Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográ­fico, também ele em letárgico stand-by

Eis-me aqui, diante de mim, o computador em frente, ecrã de fundo azul por via de não fatigar os quatro-olhos (a maioria só tem três, contando com o do traseiro) – sem­pre fui caixa-de-óculos –, esfor­çando-me por conceber um remate adequado para esta historieta em que agrilhoei o hífen sem culpa numa camisa-de-onze-varas, a tal vestimenta negra que requeria essa medida (oitenta cen­tímetros por vara) para a sua confeção. Sorte de opa (não confundir com OPA: Oferta Pública de Aquisição) que os condenados à fogueira pelo douto Tribunal do Santo Ofício enverga­vam durante o desfile que os conduzia à morte. A seguir, após encomendada a alma, viajavam em voo direto para o paraíso dos cães-tinhosos (diabos) ou dominica­nos.

Como já se devem ter apercebido, iniciei este artigo ado­tando, por primeira vez, as regras do novo acordo ortográfico! Embora tenha, afetivamente, uma certa resistência em empregá-lo, concordo, por outro lado, que não há outro remédio senão andar ao correr do veio do tempo. Toda a mudança tanto política, social ou de outra sorte, é sempre recebida com quatro pedras na mão. Já no tempo em que se usava o PH em pharmácia, Thomaz, philosofia, etc. se levantou o costumeiro alvoroço dos ! Estão estragando a nossa língua, no meu tempo, não, respeitavam-se as regras da gramática… Nas fachadas de certas farmácias muito antigas as pessoas ainda veem o PH, e o sor­riso floresce nos lábios… O hábito faz o monge, e o que hoje é motivo de chacota e de censura, amanhã já ninguém se lem­bra, e até acha ridícula a reação contra o novo acordo ortográ­fico. E quando mais tarde entrar em vigor outro acordo ortográfico, a geração do atual dirá o mesmo e mais forte: estão a destruir a nossa língua, não queremos modernices, etc.

Claro que se torna um pouco estranho escrever ótimo sem o pedún­culo do p, assim como ação, receção, ator, atriz, sem a muleta do c, e outras que usavam hífen e deixaram de o usar como fim de semana, bicos de papagaio (excrescência óssea na coluna), mas bicos-de-papagaio (planta)… No nome de plantas o hífen irá perdurar.

Dá a ideia de que certas palavras ficam descalças e meio nuas… Hão de vestir-se com o tempo e tudo há de entrar na normalidade do dia-a-dia, porque dia a dia o hábito irá validar o que hoje parece anor­mal… Acreditem! Não merece a pena lutar contra fantasmas de papelão… (continua)

PS: Quanto à Benedita, irá parir, garanto-vo-lo, na enxerga do próximo texto sobre o hífen. E desde já posso antecipar que, finalmente, irá nascer um pimpolho cujo nome agora não digo… Só posso garantir que hífen não irá usar…