Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográfico, também ele em letárgico stand-by…
Antes de terminar o ritual da magia negra, a nigromante, que também avocava os espíritos dos mortos em sessões de uma trindade de pessoas, a mesa-de-pé-de-galo a tremelicar, acrescentou que a Benedita era um alvo predilecto de um sem-fim de desejos ruins que, quanto antes, era preciso atalhar. Um bom remédio para esborralhar essa muralha de invejas seria tomar um chá de erva-da-inveja três vezes ao dia, mas, sobretudo, missas-rezadas, sem cânticos, um sem-número delas, ditas ao lusco-fusco, para que sejam mais bem ouvidas no Céu, nessa hora crepuscular do recolher dos Santos, dos anjos-da-guarda (um diligente guarda-costas avant la lettre, que qualquer primeiro-ministro ou outro governante não desdenhariam) – além de os arcanjos Gabriel, Miguel e Rafael, e demais categorias angélicas, à cabeça das quais se encontram os querubins. Todos eles ocupavam as horas vagas voando, ao deus-dará, pelo empíreo, impelidos por um vento de bem-aventurança. Regressavam ao pôr-do-sol, muito a tempo de assistir, na companhia do Todo-Poderoso, às missas por intenção da Benedita!
“Eu me encarregarei”, disse a mulherzinha, “de as mandar rezar ao padre-cura, mas, para que tudo fique bem-feito, preciso que me adiantem o dinheiro: não quero arranjar um trinta-e-um com os meus bem-amados espíritos, que as missas-rezadas têm de direitas ao céu, e não me convinha nada que o meu bom-nome caísse no inferno do maldizer do mulherio; é que, aqui, o bem-dizer não se pratica e tudo por via da falta de consciência que cresce por aí…”
Já era passante do meio-dia quando o casal saiu toca da bruxa, o estômago já a bom rezingar e um calcorreio de mais de duas horas pela frente: valia andar o tempo bem-encarado. A bruxa não se esqueceu de lembrar-lhes que as sessões de benzeduras, defumadouros e rezas eram para ser continuadas pelo menos por mais uma novena de semanas. Só assim ficaria a Benedita em ordem de emprenhar na primeira meia-lua que viesse, isto é, no quarto crescente… Entre marido e mulher, decidiram fazer mais esse sacrifício, por amor daquele pimpolho com que sonhavam desde a lua-de-mel. Apesar de a bruxa lhes ter declarado, no final da consulta, que não punha preço ao seu trabalho, longe fosse o agouro, foi dizendo em falas mansas que, se estavam de boa-fé, que lhe dessem o que a consciência lhes aconselhasse, pois nunca em dias de vida tinha sido mal-gradecida. Mãos-largas, abriu o Firmino os cordões à bolsa, e escorropichou uma quantia generosa (queria ficar bem-visto perante a bruxa, ciente de que o bom-sucesso da sua Benedita ficaria garantido) – afora as missas, uma trintena delas, em honra não se sabe de que santo milagroso, perito em esterilidade feminina… (continua)

O acordo ortográfico, se me permite, é daqueles temas que nos distrai dos grandes debates que passam ao lado do país: as renováveis, por exemplo. Convido-o a:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/os-argumentos-das-energias-renovaveis.html
Comment by Carlos Santos — February 26, 2009 @ 7:03 am
Mais uma excelente charla!
“é daqueles temas que nos distrai dos grandes debates que passam ao lado do país”
Carlos Santos: então agora não se pode falar de outra coisa que não do progresso economico? Será que esses temas devem dominar-nos 24h por dia de forma a que nem tempo haja para reflectir sobre a Língua Pátria? Recomendo-te o livro de charlas de C. Aguiar (vendido em qualquer boa livraria de Lisboa) em que o autor demonstra bem o valor das letras. Essencial para quem diz prezar galhardamente o “valor das ideias”!
Comment by Lardozo — February 26, 2009 @ 11:49 am
Viva o hífen. Tenho lido de fio-a-pavio estes últimos textos de C-de-A sobre pro-criação assistida e julgo que ele-e-ela Os personagens deveriam apresentar a conta da bruxa ao Pin-ócrates já que ela, a pro-criação, faz parte do programa do governo. Concordo com Cardozo quando há dias referia qoe os castelhanos mantêm o hífen.
Se nós temos tão bons hífenes porque não mantê-los e até ampliá-los?! Mas atenção, Cardozo: as palavras mantêm a sua autonomia. Vai-vem não é uma palavra. Que o diga C-de-A.
Comment by AL — February 26, 2009 @ 12:44 pm
Carlos, estas entradas do Cristóvão destinam-se a quem nelas está interessado. Se estes assuntos não têm lugar na tua tão ocupada mente, tudo bem. Fico feliz por teres tanto com que te ocupar. Mas pelo menos evita utilizar as entradas do Cristóvão para, completamente a despropósito, vires publicitar as tuas entradas.
Comment by LA-C — February 26, 2009 @ 1:04 pm
LA-C: se não o tivesses dito tu, dizia-o eu, pá! Esse Carlos não tem sequer a noção do ridículo, coitado.
Lardozo: o cardozo tem razão, pois as palavras permanecem autónomas. Isso está muito bem explicado no novo livro de Cristóvão de Aguiar que tive o prazer de encontrar à venda por todo o lado aqui no Porto!
Comment by João Campos — February 26, 2009 @ 2:02 pm
“as palavras mantêm a sua autonomia. Vai-vem não é uma palavra. Que o diga C-de-A”
Correcto, Al: o que tentei dizer foi que os hífenes conferem ao conjunto de palavras ligadas um sentido semantico, um significado proprio independente do de cada um delas. Isto demonstra bem a utilidade do hífen. De qualquer forma obrigado pelo esclarecimento!
LA-C e J.C: quanto a Carl(it)os e o seu narcisismo bacoco concordo com o vosso alvitre, conforme referi no meu primeiro comentario. Mas um problema fica em aberto, o do acordo ortográfico: devemos ser pro ou contra? A leitura (breve) do livro de c. Aguiar bem como a sua charla “Bico-de-obra diacrítico” faz-me inclinar para o lado do contra. Contudo, a ideia de que Portugal (ou Espana) devem continuar a ditar as regras de escrita em toda a Ameria Latina repugna-me. Parece-me por isso que este pode ser um dos tais grandes debates, certo? pois encontro argumentos para pender para ambos os lados.
Comment by Lardozo — February 26, 2009 @ 3:22 pm
Já tenho o livro das “Charlas”. Bem-aventurados sejam o pobre de espírito que o elaborou e o seu amadorismo. A sua leitura dispensa-nos dos grilhões e cilícios quaresmais.
Comment by Feliciano — February 28, 2009 @ 5:34 pm