Muito foi já escrito sobre os bombardeamentos, durante a 2ª Guerra Mundial, das cidades inglesas (dos quais resultou a morte de 62 000 civis) e russas. No entanto, a História Natural da Destruição de Sebald fala-nos dos bombardeamentos das cidades alemãs pelos Aliados e das razões para a quase total ausência de referências a esses terríveis acontecimentos na literatura e jornalismo da Alemanha da época e no pós-guerra. Sebald atribui aquela ausência à “espantosa capacidade de auto-anestesia do ser colectivo” e recorda as palavras de Enzensberger de que a “inconsciência foi a condição do seu sucesso” no pós-guerra.
Na 1ª Guerra Mundial, com a guerra das trincheiras, tivemos milhões de mortos, mas eram essencialmente soldados mortos em campos de batalha como Verdun ou Somme. Ainda antes da 2ª Guerra Mundial, com o bombardeamento da cidade Basca de Guernica pelos alemães, tornado famoso com o quadro de Pablo Picasso, adivinhava-se uma mudança estratégica no modo de fazer guerra. Os mesmos alemães voltaram a tornar clara essa mudança com os bombardeamentos de Amesterdão e Londres e o cerco sem tréguas da cidade de São Petersburgo (na altura Leningrado) e Estalinegrado. Os civis passaram a ser um alvo dos ataques militares.
Até à invasão da Itália, em 1943, pelos Aliados, as tropas russas eram as únicas a combater as forças alemãs em solo europeu. Dos mais de 13 milhões de soldados alemães mortos durante a 2ª Guerra Mundial, 10 milhões perderam a vida na frente leste. Do lado russo, contabilizaram-se 9 milhões de soldados mortos e 19 milhões de civis. Apesar dos pedidos de ajuda de Estaline, as forças terrestres Aliadas só entraram verdadeiramente na Europa depois da invasão da Normandia, em Maio de 1944 – daqui até ao fim da Guerra morreriam a maior parte dos 264 000 soldados britânicos mortos em combate. Até essa altura, os bombardeamentos aéreos das cidades alemãs foram a única forma eficaz da Inglaterra e dos Estados Unidos atingirem a Alemanha. Segundo algumas fontes, um terço do esforço de guerra da Grã-Bretanha concentrou-se naquela estratégia; e, em 1944, um terço do esforço de guerra alemão concentrou-se na produção de baterias anti-aéreas.
Mais do que um efeito sobre a capacidade de combate das forças alemãs, os bombardeamentos produziram um efeito sobre o estado de espírito da população alemã. Num inquérito realizado após o final de 2ª Grande Guerra, 9 em 10 entrevistados referiram os bombardeamentos como a experiência mais difícil porque passaram durante a guerra.
Sebald nasceu em 1944 nos Alpes do Allgau e, por isso, escapou aos terríveis bombardeamentos aéreos que atingiram milhões de alemães que habitavam cidades como Hamburgo, Colónia, Frankfurt, Dresden ou Berlim, das 131 atacadas, que terão causado a morte de pelo menos 600 000 civis e desalojado 7,5 milhões. Apesar disso, Sebald procurou neste livro dar-nos memórias da catástrofe, vinda dos céus, que então atingiu a Alemanha. Aquelas não são tanto as suas memórias mas antes o que seriam as memórias daqueles que perderam a capacidade psíquica de recordar o terror a que os bombardeamentos submeteram.
Sebald descreve assim a paisagem que terá resultado dos bombardeamentos de Hamburgo, no Verão de 1943: “Por toda a parte havia cadáveres horrivelmente desfigurados. Em muitos deles luziam ainda chamas de fósforos azuladas, outros estavam queimados com uma cor castanha ou roxa e reduzidos a um terço do seu tamanho normal. Jaziam dobrados em poças da sua própria gordura derretida, por vezes já em parte solidificada.”
Depois de ler a História Natural da Destruição percebe-se melhor a dificuldade em aceitar a bomba atómica de Hiroxima e Nagasaki como uma solução para o fim da 2ª Guerra Mundial.

Caro,
Como académicos penso que devemos denunciar sempre a desonestidade intelectual. Atrevo-me por isso a fazê-lo aqui, e deixo ao seu critério:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/03/verdades-e-mentiras-sobre-as-causas-da.html
Comment by Carlos Santos — March 6, 2009 @ 11:12 am
Carlos,
Recorres no error das semanas passadas! Interromper um debate pconstrutivo sobre a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e o horror do nuclear para despropositadamente dizer que houve mais um insurgente que se afundou na intriga blogueira domestica… Não te afundes tambem tu e desiste de propagandear o teu blog a desproposito: confia no valor das (tuas) ideias e deixa o mercado bloguiteiro decidir ler quem quer!
Comment by Lardozo — March 6, 2009 @ 11:44 am
Agradeço a sugestão Carlos, mas eu participo nos debates por que me interesso (ou que acho interessantes).
Mas dado o seu interesse na Islândia, deixo-lhe aqui um WPaper que está submetido para publicação numa revista internacional, cuja a versão do Verão de 2007 já fazia uma referência aos problemas da Islândia e aos riscos que daí poderiam resultar (uma motivação para calibrar o modelo com dados para aquela economia):
http://www3.eeg.uminho.pt/economia/nipe/docs/2007/NIPE_WP_26_2007.pdf
Comment by Falex — March 6, 2009 @ 12:54 pm
Da uma vista de olhos ao “A rapariga que roubava livros” de M Zusak. A dor da guerra tambem chegou aos alemaes.
Comment by vasco gabriel — March 6, 2009 @ 5:33 pm
Vasco, já está no cestinho da amazon.
A nossa ida a Berlim em 98 foi uma viagem memorável. Um beijo à Mané.
Comment by Falex — March 6, 2009 @ 6:42 pm
Caro Fernando,
Convém ressalvar alguns pontos importantes em relação à entrada dos diversos “actores” na II G.M.
As forças aliadas, os únicos que efectivamente efectuaram uma resistência próxima e com sucesso aos alemães foram os soviéticos. Os franceses foram derrotados - o exército da França Livre do De Gaulle foi mais “fogo de vista” que outra coisa - e os ingleses ficaram, de certa forma, protegidos pela geografia e pelo descalabro da Batalha da Inglaterra.
Por outro lado, a URSS entrou na guerra a contra-gosto e cedo demais. Apesar de se saber inevitável um confronto entre a Alemanha e a URSS, por motivos ideológicos, esta última não estava de modo algum preparada para a Operação Barbarossa. A grande sorte de Estaline foi EXACTAMENTE a fixação ideológica de Hitler, que desviou o ataque de um eixo central em direcção a Moscovo e “serpenteou-o” na direcção do Cáucaso, em alvos de “prestígio”, que culminou no egocentrico ataque a Estalingrado como se trata-se de uma guerra por “proxy” entre ele próprio e o líder soviético.
Antes da entrado dos EUA na Guerra, a única potênica (digamos) em condições de combater era a URSS, pelo “velho método” de esgotar as munições ao inimigo com os valentes peitos dos jovens russos.
Quando efectivamente os EUA entram na Guerra, a questão que se punha era aonde atacar. A zona escolhida (após uma tentativa falhada na Grécia) foi a Itália por se julgar como menos fortificada e, nas palavras de Churchill, “the soft underbelly of the beast”. Como é sabido, não correu como esperado. O terreno em itália, principalmente na zona do Lázio, foi conducente a uma guerra defensiva que foi brilhantemente conduzida pelo General Kesselring.
A invasão da Normandia surgiu, portanto, por exclusão de hipóteses e daí ter tardado.
Comment by Carlos Duarte — March 7, 2009 @ 12:53 am
Carlos Duarte: concordo contigo. Resolvi não comentar esta entrada precisamente porque me pareceu daquelas que são tão bem conseguidas que valem por si mesmas. Mas o que dizes é muito certo.
Comment by João Campos — March 7, 2009 @ 12:29 pm
Falex, LA-C, João Campos, Lardozo, Cristovão:
Com tudo o que nos separe peço-vos apenas que tomem conhecimento do que é uma campanha abusiva de ataque pessoal. Não insiro link. É o post mais recente do meu blogue. E refer-se a meninos que não conseguindo atacar o autor ou argumentar se limitam a colocar posts em que gozam com um livro. Se acham que eu sou o pior da blogosfera, o que acham da ética disto?
Comment by Carlos Santos — March 9, 2009 @ 3:51 pm
Carlos, considero ridículo o ataque que te estão a fazer. Mas, permite-me que te diga, que te puseste a jeito.
Os portugueses gostam de gozar e enxovalhar, seria surpreendente se não aproveitassem as referências constantes que fazes ao teu livro nos comentários que deixas em vários blogues.
Eu, por exemplo, considerei quase insolente a forma como comentaste um post do meu pai. E tiveste muita sorte de eu ter respondido antes de o meu pai ter lido o teu comentário (além de o ter avisado de que eras meu amigo). Se a pena do meu pai se dedicasse à sátira deixaria os insurgentes a um canto.
Comment by LA-C — March 9, 2009 @ 5:34 pm
“… o que acham da ética disto? ”
Concordo: esses tipos do Insurgente nunca souberam o que é ética!
Comment by Lardozo — March 9, 2009 @ 5:49 pm
Carlos: tens a minha solidariedade. Ataques de tão baixo nível são de lamentar, pá e julgo que toda a gente na blogsfera está do teu lado. Há muitos e bons livros sobre Obama e apenas por isso não comprei o teu que, como dizes, se encontra muito bem distribuido por todo o país. Esses insurgentes devem estar é invejosos, pá não lhes ligues porque como diz o outro esses gajos da direita estão-se nas tintas para a ética! Continua firme que é a melhor reposta a dar a tão rasteiro vexame!
Comment by João Campos — March 9, 2009 @ 11:55 pm
Aproveito apenas para deixar 3 notas discordantes, mas rapidas, ao comentario 6 do Carlos Santos:
1 - O desvio do ataque alemao para o Caucaso nao se deveu a questoes ideologicas e egocentricas, mas sim com uma questao prosaica: petroleo. O unico fornecedor de petroleo era a Romenia, o que deixava a Alemanha vulneravel (dai a expressao de Churchill).
2 - Exactamente por isso, o controlo do Mediterraneo era vital e o papel dos britanicos neste teatro de guerra parece ser menosprezado. Foi a guerra nos Balcas que atrasou o ataque a URSS (devia ter sido em Abril/Maio, foi em finais de Junho) e a guerra no Norte de Africa foi extremamente desgastante para os alemaes. Foi onde, efectivamente, sofreram a primeira derrota, ainda antes de Estalinegrado.
3 - A insistencia de Churchill em abrir primeiro uma segunda frente no Mediterraneo tinha, para alem do proposito de cortar o acesso ao petroleo, precaver o avanco russo e que a cortina de ferro se situasse demasiado a oeste, como infelizmente veio a acontecer. Churchill, desde muito cedo, tratou a URSS com muita desconfianca e temia que a Europa de Leste caisse sob a influencia sovietica. Os EUA nao prestaram a devida atencao…
Finalmente, congratulo o Fernando por esta sequencia de posts extremamente interessantes.
Comment by vasco gabriel — March 10, 2009 @ 11:18 am
Carlos Duarte, e não Carlos Santos
Comment by LA-C — March 10, 2009 @ 11:19 am
“com os bombardeamentos de Amesterdão e Londres”
Caro Falex, eu quase ia jurar que Amsterdão não foi bombardeada na II Guerra Mundial. Não terá querido dizer Roterdão?
Comment by Tarzan — March 10, 2009 @ 11:23 am
exacto, Carlos Duarte, peco perdao
Comment by vasco gabriel — March 10, 2009 @ 11:29 am
Caro Vasco,
1- Então porquê Estalingrado? E porquê “desviar” a 30 km de Moscovo? Porquê as demissões no Alto Comando Alemão? Repare que a Alemanha combateu a guerra toda quase sem petróleo, utilizando carvão como principal “base” química. Existiram bastantes disparates estratégicos na prossecussão da guerra por parte dos alemães, a começar com a não-finalização da Guerra de África e não terem segurado o Mediterrâneo. E esses “disparates” tiveram em pano de fundo a sobreposição da ideologia à geopolítica.
2- A guerra de África foi uma distração. O número de homens e material que foi envolvido pelos alemães foi absolutamente rídiculo. O grosso das tropas eram italianas que pouco ou nada valiam. Os alemães tiveram, em baixas, menos de 150.000 homens (entre mortos, feridos e prisioneiros). As baixas alemãs durante a primeira parte da guerra (invasão da Polónia, Checoeslováquia, Países Baixos e França) foram consideravelmente superiores em operações que se consideram como meros “passeios”. Agora, concordo inteiramente consigo que a perda do Mediterrâneo foi um passo importante. Quanto ao atraso do ataque, eu sou partidário da teoria dos carris e não de qualquer operação nos Balcãs.
3- Repare que eu falei na invasão da Europa pelo Sul da Itália, não da guerra no Mediterrâneo. São coisas distintas.
Comment by Carlos Duarte — March 10, 2009 @ 12:50 pm
A culpa, meus caros, é sempre de uma excrecência só O VIRUS PARASITA RELIGIOSO, que faz vagabundos sem competência usurparem o que produzimos, tomarem nossas riquezas, que conquistamos com a eficiência de nossos talentos individuais e de equipes.
A “Deseducação” a que estamos submetidos nesta absurda amancomunação de (des)governo no Brasil descambou para o mais espúrio tutelamento dos vínculos civis; os “protetores” das famílias são canalhas que engendram a violência e passam-se pra nós como moralistas “defensores” da vida, e seus comparsas estão enfiados onde nunca deveriam estar, na política, na polícia, nos serviços assistenciais, na imprensa, etc; os capangas desse esgoto usam o código “abençoado”, “paz”; e os camuflados “sêlos” da imundície:“crença”: são abarrotados na Sociedade (por capangas dos parasitas), na imposição e aumento dos séquitos do Terror religioso disfarçado como “do bem”.
Usando a “técnica” podre (dos diplomas sujos dependurados em embustes) de MENTIR até o fim, o Vigarista-Fantoche-Mor tá aí depois de escrachada toda a podridão que vimos; e os dissimuladores nos tem feito submetidamente (por religião) engolir. A salafra “heroína” da teo-pulhítica (agora inacreditavelmente revelado como o conluio “Socialismo Divino”, esfrega na nossa cara o casamentoda Estrela encarnada, a Foice da miséria e Pomba imunda), uma senhora”respeitada”, cospe que roubou, matou, “entregou” inocentes(traíra), na cara abobada da senzala-mista chafurdada no caminho da Índia da TV. O Brasil pena na mão e na bôca de vagabundos político-religiosos que vociferam vomito na mídia formatadora da desgraça civil.
Comment by Haddammann — April 22, 2009 @ 2:26 pm