A ciência escatológica e a coprológica, achegas para um estudo mais aprofundado… (II)
Há tempos, logo pela manhãzinha, ouvi na televisão um ilustre médico a perorar sobre a flatulência e o seu pouco perigo para a saúde de quem a sofre, muito menos para a saúde pública. Basta uns comprimidos porosos de carvão de lenha, hulha não, e tudo fica absorvido e a pessoa absolvida do pecado da incontinência peidorreira, peço-vos perdão pelo desbocamento. Flatulência, quem diria! Desnaturado, aquele médico ilhéu! Em se tratando de escatologia (a ciência dos excrementos – o fim último da comida – e dos seus agregados, incluindo a alma), o ilhéu é um perdido fala-barato, há quem diga que uma seroada com ilhéus acaba sempre em merdaceira… Flatulência… Agora cá! É, sem sombra de dúvida, um termo mais eufónico e eufémico, mas muito deslavadinho… Preferível, nesse reino escatológico, sem teologia, a palavra vernácula, muito preferível ao sem-sabor (melhor seria sem odor) da outra, política (polida), cerimoniosa, frequentadora de salões finos, porque tu Entre merda foste nascido / E na merda foste gerado… / Muita merda tens comido / E dela toda tens gostado…
Mais umas notinhas de rodapé. Ao ser esfaqueado, na matança, o porco solta um produto excrementício antes de morrer que se chama, pelo menos na Ilha, torresmo da agonia, coitado do bichinho, ao passo que para as pessoas se utiliza uma expressão mais elaborada e digna: acabou de dar o peido mestre. Os Ingleses, mais práticos, empregam uma expressão equivalente à portuguesa esticar o pernil: to kick the bucket, dar um pontapé no balde, o que tem uma lógica linguístico-histórica: em tempos recuados, havia aos pés de cada cama de hospital um balde para acudir às urgências escatológicas mais elementares, como o mictar (tão fina a palavra!) ou verter águas (mais ruralizante) ou ainda mudar a água às azeitonas (ruralíssimo), sendo que as azeitonas estão no lugar dos testículos (muito científico) ou colhões (do latim popular coleōne), segue-se então que, quando um gentleman estava a dar as últimas, esticava a perna com tal força que ia embater no balde de folha-de-flandres. Fazia um barulho de tambor roufenho e era este o som sinal que avisava os enfermeiros de que mais um tinha dado a alma ao criador…
(continua)

No Alentejo, ao “torresmo da agonia” da-se o nome de “morcela da banca”…
Comment by Vasco Gabriel — March 31, 2009 @ 12:49 am
Cristóvão, estás cada vez melhor!
Comment by Luisa Ventoínha — March 31, 2009 @ 4:43 am
Já agora: para o norte o torresmo da agonia chama-se rojão de banco.
Comment by Luisa Ventoínha — March 31, 2009 @ 4:45 am