Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográ­fico, também ele em letárgico stand-by

Estou para aqui olhando para a pantalha do computador sem saber como desenvencilhar-me deste imbróglio (o mesmo que embrulho, neste caso embrulhada) em que alegremente me enrodilhei. Camisa-de onze-varas, grita-me o provérbio do fundo do tempo, pelo menos do século XVI, em que os autos-de-fé se iniciaram (1540), em Lisboa, chefiados pelos frades dominicanos, os cães de Deus: estás metido numa camisa-de-onze-varas… Antes isso, penso eu com os meus botões, do que vestir uma camisa-de-forças.

Para que conste, a camisa-de-onze-varas mais não era do que o sambenito de má memória, hábito em forma de saco, sem mangas, preto, que os penitenciados envergavam ao caminharem, em procissão, no endireito do auto-de-fé – a fogueira purificadora dos pecados que a Inquisição criou à imagem e semelhança do Inferno católico –, sendo que a vara (não confundir com certa personalidade do palco político português) era uma antiga medida de 80 centímetros que, multiplicados por onze, dava alguns metros do pano com que era talhado o sambenito.

Quanto à irmã colaça, a camisa-de-forças, não será necessário explicar, ou melhor, aplicar, porquanto não fui ainda acometido por nenhum acesso de fúria que exigisse internamento numa casa de orates. Na Ilha chamava-se Egipto, um casarão amarelo para as bandas da Fajã de Baixo, lá se internava aqueles que não tinham os alqueires bem medidos… Muitos ficavam por lá o resto da vida, umas vezes passeando-se pelo jardim, outras, se lhes rebentava o saco das iras, aprisionados numa camisa-de-forças, dizia-se que lhes trazia a calma…

E agora, senhor escritor da pena longa? Aonde irás pôr a Benedita e o marido Firmino e a mulher-de-virtude a quem, seu sem-vergonha, nem sequer te lembraste de baptizar? Ficou uma sem-nome, e isto não se faz a um cão, quanto mais uma criatura humana. Todos devem ter direito a um destino condigno nesta história forjada, palavra a palavra arrancada a saca-rolhas, que a escrita nunca será silva-sem-espinhos… Deixaste-os despedindo-se da curandeira, à porta do casebre de magias, as mãos dela já untadas pelo Firmino com generoso estipêndio para pagar um sem-fim de missas a serem celebradas pelo padre-cura, um sem-sabor que pouco latim sabia já. Claro que a bruxa, mulher sem-vergonha, é que iria empalmar a espórtula, sempre assim acontecera, que o pobre do cura fora sempre um papa-açorda, e agora muito mais, que a senilidade ia avançando a galope, mas manda a verdade que se diga que sempre foi um bom-serás! (continua)