Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográ­fico, também ele em letárgico stand-by

Depois de sair do fumeiro, ficou a Benedita estonteada e sentiu-se com mal-de-engasgo. A curandeira acudiu-lhe com uns borrifos de água-benta. O marido achou-a tão malparecida, que principiou a sentir bichos-carpinteiros nos pés da alma, cego por virar as costas àquela pantominice celebrada no escurentado altar-mor do canto do lume. A oficiante, alegre e bem-dis­posta, exclamava que o defuma­douro estava a produzir efeito. Após uma pausa durante a qual Bene­dita cobrou as forças e as cores amarelentas, tomando uma infusão de erva-cidreira, iniciou-se a lenga­lenga ende­reçada ao santo. Bem-falante e muito bem explicada, a curan­deira disse a reza tão bem-dita, que faria inveja ao mais pintado ora­dor sacro…

Ainda se não concluíra por aquele dia a bendita cerimónia. Havia outras exéquias a celebrar. Achegou-se então a pítia à Benedita e, ao ficarem frente-a-frente, a benzedeira mandou-lhe abrir a boca até as campainhas ficarem bem visíveis. Através das malas-artes que prati­cava, descobriu que a sua consulente tinha uma pesada carga de que­branto deri­vado de um mau-olhado que, quanto antes, era preciso tirar; caso contrá­rio, corria o risco de empachamento, do qual poderia advir um enorme mal-estar de estômago e de espírito. Depois, trans­formar-se-ia num verdadeiro bicho-de-sete-cabeças custoso de se lhe dar uma resolução. Mandou-lhe abrir e fechar a boca, num ritmo lento, como se estivesse a bocejar. Sempre que a boca se abria, apressava-se a fazer o sinal da Cruz, ao mesmo tempo que ciciava uma prece que se não entendia.

Ao fim de umas boas dezenas de sinais da Cruz, a rezadeira obrigou a Bene­dita a cerrar a boca e a engolir em seco. No fim, perguntou-lhe se ela se sentia mais tranquila. Com a cabeça fez um sinal afirmativo, mas o olhar meio-morto, sumido, não enganava ninguém, muito menos o Fir­mino, que sabia de cor o fogo que lhe bailava nos olhos… Remoendo no íntimo, esteve vai-não-vai para armar um pé-de-vento. Aguen­tou-se nas patas traseiras – no fundo, ainda lhe restava uma réstia de fé bom-sucesso bichanando-lhe no ouvido interior: se a Benedita for bem mezinhada, talvez a mani­nhez fuja para terras de mourama… (continua)