Superlativos absolutos sintéticos e analíticos
In illo tempore, quando eu era ainda estudante, chamava-se absoluto simples ao absoluto sintético, o que não traz nenhum mal à gramática, porque, no fundo, ambos significam o mesmo. Assim ou assado, isto é, tanto um como o outro, terminam da mesma forma: -íssimo, -imo, -rimo: inteligentíssimo, facílimo, libérrimo, consoante o adjectivo: o João é um aluno inteligentíssimo; o exame de Matemática foi facílimo, sorte de maná caído do céu, que beneficiou os alunos e nutriu as estatísticas do Ministério da Educação; é uma rapariga libérrima e acérrima defensora do amor livre (acérrimo: muito acre, fortíssimo, pertinaz, obstinado)! O adjectivo sintético diz-nos logo o motivo por que se chama superlativo sintético – é reduzido a uma palavra, no caso um adjectivo elevado ao seu mais alto grau. Em relação ao superlativo absoluto analítico, ao invés, necessita de um advérbio intensificador (muito, bastante, bem, assaz, imensamente – daí o ser analítico) – advérbio que permanece invariável (atenção a esta regra). O aluno é muito (muitíssimo) inteligente, os alunos são muito (muitíssimo) inteligentes. A professora chegou à sala de aula e disse para os alunos: trago-vos os exercícios corrigidos; há muito boas notas, poderia dizer também: há notas muito boas! Nunca muitas boas notas. Obrigado pela atenção.

A minha filha Mariana é que agradece mais este esclarecimento do Cristóvão sobre o uso da língua portuguesa.
Comment by Falex — March 16, 2009 @ 7:24 pm
Passeante recente da blogosfera, constato que do que os comentadores (e mesmo alguns autores) estão mais carecidinhos é da dilucidação do mistério da conjugação dos verbos, em particular do verbo haver, e, numa fase mais avançada, de algumas noções de sintaxe, em particular no que toca à identificação do sujeito da frase e necessidade de concordância dos predicados. É que eu, talvez por ter feito a escolaridade obrigatória nos anos 50 do século passado, fico por vezes tão escandalizado…
Comment by JMG — March 16, 2009 @ 7:29 pm
Mais uma excelente charla, essencial para quem aprende a língua portuguesa!
“no que toca à identificação do sujeito da frase e necessidade de concordância dos predicados.”
Sim, isto do sujeito e do predicado não pode ser “assim ou assado”.
Comment by Lardozo — March 16, 2009 @ 7:52 pm
Eu também fico escandalizado com a falta de concordância entre sujeito e predicado. Quanto ao verbo haver, está a tornar-se um bico-de-obra. No presente, ninguém se engana: há um, há vários. O grande busílis reside no pretérito e no imperfeito: houve, havia. Há muito boa gente que escorrega e diz: houveram muitas pessoas a assistir ao jogo ou haviam muitos adeptos apupando o seu clubes… Só se emprega haviam no plural quando o verbo é auxiliar (com o sentido de ter): haviam ou houveram feito. Também eu, caro amigo, andei na esola nos finais de 40, princípio de cinquenta. Qual será o sujeito da primeira estrofe dos Lusíadas?
Comment by Cristóvão de Aguiar — March 16, 2009 @ 11:24 pm
Arma virumque cano: então o sujeito não são as armas e os barões? Ou será “eu” no sentido de Eu canto as armas e os (…)? Boa pergunta, Cristóvão! Esta dava para mais uma charla!
JC
Comment by João Campos — March 17, 2009 @ 12:42 am
Caro João Campos,
O sujeito é de facto eu. As armas e os varões assinalados /Que, da Ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca dantes navegados, etc. mais a segunda estrofe até Se vão da lei da Morte libertando - complemento directo ou objecto directo. Cantando espalharei (eu:sujeito) por toda a parte, etc.
Comment by Cristóvão de Aguiar — March 17, 2009 @ 12:57 am
Obrigado pela lição!
Comment by Rui — March 17, 2009 @ 2:17 pm
Também gostei da Lição. Assim sim.
Comment by Ars — March 18, 2009 @ 1:13 am
Vejo-me numa tarde de Sol estival, numa sala de aulas morta de tédio, suando as meninges e por todos os poros, a dividir orações nos Lusíadas. Quem havia de dizer que viria a reconhecer-me profundo devedor desse ensino maçador e anti-pedagógico. Ainda se dividem orações nos Liceus?
Comment by JMG — March 18, 2009 @ 1:07 pm
Sistemas de ensino diferentes, baseados no ensino maçador e anti-pedagógico que caracterizou a abordagem ditatorial de Salazar e de Franco. Parece contudo que a ditadura franquista ainda urge terminar pelo menos no que diz respeito a brutal repressão policial dos protestos dos estudantes de Barcelona. Fica aqui a noticia do El Pais de factos silenciados (censurados?) na televisão portuguesa:
http://www.elpais.com/articulo/sociedad/antibolonia/toman/centro/Barcelona/desalojo/rectorado/elpepusoc/20090318elpepusoc_4/Tes
Tudo se iniciou nos protestos de Atenas em Dezembro passado, que alastram agora a Barcelona, Madrid e muitas outras cidades europeas. Talvez dentro de 2 mesitos tenhamos em Lisboa um “Maio de 2009″ para agitar ainda mais as consciencias desta sociedade capitalista que dia apos dia se afunda!
Comment by Lardozo — March 18, 2009 @ 4:57 pm
Ressuscitará, Cardozo, ressuscitarà,
Comment by JB — March 19, 2009 @ 1:57 pm