Ajuste directo e transparência
A gravidade da recessão que atinge a economia mundial e a economia portuguesa tem obrigado os Governos a tomar medidas a que não estávamos habituados. Em Portugal, as medidas anunciadas contra a recessão, para além do apoio ao sector financeiro, assentam no aumento do investimento público.
Esta opção traz consigo várias dificuldades. De entre elas destaca-se a realização daqueles investimentos em tempo útil, isto é, a tempo de evitar que a recessão seja mais grave do que neste momento se prevê. Para procurar ultrapassar este problema o Governo português aprovou em Conselho de Ministros o aumento do valor dos contratos públicos por ajuste directo, isto é, sem concurso público, de 150 000 euros para 5,1 milhões de euros. Esta alteração, justificada pelo Governo pela urgência do combate à crise (o anterior valor tinha sido alterado no passado mês de Julho), tem sido muito criticada, dados os riscos de distorção da concorrência e de favorecimento na adjudicação de contratos públicos.
Estes riscos resultam de, nos casos de adjudicação por ajuste directo, as entidades públicas não terem de justificar a escolha das empresas para a compra dos bens e serviços ou realização de obras públicas, sendo a sua única obrigação, estabelecida no Código dos Contratos Públicos, artigo 127º, publicitar os contratos realizados no sítio “Base: contratos públicos online”.
A transparência poderá ser um instrumento efectivo do controlo do processo de adjudicação de contratos públicos por ajuste directo, e substituir a criação de mais estruturas burocráticas de fiscalização, como propôs, por exemplo, o Eng. João Cravinho. No entanto, a transparência não consiste em colocar na internet os dados, mas em colocá-los de forma acessível a todas as empresas e cidadãos que se preocupam com a utilização dada aos seus impostos. E isso, neste momento, não acontece.
Uma visita ao sítio de internet “Base: contratos públicos online” não permite, de forma imediata, identificar os contratos realizados por entidade adjudicante e adjudicatária. A organização da informação de acordo com aqueles critérios é essencial para garantir que se verificam os princípios fundamentais da livre concorrência entre empresas e para a transparência na utilização dos dinheiros públicos. Adicionalmente, ainda para promover as regras da liberdade de concorrência, o Governo português deveria disponibilizar a informação por sector produtivo (por exemplo, obras públicas, material informático, agências viagens, etc.). A disponibilização de estatísticas que incluam o valor total e médio dos contratos por dia, mês e ano também são muito importantes.
Com objectivo de obter esta informação, o meu colega da Universidade do Minho, Miguel Portela, fez uma análise dos dados que constavam no sítio de internet à data de 8 de Janeiro. Retirou as seguintes conclusões: entre 30 de Julho (data da entrada em vigor do Código dos Contratos Públicos) e 31 de Dezembro de 2008, realizaram-se um total de 16 061 contratos públicos por ajuste directo, relativos a 936 entidades públicas e 6 803 empresas, totalizando 528 082 137,21 euros, com um valor mediano por contrato de aproximadamente 6 666 euros.
Analisando os dados por empresas fornecedoras de entidades públicas, por ajuste directo, conclui que entre as 10 primeiras se encontram 3 empresas do sector informático, cujo montante adjudicado representa cerca de 9% do valor total das compras, nos cinco meses analisados. No grupo das 10 primeiras empresas encontram-se ainda empresas do sector farmacêutico, automóvel e obras públicas, representando 21,4% do total das compras do Estado por ajuste directo. Relativamente às 10 principais entidades adjudicantes, estas representam 31,7% do valor total das compras, de que fazem parte 5 municípios, 3 agências estatais, uma unidade hospitalar e um ramo das forças armadas. Destaca-se ainda o facto de, no mês de Dezembro, terem sido realizados mais de 40% do valor dos contratos públicos por ajuste directo, relativos aos 5 meses disponíveis no sítio do Governo.
Se existissem dados disponíveis para um período mais alargado, seria interessante, daqui a um ano, fazer uma comparação de anos anteriores com o ano de 2009: um ano de recessão e de três eleições. Mas esta já é a perspectiva de um investigador. De qualquer maneira vai ser interessante saber quais foram os sectores mais beneficiados, quem foram as principais entidades do Estado a adjudicar obras e por que valores. Esta análise deveria caber aos partidos da oposição, à comunicação social, às empresas e à sociedade em geral. O contributo do meu colega Miguel Portela pode ser consultado no sítio: www.eeg.uminho.pt/economia/mangelo/ajustedirecto.

Bom trabalho!
Só achei o post muito brando. Isto na prática é o simplex da corrupção. Que adianta a transparência se, usando o ajuste directo, não temos informação quanto ao (hipotético) valor das propostas alternativas? Mais, esta medida tanto interessa ao governo como aos partidos da oposição, nomeadamente aqueles que têm alguma expressão autárquica.
Comment by jc — January 12, 2009 @ 11:59 am
Olhe que na base em Excel compilada pelo Miguel Portela constam lá os valores das adjudicações. Em si, esta informação é útil. Quanto aos valores das propostas alternativas…, tem razão. Mas se os dados forem públicos e transparentes, o que não é o caso, é mais fácil que quem se sinta prejudicado se queixe.
Comment by LA-C — January 12, 2009 @ 12:03 pm
Caro JC,
com a informação no formato disponibilizado pelo Miguel Portela - só falta acrescentar por sector de actividade - se ninguém se queixar só tem o que merece. Dada a forma como a informação é actualmente disponibilizada acho que todas as pessoas que em Portugal se preocupam com os dinheiros públicos devem queixar-se. Eu e o Miguel Portela fomos um passo à frente.
Obrigado pelo comentários.
Comment by Falex — January 12, 2009 @ 12:45 pm
Bom trabalho. Mas o Base precisa de ser reformulado para que o controle público seja possível. Resta ainda a questão de fundo, que é o facto de os ajustes directos terem passado de um limite de 5 mil euros em 1999 para os pretendidos 5,1 milhões agora…É excessivo e é uma porta aberta à corrupção e ao clientelismo no ano de todas as eleições!
Comment by Helena Roseta — January 12, 2009 @ 2:44 pm
Obrigado.
Uma informação muito importante que o Governo deveria dar, para justificar o valor agora proposto, é a da percentagem estimada para os contratos por ajuste directo no total das compras do Estado (e quanto é que era antes da alteração proposta).
Comment by Falex — January 12, 2009 @ 3:04 pm
Muito interessante e um instrumento cabal para cortar os tentaculos ao polvo da corrupção!
Comment by Lardozo — January 12, 2009 @ 3:14 pm
É de notar a posição de oposição a esta alteração por parte da AICCOPN – Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas.
(http://www.aiccopn.pt/news.php?news_id=1116)
Comment by jc — January 12, 2009 @ 3:33 pm
É interessante sim senhor - também tinha já reparado no Público de Sábado.
Comment by Falex — January 12, 2009 @ 3:38 pm
Até 5 milhões é tudo prioritário
É por causa da bendita crise. E só vai durar 2 anos. Nada como tornar lei o que já é regra disfarçada. Estejam atentos. Vai haver muita festa. O Governo decidiu aprovar uma iniciativa legislativa que permite adjudicar sem…
Trackback by O Castelo — January 12, 2009 @ 5:17 pm
A transparência não bastapara garantir a concorrência. A transparência só funciona se houver um sentido de VERGONHA, isto é, se as entidades malfeitoras tiverem vergonha de verem a sua malfeitoria exposta a nu. Mas a publicação na internet, mesmo com todos os mecanismos de busca e estatística referidos neste post, nada garante, porque:
1) Nada garante que há malfeitoria, e
2) Nada garante que os malfeitores fiquem envergonhados.
Comment by Luís Lavoura — January 12, 2009 @ 6:18 pm
Caro Luís Lavoura,
é verdade que a ética é essencial para o bom funcionamento da sociedade e da economia. Não sou tão pessimista em relação aos benefícios da transparência, mas tenho a certeza em relação aos prejuízos da opacidade.
Comment by Falex — January 12, 2009 @ 6:27 pm
«Obras públicas até cinco milhões de euros podem ser feitas por ajuste directo»
A medida anunciada pelo governo, suscitou inúmeras criticas de diversa índole, não vou repetir o óbvio, apenas enumerar uma que me parece não ter sido referida e que poderá ser tão grave como todas as outras. Como é sabido Portugal vive à sombra do investimento financiado com verbas comunitárias, enquanto se encerra o ciclo do IIIQuadro Comunitário de Apoio, começa o “novo” QREN. Ora, a contratação pública é objecto de regulamentação comunitária e nacional e as regras de funcionamento dos organismos que administram os financiamentos comunitários prosseguem objectivos de transparência e igualdade, assegurando condições justas de concorrência na escolha dos procedimentos de contratação. Em meados de 2008, Portugal alterou os diplomas 197/99 e 59/99 e aprovou o novo Código de Contratação Publica, que unificou um conjunto disperso de legislação, com transposições comunitárias que visam imprimir maior celeridade aos processos de contratação. O Governo, através do parlamento legisla a seu belo prazer, o problema surge quando as alterações às regras de contratação colidem com as regras Comunitárias. Qualquer organismo de gestão será confrontado com a eventual ilegalidade dos ajustes directos quer no momento de validar os procedimentos apresentados a financiamento quer no momento de verificação em sede de auditoria (no mínimo, por não observar os princípios de transparência e livre concorrência).
Perante a legitima necessidade de injectar dinheiro na economia real, por forma a paliar os efeitos da crise, é legitimo perguntar se serão tomadas medidas complementares para evitar um previsível aumento da corrupção.
Abraço
Comment by Bruno - Planetas — January 12, 2009 @ 8:34 pm
Excelente.
Um assunto que merece ser revisitado pelo menos trimestralmente.
Comment by rui fonseca — January 12, 2009 @ 9:59 pm
Caro Fernando,
convido-o a espreitar estes sublinhados que acabam por ser sugestões sobre como o DL poderia, ainda assim, ter dignidade, mitigando os riscos de corrupção. Muito na linha do que escreveu.
Cumprimentos
Comment by RuiMCB — January 12, 2009 @ 11:30 pm
Caro Fernando,
E acha que a Europa precisa de copiar o modelo de investimentos públicos dos EUA?
Comment by Carlos Santos — January 13, 2009 @ 7:22 pm
Olá, convido-vos a consultar o site da Transparência na Administração Pública portuguesa.
Para já só pesquisa Ajustes Directos numa BD que não tem actualização em tempo real, mas é muito mais útil que o Base.
http://transparencia-pt.org/
Comment by Rui Seabra — January 13, 2009 @ 9:08 pm
Caro Rui, obrigado pelo link. muitos parabéns pela iniciativa. espero que os partidos e a comunicação social estejam à altura da informação que estamos a fornecer. miguel
Comment by Miguel Portela — January 13, 2009 @ 10:44 pm
Pois é verdade, quem precisa de ajustes directos de 5,5 milhões de euros, se já o ano passado houve quem fornecesse uma simples fotocopiadora por 6.572.983,00 €…
http://www.oestadodaarte.com/uma-fotocopiadora-de-ouro.html
Comment by Lidador — January 14, 2009 @ 3:04 am
isto tem de ser um erro na “base”. se não reparem, uma ” VIATURA DE 16 LUGARES PARA TRANSPORTE DE CRIANÇAS”, 2.922.000,00 €: http://www.base.gov.pt/_layouts/ccp/AjusteDirecto/Detail.aspx?idAjusteDirecto=7827
a divulgação desta informação deverá servir para a “base” corrigir as gralhas. miguel
Comment by Miguel Portela — January 14, 2009 @ 8:32 am
? mais um erro ? Município de Lagoa: Empreitada para execução de fundações de suporte da cobertura do Polidesportivo Municipal de Ferragudo; 7.177.936,00 € - http://www.base.gov.pt/_layouts/ccp/AjusteDirecto/Detail.aspx?idAjusteDirecto=12033
Comment by Miguel Portela — January 14, 2009 @ 8:59 am
Miguel, são erros a mais e não te esqueças que o incentivo é para errar por baixo e não por cima…
Comment by LA-C — January 14, 2009 @ 11:03 am
Restauração no Dia Internacional do Idoso, em Vale de Cambra (http://www.base.gov.pt/_layouts/ccp/AjusteDirecto/Detail.aspx?idAjusteDirecto=1880): 610.400,00 €
Tendo em conta que em Vale de Cambra moravam 4279 pessoas com mais de 65 anos, a refeição custou em média 142,7 Euros. Isto se foi a malta toda à jantarada! Incluindo os entrevados! Quando é que eu me posso mudar para este fabuloso concelho?
Comment by jc — January 14, 2009 @ 11:52 am
Quanto custa um espectáculo do Marco Paulo? Depende: se for em Albufeira, 63.957,00 (acrescem despesas de estadia); já se for em Elvas, fica só por 14.000,00 €. Aliás, Elvas é um exemplo de boa gestão: o espectáculo com o Quim Barreiros só custou 6.250,00, e não os 10.000,00 habituais, que este cantor normalmente cobra.
Comment by jc — January 14, 2009 @ 12:09 pm
Nota: o número de idosos de Vale Cambra é referente ao ano de 2006 e foi obtido na base de dados Sales Index, a qual se baseou nas Estimativas Definitivas de População Residente Intercensitárias, do INE.
Comment by jc — January 14, 2009 @ 2:32 pm
Voltando ao assunto, pois parece ter caído em esquecimento. Consultem o site www.base.gov.pt e verifiquem os ajustes directos no que respeita a remodelações de escolas. Embora trabalhe no sector da Construção Civil, não consigo compreender nem aceitar os valores pelas quais são fechados os ajustes directos, ou talvez compreenda, mas não aceito! Passar de 150m€, para 5,1M€ considero um atentado! Este valor corresponde a cerca de 1/5 do valor da construção de um Hospital.
Segundo o Tribunal de Contas 70% dos contratos celebrados, foram por Ajuste Directo.
Tão grave ou mais que este assunto, são 3 agrupamentos escolares que serão construídos no Alentejo e que em média custarão aos contribuintes 12,5M€, cada um! Sim, 12,5 Milhões de Euros! Que população cada um vai servir, numa área demográfica dispersa e acima de tudo envelhecida?
Comment by P — December 18, 2010 @ 2:42 am