Público, 5 de Setembro de 2008

Há dias, submeti um artigo para publicação no Journal of Public Economics. Informado de que o editor encarregado de lidar com o artigo se chamava Antonio Merlo, fui pesquisar o seu curriculum. Professor de Economia na Universidade de Pennsylvania, Merlo tem diversos trabalhos sobre a qualidade das instituições democráticas no mundo ocidental. O título de um dos seus trabalhos aguçou-me a curiosidade: “Mediocracy”.


No artigo, Merlo destaca a mediania que impera nos meios políticos, salientando que, sendo certo que lá não se encontram os piores profissionais, também é verdade que lá não se encontram os melhores. Chama ainda a atenção para alguns governantes como “o actual presidente norte-americano, que era um fraco aluno na Universidade de Yale; Göran Persson (ex-primeiro-ministro sueco), que não conseguiu concluir o curso de Ciências Sociais; Santana Lopes (ex-primeiro-ministro português), que era comentador desportivo, e John Major (outrora primeiro-ministro britânico), que tinha sido agente de seguros”. Imagino que, se estivesse por dentro da actualidade portuguesa, Merlo acrescentaria que o actual primeiro-ministro desistira do curso num prestigiado Instituto Superior de Engenharia para acabar licenciado numa universidade que foi, pelo seu próprio governo, compulsivamente encerrada por falta de qualidade.

Enfim, sobrancerias saloias à parte, como explicar a mediania vigente nas administrações políticas? O modelo construído por Merlo e Mattozzi prevê que os partidos políticos preferem colaboradores medíocres, acabando por deixar os melhores e os piores para o sector privado. Não tendo ficado convencido, procurei outras justificações.

Num artigo também publicado no Journal of Public Economics, deparei com uma visão bastante mais crua sobre o assunto. Francesco Casellia e Massimo Morelli, professores em Harvard e em Ohio, consideram duas dimensões na qualidade de um político: honestidade e competência. Como os cidadãos competentes têm maiores probabilidades de sucesso numa carreira privada do que os incompetentes, é de esperar que os mais inaptos se sintam mais atraídos por uma carreira política. Ou seja, os profissionais capazes têm mais a perder ao abandonar o sector privado. Considerando a outra dimensão, a da honestidade, mais motivos existem para preocupações. Sendo incontestável que ninguém enriquece, honestamente, com a política, também não deixa de ser verdade que é possível auferir grandes dividendos se os cargos forem exercidos desonestamente. Isto significa que, em termos comparativos, os corruptos têm mais a ganhar com uma carreira política.

Casellia e Morelli chamam também a atenção para a principal recompensa que os políticos sérios, competentes e empenhados podem receber: o reconhecimento público por um trabalho bem feito. Ora, a partir do momento em que os sucessivos governos começam a perder credibilidade é normal que pessoas sérias não se queiram enterrar no atoleiro da política. Assim, e de acordo com os autores, é de esperar que a um mau governo se sucedam uma série de desgovernos.

Lendo estes argumentos, lembro-me que, depois do último (mau) governo de Cavaco Silva, se sucederam os governos de António Guterres, que fugiu do pântano, o de Durão Barroso, que fugiu à primeira oportunidade, e o de Santana Lopes, que não fugiu mas foi despedido, primeiro pelo Presidente da República e depois pelos eleitores. Agora, temos o consulado de Sócrates, um Primeiro-Ministro que foge a algumas das suas principais promessas como o Diabo da cruz (por exemplo, o referendo sobre o Tratado Europeu ou a não subida de impostos), e que preside a um governo tão íntegro que publica portarias declarando que não vai pagar os juros prometidos aos seus credores.

No final, porém, a pergunta mais importante fica por responder: como quebrar este ciclo vicioso de governos medíocres?