Coisas do arco-da-velha: o hífen, esse bico-de-obra diacrítico, vai afundar-se num banho-maria até à sua parcial ab-rogação logo que entre em vigor o Acordo Ortográfico, também ele em letárgico stand-by…
Depois de sair do fumeiro, ficou a Benedita estonteada e sentiu-se com mal-de-engasgo. A curandeira acudiu-lhe com uns borrifos de água-benta. O marido achou-a tão malparecida, que principiou a sentir bichos-carpinteiros nos pés da alma, cego por virar as costas àquela pantominice celebrada no escurentado altar-mor do canto do lume. A oficiante, alegre e bem-disposta, exclamava que o defumadouro estava a produzir efeito. Após uma pausa durante a qual Benedita cobrou as forças e as cores amarelentas, tomando uma infusão de erva-cidreira, iniciou-se a lengalenga endereçada ao santo. Bem-falante e muito bem explicada, a curandeira disse a reza tão bem-dita, que faria inveja ao mais pintado orador sacro…
Ainda se não concluíra por aquele dia a bendita cerimónia. Havia outras exéquias a celebrar. Achegou-se então a pítia à Benedita e, ao ficarem frente-a-frente, a benzedeira mandou-lhe abrir a boca até as campainhas ficarem bem visíveis. Através das malas-artes que praticava, descobriu que a sua consulente tinha uma pesada carga de quebranto derivado de um mau-olhado que, quanto antes, era preciso tirar; caso contrário, corria o risco de empachamento, do qual poderia advir um enorme mal-estar de estômago e de espírito. Depois, transformar-se-ia num verdadeiro bicho-de-sete-cabeças custoso de se lhe dar uma resolução. Mandou-lhe abrir e fechar a boca, num ritmo lento, como se estivesse a bocejar. Sempre que a boca se abria, apressava-se a fazer o sinal da Cruz, ao mesmo tempo que ciciava uma prece que se não entendia.
Ao fim de umas boas dezenas de sinais da Cruz, a rezadeira obrigou a Benedita a cerrar a boca e a engolir em seco. No fim, perguntou-lhe se ela se sentia mais tranquila. Com a cabeça fez um sinal afirmativo, mas o olhar meio-morto, sumido, não enganava ninguém, muito menos o Firmino, que sabia de cor o fogo que lhe bailava nos olhos… Remoendo no íntimo, esteve vai-não-vai para armar um pé-de-vento. Aguentou-se nas patas traseiras – no fundo, ainda lhe restava uma réstia de fé bom-sucesso bichanando-lhe no ouvido interior: se a Benedita for bem mezinhada, talvez a maninhez fuja para terras de mourama… (continua)

Mais uma excelente charla!
Comment by João Campos — February 20, 2009 @ 3:24 pm
Derrogação?
Comment by anónimo — February 20, 2009 @ 4:25 pm
Caro anónimo, qual é exactamente a sua pergunta?
Comment by LA-C — February 20, 2009 @ 4:44 pm
Por se tratar de Lições não têm discussão.
Comment by anónimo — February 23, 2009 @ 9:26 pm
É verdade: depois de ler estas lições penso de que os ìfenes não fazem, de facto, falta nenhuma.
Comment by Anonymous — February 24, 2009 @ 1:05 pm
Bom, no Castelhano (falado por mais pessoas que o Portugues) eles subsistem e fazem falta! Jugo que esta excelente charla demonstra cabalmente a sua utilidade: por exemplo, um estrangeiro nuca saberia que “vai-não-vai ” constitui uma palavra apenas. O bico-de-obra diacrítico mostra-se bem informativo!
Comment by Lardozo — February 24, 2009 @ 3:42 pm
se as palavras são das pessoas e a língua também, eu continuo com os hífen e com o que me apetecer haja ou não acordo. Talvez seja um pouco como a música da nossa vida. Sempre ficamos com a da nossa juventude e vamos descubrindo outras coisas aqui e ali… mas a que nos define é a da nossa década. Com a lingua e a escrita , o mesmo … eu fico com os 80’s e tu?
Comment by pedro — March 11, 2009 @ 7:26 pm