, 2009 @ 1:30 pm
Novamente de acordo.
Comment by LA-C — April 24, 2009 @ 2:58 pm
LA-C (# 24)
Não é eu achar ou não achar que esse é o ponto principal do post. É que há uma confusão, em minha opinião lamentável. Os posts devem ser escritos com precisão, sem confusões nem ambiguidades, como esta confusão de “aulas de ética” com “aulas de religião e moral”.
Comment by Luís Lavoura — April 24, 2009 @ 3:40 pm
Falex (# 28)
A religião pode ter a ver com ética, embora eu tenda a dizer que é a ética quem enforma e modifica a religião, e não o contrário. Ou seja, a religião é construída pela ética da sociedade, não é a religião quem constrói a ética.
Mas eu referia-me especificamente às aulas de religião e moral referidas no post. O que eu disse foi que aulas de religião e moral dificilmente são aulas de ética.
Comment by Luís Lavoura — April 24, 2009 @ 3:43 pm
Luís Lavoura,
discordo do primeiro parágrafo.
concordo com o 2º.
Comment by Falex — April 25, 2009 @ 11:05 am
Fernando, Luís & Luís,
Isto até pode ser interessante. Mas no que diz respeito à defesa da economia neoclássica contra as 3 críticas epistemológicas que eu lhe dirigi:
- não parte da observação da realidade;
- não é validada empiricamente;
- não tem no seu core os elementos necessários para derivar os corolário que dela resultam;
Não refuta nada. Devo concluir, e ainda bem, que aceitam pacificamente que a economia neoclássica não é uma ciência. A questão que me sobra é: e qual o interesse então de a ensinarmos?
Hence, o ensino da economia neoclássica pode não ter culpa da crise, mas a crise serve pelo menos para nos colocar a pensar sobre a economia neoclássica enquanto tal. Não basta cobrir de um manto de formalismos matemáticos um corpo teórico para ele ser científico. O Becker também reconhecia na entrevista que citei que até há modelos que tentam explicar as bolhas a partir da racionalidade, mas são claramente forçados.
Porque a economia neoclássica consegue matematizar muita coisa: mas Aghion e Howitt percebiam mais de inovação que Schumpeter ou Nelson e Winter?
Bom Domingo,
Carlos Santos
Comment by Carlos Santos — April 26, 2009 @ 12:45 am
Carlos Santos:
“3 críticas epistemológicas que eu lhe dirigi:
- não parte da observação da realidade;
- não é validada empiricamente;
- não tem no seu core os elementos necessários para derivar os corolário que dela resultam”
Carlos, não concordo com o teu ponto 2. Pelo contrário, penso que se aplica muito mais às correntes heterodoxas do que à neoclássica. Basta pegar em qualquer número de uma revista mainstream (excluindo, obviamente, o Journal of Economic Theory) para ver a quantidade de trabalhos empíricos que são publicados. Já se pegares na maioria das revistas heterodoxas observas o oposto. E é normal que assim seja, muitas das teorias heterodoxas conseguem explicar tudo e o seu contrário, pelo que são praticamente impossíveis de testar empiricamente (qualquer observação é compatível com a teoria).
Quanto ao ponto 1, concordo apenas muito parcialmente: há de facto muitos teóricos a quem esse argumento se aplica. Mas não é verdade se estivermos a falar dos Economistas aplicados, que devem representar 90% da profissão. E posso dar vários exemplos. A nova teoria do comércio internacional de Paul Krugman surgiu da necessidade de explicar o comércio intra-industrial. As teorias neo-ricardianas do comércio internacional, que estão cada vez mais em voga, surgiram das dificuldades da Teoria de Heckscher-Ohlin com os dados. A teoria monetarista de Friedman é apoiada num extensivo trabalho empírico que levou a cabo com a Anna Schwartz. A teoria do rendimento permanente, também de Friedman, surgiu para explicar as diferenças de resultados entre regressões do consumo ao longo do tempo e as regressões que usavam dados longitudinais. Toda a teoria da informação assimétrica foi sugerida pelos dados. Toda a literatura em sticky prices surge do que é observado nesse domínio, etc, etc. Assim, muito sinceramente, não me parece uma crítica muito relevante.
Quanto ao ponto 3 fico na dúvida do que pretendes dizer. Podes dar exemplos?
E lamento não ter mais tempo para te responder como deve ser, apesar de me parecer que a blogosfera não é o local indicado para estar a discutir questões metodológicas.
Comment by LA-C — April 26, 2009 @ 12:26 pm
Luís,
Agradeço a atenção. Sobre os exemplos que dás eu responderei em post. Para ser breve contesto o núcleo do que dizes quanto à heterodoxia. Se há ponto consensualmente reconhecido no evolucionismo, por exemplo, é que aquilo que descreves como capacidade para explicar tudo e o seu contrário, resulta de uma preocupação de análise do real como ponto de partida. O exemplo canónico: a teoria neoclássico não é capaz de lidar de modo cabal com a inovação. Fez um esforço por incluir intuições Schumpeterianas em modelos ditos de destruição criativa. Mas, parte de uma concepção idealizada de inovação: as inovações ocorrem ao ritmo lambda por período de tempo, como um processo de Poisson. Isto é uma hipótese. O que o Sidney Winter fez ao desenvolver a ideia de rotina, foi reconhecer o papel das aprendizagens pela repetição de tarefas, potenciando o surgimento de inovações incrementais ao longo de uma mesma trajectória de evolução (a tecnologia com que se está familiarizado). Nesse sentido, olhou-se para a realidade. E houve capacidade para tirar uma conclusão empírica que a teoria neoclássica só artificialmente explica: porque é que há países e regiões que se desenvolvem com certa especialização produtiva? A ideia de path dependence do Paul David, não é uma ideia neoclássica. QUando se pensa na região de Génova, toda a história conta: o tempo da construção dos portos para a grande indústria pesada que lá se localizava afectou negativamente a capacidade de crescimento durante muitos anos, dessa região. Porque o percurso temporal levou a que fosse difícil saír de uma trajectória. Que teoria neoclássica consegue fazer isto? Que eu conheça, só Kiminori Matsuyami fez qualquer coisa a respeito, mas dificilmente os pressuspostos dele são mainstream neoclássicos.
A capacidade para explicar advém da observação do real, e os testes empíricos são superados, só não cabem muitas vezes é no arquétipo de econometria dos neoclássicos: uma mera confirmação da verdades em média. A regressão de quantis, por exemplo, diz a minha experiência, é um instrumento excelente para suportar o postulado evolucionista de que o agente representativo não existe. No caso da inovação isso torna-se óbvio: os factores que potenciam a inovação num país que no ranking de patentes está no quantil 0,2 não são os do quantil 0,6: e isso é confirmado por regressão de quantis. Agora, há coisas que são confirmadas na base de case study: porque a econometria não é a única ferramenta que temos para validar conclusões económicas.
Isto já vai longo, mas quanto as exemplos que me pedes: o Friedman nos anos 50/60 postulou um comportamento maximizador de lucro que levava a que agentes egoístas conduzissem ao equilíbrio de mercado em concorrência perfeita que era um óptimo social. Mas nunca soube responder à pergunta: porque é os agentes se hão-de comportar assim no mercado? Quem lhes ensinou as regras do jogo? Há um processo de aprendizagem. O Alchian primeiro, e o Winter depois conseguiram explicar que o mercado era interacção de agentes que aprendiam a se comportar por repetirem interacções e com um tempo desenvolverem um comportamento satisfatório (tipo Herber Simon). Mas a aprendizagem por interagir com o tempo é o âmago da ideia de rotina. Que é evolucionista.
Em síntese, o resultado (equilíbrio de mercado) resulta de aspectos (rotinas de interacção e aprendizagem, resultados satisfatórios, etc.) que não fazem parte do núcleo da economia neoclássica. Por isso eu digo que ela não consegue explicar o seu próprio resultado.
É isto relevante. Muito! A UE convenceu-se que os países de leste aprendiam a viver em mercado desde que se removessem os entraves do regime anterior. O resultado está à vista: muitos dos problemas que a crise revelou no caso da Europa de Leste resulta de imaturidade de mercado. Por exemplo quando os húngaros contrairam créditos para habitação em francos suiços sem uma estratégia de cobertura de risco. O resultado foi o que foi. O que nos remetia para o instituciolismo, mas isto já vai longo:)
Escrevo um post um dia destes. Espero que tenha sido legível o que escrevi.
Carlos
Comment by Carlos Santos — April 26, 2009 @ 11:03 pm
Pois…, mas eu não considero que o evolucionismo seja incompatível com a teoria neoclássica. Muito pelo contrário. O próprio Marshall sempre considerou que a economia devia ter um pendor evolucionista, apenas lhe faltou capacidade para ir por aí. Hoje em dia, cada vez mais há autores a incorporarem ideias evolucionistas nos seus modelos, e já começa a haver modelos que se baseiam directamente nos princípios da evolução para modelizarem o crescimento económico e o progresso técnico. O meu orientador de doutoramento tem um trabalho desses publicados no JEDC (2000 e pouco) em co-autoria com uns biólogos evolucionistas e também já vi um artigo, de um prof da Brown, de cujo nome não me lembro, publicado no QJE com um modelo evolucionista a explicar o crescimento económico.
O processo é lento, naturalmente. Para se fazer as coisas com rigor não há grande volta a dar, o ritmo da ciência não é igual ao ritmo das colunas de opinião nos jornais.
É natural que as ideias de Schumpeter demorem bastante tempo a ser modelizadas. Afinal de contas são ideias complexas e para as introduzir com rigor os nossos conhecimentos matemáticos muitas vezes não são suficientes. Há muitas ideias válidas que muitas vezes ficam à espera que chegue alguém com capacidade para as modelizar. Mas a ciência também é isso.
E em especial, a Economia Neoclássica tem sabido sempre incorporar os ensinamentos das heterodoxias. Vários exemplos. Keynes era um heterodoxo e grande parte dos seus ensinamentos (não todos) foram incorporados pela teoria neoclássica. Por exemplo, aqui o nosso Fernando Alexandre é keynesiano e, no entanto, é fiel à matriz neoclássica. Friedman no início era um heterodoxo. O contrário também é válido. Hayek já fez parte da ortodoxia dominante e no entanto a Escola Austríaca é hoje marginal ao mainstream. Os exemplos abundam.
Quanto a processos de aprendizagem. Mais uma vez os neoclássicos não os põem de parte, pelo contrário são essenciais, se bem que isso, às vezes, não transpareça nos modelos. Por exemplo, o Economista que aplicou o Learning by doing à Economia, o Arrow, é o mais neoclássico que se possa imaginar. Shapley e Shubik (anos 70, salvo erro), Karl Shell e outros, nos anos 80 e 90, escreveram artigos com os “market games” que explicavam como se podia chegar aos equilíbrios previstos na teoria. Etc, etc.
A questão é sempre a mesma, as insuficiências que se apontam aos modelos neoclássicos existem. Mas a maioria das vezes a sua resolução não é incompatível com a metodologia em causa. É apenas uma questão desenvolver a ciência no sentido de incorporar novas soluções. Digamos que é o progresso técnico aplicado à ciência económica.
Muitas vezes falas nas expectativas racionais (noutros posts, não neste) como se isso fosse a prova da falência da metodologia neoclássica. A verdade é que a economia neoclássica já tinha quase 100 anos quando alguém se lembrou das expectativas racionais. E Torna a ser verdade que hoje em dia há imensos neo-clássicos a trabalhar numa forma de encontrar expectativas que sejam mais ajustadas à realidade (eu próprio trabalho nisso, se bem que sem sucesso até agora). Sargent, por exemplo, e mais neoclássico é difícil de imaginar, tem trabalhado bastante com a ideia da bounded rationality. É uma questão de tempo até as expectativas racionais deixarem de estar no core no pensamento macroeconómico. Nada disso tem a ver com a metodologia neoclássica e com o pensamento marginal, que está na sua base.
Não há grande volta a dar a isto: uma heterodoxia bem sucedida rapidamente se vai tornar numa nova ortodoxia. Foi assim com o keynesianismo, com o monetarismo, com os RBC, com os DSGE models e com o que vier a seguir. O mainstream neoclássico vai incorporando todas estas correntes. A mim o que me parece é que, deliberadamente ou não, confundes metodologia com ideologia e associas os neoclássicos aos neoliberais. A verdade é que há imensos neoclássicos que não são neoliberais: Stiglitz, Krugman, Mundell ou Phelps, só para falar de prémios Nobel recentes.
Voltando à questão dos cursos de licenciatura. A cada momento no tempo há imensas teorias concorrentes. Heterodoxias são aos milhares. O que se ensina a um nível básico, ou seja ao nível de licenciatura, tem de ser seleccionado. Essa selecção é feita ensinando essencialmente o mainstream, o que forma o corpo de conhecimentos mais consensual entre economistas. O que não faz sentido é, a propósito de uma crise (grave), pormo-nos todos a dar heterodoxias, a maioria das quais não vingou no tempo, esquecendo o corpo de conhecimentos já consolidado. Heterodoxias são importantes, claro, sem elas a ciência não avança, mas é para alunos mais avançados. Heterodoxias bem sucedidas serão, dentro em breve novas ortodoxias e a seu tempo serão incorporadas nos cursos de licenciatura. Quem quiser propor cursos heterodoxos, está no seu direito. Agora não se surpreenda se ficar para trás.
PS Carlos, compreenderás que eu pare de responder. Estes comentários ficam demasiado longos e perde-se demasiado tempo. Ainda para mais eu, provavelmente ao contrário de ti, penso que esta discussão é estéril.
Comment by LA-C — April 27, 2009 @ 3:31 pm
Luís,
Eu compreendo perfeitamente que pares de responder. Os comentários são longos e cada um de nós sabe que o tempo não é elástico. A única nota que deixo é que por sistema eu não penso que a discussão de metodologia seja algo marginal ou estéril. Por exemplo, eu concordo com a essência de tudo o que disseste, mas vejo isso noutra óptica. O core da economia neoclássica incorpora a racionalidade perfeita. Daí resultam comportamentos maximizadores. Como isso se torna compatível logicamente com a ideia de rotina, ultrapassa-me. Eu sei que o Arrow modelizou learning by doing. Mas lá está: é preciso modelizar as coisas? É como se o conhecimento para ser validado tivesse de caber num corpo de formalismo com que afastamos o resto do mundo para garantir um feudo privado. A consequência é que a modelização de ideias evolucionistas na teoria neoclássica, a meu ver, ou deixa lado partes essenciais do evolucionismo, como rotinas, ou deixa de ser neoclássica.
Só uma nota: “neoliberalismo”, é uma acepção comummente usada na política e por isso eu a uso num contexto de debate político. Entendendo-a como a defesa do mercado livre e do Estado quase suprimido. Isto é vulgarmente entendido como o resultado da combinação teórica de alguns corolários neoclássicos e alguns austríacos. Porque das bases serem opostos (eu não consigo imaginar gente mais distante à partida que o Hayek e o Friedman) concorrem na produção do mesmo resultado: o equilíbrio no mercado não intervencionado. Agora, eu não chamo a nenhuma escola de pensamento económico neoliberal. É antes um alinhamento político.
Um abraço,
Carlos
Comment by Carlos Santos — April 28, 2009 @ 4:25 pm
” A única nota que deixo é que por sistema eu não penso que a discussão de metodologia seja algo marginal ou estéril.”
Caro Carlos, estou de acordo com isto. Apenas me parece que este não é o fórum adequado. Só isso.
Comment by LA-C — April 28, 2009 @ 5:58 pm