I’m sentimental, if you know what I mean,
I love the country, but I can’t stand the scene
Democracy, Leonard Cohen
Falar Verdade (1)
Vítor Bento, Jornal de Negócios, 28 de Julho, 2008
É frequente ser apodado de pessimista, sobretudo quando querem desvalorizar o que digo. Não creio que o qualificativo se ajuste. Prefiro a analogia com a visão do copo meio vazio. Quem tende a ver o copo meio vazio, como é o meu caso, gostaria de o ver sempre cheio e por isso se preocupa com o seu esvaziamento. Quem tende a ver o copo meio cheio torna-se complacente com o seu esvaziamento.
Se quisermos, a primeira visão revela um sindroma de escassez, ou de formiga, e a segunda um sindroma de abundância, ou de cigarra. Acredito que o primeiro é mais propício a encher a dispensa. Assim como acredito – e a experiência mo tem mostrado – que, por muito promissor que seja o Verão, virá sempre o Inverno, para o qual é conveniente estar preparado.
Por isso, ao olhar para trás e para tudo o que passou, não vejo marcas de pessimismo no que escrevi ou disse. Mas vejo que o irresponsável optimismo de muitos e a complacente postura com o “copo meio cheio” se tem mostrado desajustada da realidade e tem ajudado ao nosso empobrecimento relativo.
Escrevi o primeiro artigo sobre a perigosa deterioração da situação económica, em Maio de 1998. De então para cá, a situação geral do País, em termos económicos, só piorou. O crescimento tem sido medíocre, temo-nos afastado significativamente da média europeia, sendo ultrapassados por novos entrantes na UE, e acumulámos défices externos que, mais cedo ou mais tarde, nos vão fazer perder o controlo das principais empresas e, consequentemente, o controlo estratégico da nossa economia, remetendo-nos à situação de mero “apêndice” político-económico.
Sobre o défice externo, em particular, escrevi o primeiro artigo de alerta em Abril de 2001, comparando o provável percurso do País com o que aconteceu ao Alentejo (de onde sou) que, “ocupando quase 30% da área e abrangendo 15% dos concelhos do País … ficou com 5% da população portuguesa, tem 4.5% do rendimento das famílias, a maior taxa de desemprego, um dos menores poderes de compra …, elege [apenas] 4% dos deputados da Nação” e tem vindo a transferir a propriedade para “não residentes”. Desde então, o desequilíbrio externo só piorou e é, na sua extensão e duração, o maior desde que há registos sistemáticos e um dos maiores do mundo comparável. E o pagamento de juros ao exterior já nos deve levar a dar mais atenção ao PNB, que já está 6% abaixo do PIB. Com a actual deterioração dos termos de troca vai piorar, e piorará mais se for avante o ambicioso programa de obras públicas.
Não está em risco a nossa existência como nação, com identidade própria e independência formal. Mas estão em risco o nosso bem-estar e a nossa relevância económica e política no Mundo. Sei que para muitos esta é uma preocupação ultrapassada e pouco consentânea com o mundo pós-moderno, onde se diz que os estados nacionais são coisa do passado. Será verdade (embora não veja que os estados com poder partilhem dessa tese), mas os estados nacionais continuam a ser um instrumento fundamental para a defesa e promoção das comunidades que representam e para assegurar a solidariedade e coesão sociais. Quanto mais fracos e impotentes forem, menos conseguirão evitar os estilhaços sociais e políticos de um darwinismo individualista que se lhes substitua, por mais socializante que seja o discurso político.
O declínio em que nos encontramos já tem tempo suficiente para não deixar nenhuma força política isenta de responsabilidades, por acção ou omissão. Não vale, pois, a pena gastar tempo e energia a atirar pedras uns aos outros, porque toda a gente tem telhados de vidro. Importa concentrar a atenção nos problemas e coordenar esforços para a sua solução. O que implica começar por falar verdade ao País. E a verdade é que o copo continua a esvaziar-se, pois vivemos há demasiado tempo acima das nossas possibilidades e essa situação não é sustentável. Que não há “pensos rápidos”, que levará anos a restabelecer os equilíbrios perdidos e que temos de mudar de vida.

O MURO DAS ANGÚSTIAS
As correntes de opinião que atravessam a sociedade portuguesa são, de forma endémica, manifestamente influenciadas pelo optimismo frequentemente postiço dos empoleirados no poder e pela amargura ansiosa dos que esperam a sua vez na roda da alternância.
Para além daqueles, há sociedade civil, um designativo abstruso porque suporia que é militar a outra, a dos políticos. Já foi, espera-se que não volte.
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De qualquer modo, a sociedade, dita civil, bebe muito daqueles que, por razões diversas, fazem uma coisa que a maior parte das pessoas julga ter: opinião.
Os líderes de opinião não comprometidos partidariamente encontram-se geralmente nas ondas pessimistas mesmo quando os ventos são de feição, a satisfação não é um estado próprio de um espírito clarividente e inquieto. Se há borrasca, as angústias bloqueiam as saídas.
É o que se passa neste momento. Só um completo destituído mental ou a viver em redoma, se não for partidário do incumbente, pode continuar a afirmar que a maré não está negra. Está negríssima.
Toda a gente o diz, e os líderes de opinião também.
O que ninguém diz é como nos safamos desta.
Não é com lamentações que se ultrapassa ou contorna o muro das angústias.
Ideias, precisam-se. E gente que seja capaz de as fazer funcionar, sobretudo.
Comment by rui fonseca — August 11, 2008 @ 8:30 pm
Muitos e sinceros parabéns, LA-C!
Caro Rui,
A coisa está preta…
“O que ninguém diz é como nos safamos desta.”
Que tal dar ouvidos aos mais pessimistas dos pessimistas, para variar? Medina Carreira, Hernâni Lopes dizem que o que temos só dá para 50% da população… Pessimismo?? Talvez realismo! Se for necessário cortar a eito para recuperar o gás, corte-se! Já fomos para terras de França buscar o emprego que aqui não havia. Vamos outra vez trabalhar nas obras em França, Suíça e Alemanha e deixemos espaço para os outros! Eu estou pronto, se tal for para o bem de Portugal e se me demonstrarem que é disso que precisamos. Isso, ou uma redução dos salários em, sei lá, 50% em 2009: o que se ganha é já uma miséria franciscana, donde a perda é pouca…
Comment by Ricky El Manco — August 11, 2008 @ 9:56 pm