A Gradiva publicou recentemente a tradução do livro Collapse de Jared Diamond, um dos mais influentes intelectuais do nosso tempo. Considero que este livro, como o Armas, Germes e Aço (passou completamente despercebido em Portugal!) do mesmo autor, deviam ser livros de leitura obrigatória nas licenciaturas em Economia (e não só). Embora na Universidade do Minho não tenhamos ainda chegado a esse ponto, referi-os sempre nas minhas aulas de macroeconomia. Não me esqueço do semblante carregado dos alunos quando, este ano, por alturas de Outubro (o sistema islandês tinha acabado de implodir), falei do livro e me voltei para eles depois de ter escrito o título no quadro. Comprei e li o livro em Nova Iorque, na altura em que foi publicado, com uma sensação de angústia sempre presente. Nessa altura escrevi uma recensão que a revista Atlântico publicou. Republico-a agora aqui na Destreza.


Revista Atlântico, nº10, Dezembro de 2005

ESCOLHAS NUM PLANETA FRÁGIL

Oito anos depois da publicação do extraordinário Armas, Germes e Aço, premiado com o prémio Pulitzer, Jared Diamond, Professor de Geografia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), publicou em 2005 o livro Collapse – How societies choose to fail or to survive. Os dois livros podem ser lidos como um só projecto onde são analisadas as causas da ascensão e do colapso de muitas civilizações. No seu primeiro livro identifica um conjunto de causas do desenvolvimento desigual entre as diferentes regiões do globo e conduz-nos a uma certa ideia de determinismo geográfico. Em Collapse, Diamond coloca a ênfase na fragilidade do meio ambiente e atribui um maior relevo às consequências das escolhas dos indíviduos para o futuro das sociedades.

Suicídio ecológico?
Ao longo da história da humanidade sociedades houve que prosperaram, que atingiram níveis de grande complexidade organizacional, para depois entrarem num processo de acelerado declínio, até ao colapso. Diamond define colapso como uma redução drástica da população e da complexidade na organização política, económica e social.

O primeiro caso de colapso descrito no livro, e talvez o mais eloquente de todos, é o da Ilha de Páscoa. Habitada pela primeira vez por volta do séc. VIII, aquela ilha era então coberta por uma densa vegetação e habitada por uma rica fauna. A Ilha de Páscoa estava organizada em tribos, cujos chefes competiam entre si para erigir a maior estátua. O resultado dessa competição foi a desflorestação completa da ilha e a eliminação de toda a fauna. Os vestígios arqueológicos do final do séc. XV evidenciam a prática de canibalismo e de disputas mortais por alimentos. Assim, quando os europeus lá chegaram, no final do séc. XVIII, depararam-se com uma ilha deserta, habitada por umas escassas centenas de habitantes e estátuas gigantes.

A partir deste exemplo e de outros, Diamond argumenta que muitos dos colapsos de civilizações antigas foram o resultado de suícidios ecológicos. O autor estabelece assim o paralelo com as sociedades actuais, onde os problemas ambientais são também uma grave ameaça.

No entanto, Diamond reconhece que o colapso de uma sociedade ou civilização é quase sempre o resultado da combinação de diversos factores. Para além da destruição do meio ambiente, este autor atribui um papel às alterações climáticas, às relações comerciais com outros países, à existência ou não de povos vizinhos hostis, e, acima de tudo, à capacidade das sociedades adaptarem o seu modo de vida aos recursos naturais disponíveis.

Modos de vida
Diamond dá-nos também exemplos de sociedades que, tendo enfrentado problemas semelhantes aos descritos acima, conseguiram, pelas escolhas que fizeram, ultrapassá-los e subsistir até hoje. A Islândia e a ilha de Tikopia mostram como é possível subsistir, mesmo em condições muito adversas, quando as sociedades fazem, em cada momento, as escolhas certas. O meio ambiente da Islândia é um dos mais frágeis do mundo, o que não impediu a sua população de ter um dos rendimentos per capita mais elevados do mundo. A ilha de Tikopia mantém uma população constante de 25 000 habitantes há mais de 2500 anos. Os seus habitantes rapidamente se aperceberam que o frágil meio ambiente da sua ilha não suportava uma população superior. Assim, para além de terem eliminado hábitos antigos, como a criação de porcos, animais que destruíam a frágil vegetação da ilha, utilizaram o aborto e mesmo o infanticídio como formas de controlo da população.

Uma ideia fundamental do livro de Diamond é a da necessidade de ajustarmos o nosso modo de vida, produção e hábitos de consumo aos recursos naturais que temos à nossa disposição, dependendo disso a sobrevivência das sociedades actuais. A esse propósito descreve os graves problemas ambientais que actualmente atingem a Austrália. De acordo com Diamond, este é um dos países em que o modo de vida e o modelo económico mais se antagonizam com as condições naturais. A Austrália é um país com graves problemas de desflorestação e que exporta madeira; é um país com uma elevada erosão dos solos e falta de água e, ainda assim, insiste em produções agrícolas e de gado.

No entanto, este é só um exemplo extremo de um problema que afecta hoje quase todo o planeta. Assim, a questão que se coloca a todas as sociedades é a da escolha de um modo de vida compatível com o meio ambiente que habitam. Caso contrário, o destino das nossas sociedades será o colapso.

Economia de mercado vs ‘mão visível’
Muitos ambientalistas associam os problemas ambientais à natureza do sistema capitalista. No entanto, hoje sabemos que os países comunistas do ex-bloco soviético foram os que mais destruíram o meio ambiente. A exploração da natureza não é uma característica do capitalismo, nem sequer da modernidade, mas sim, da Humanidade.

Um erro dos críticos do capitalismo é dizerem que nesse sistema o poder económico ao estar concentrado nas mãos das empresas privadas se torna impermeável aos desejos da sociedade. Assim, para muitos ambientalistas, a adequação dos modos de vida ao meio natural só é possível com uma ‘mão visível’ que determine centralmente as decisões de consumo e de produção.

Diamond tem sido muito criticado pelos ambientalistas. Estes consideram-no demasiado optimista em relação à capacidade das economias de mercado para resolverem os desafios ambientais que o planeta enfrenta. De acordo com Diamond, devemos ser realistas e assumir que o objectivo das empresas é a maximização dos lucros. Por isso não se devem esperar delas acções que não vão nesse sentido. No entanto, as empresas preocupar-se-ão com as questões ambientais se tiverem incentivos para isso.

A sensibilização das sociedades para a importância das boas práticas ambientais pode incentivar a sua implementação pelas empresas. De facto, há evidência de que empresas que causam danos ambientais graves são penalizadas pelos mercados, sendo também o inverso verdade. Diamond acredita que o sistema capitalista e democrático pode gerar esses incentivos e induzir mudanças de comportamento das empresas, dos consumidores e dos governos que sejam compatíveis com o meio ambiente.

Um mundo frágil
Collapse mostra-nos a precaridade das sociedades e instituições em que vivemos. Apesar do optimismo moderado de Jared Diamond, é difícil libertarmo-nos de uma certa angústia durante a leitura do seu último livro. Hoje, mesmo depois dos ataques terroristas que nos últimos anos têm ameaçado as sociedades ocidentais, continuamos a tomar o conforto e a segurança como uma certeza. Diamond relembra-nos que esse mundo é uma excepção e que dificilmente se poderá manter por muito mais tempo, se não fizermos as escolhas certas.