O Instituto de Ciências Sociais tem vindo a organizar seminários onde historiadores apresentam exercícios de simulação para a história portuguesa do século XX, isto é, analisam e discutem os possíveis efeitos de um evento ou personagem no curso que a nossa história seguiu.

Este é um método possível para esclarecer a questão das duas crises, como lhe chamou Vasco Pulido Valente. De acordo com o Primeiro-Ministro José Sócrates, e também com alguns comentadores e analistas, não fosse a crise internacional, a economia portuguesa teria retomado uma trajectória de crescimento forte e estaria novamente a convergir para os níveis de rendimento dos países mais ricos da Zona Euro. Essa leitura baseia-se na crença de que a crise interna estará resolvida, isto é, as reformas de que a economia portuguesa precisava foram feitas pelo actual Governo. Mas a tempestade nos mercados financeiros e nos mercados petrolíferos e das matérias-primas veio precisamente na altura em que os frutos daquelas reformas iam ser colhidos.


De acordo com o método do contrafactual acima descrito, para testarmos a hipótese do Governo em relação à crise da economia portuguesa, deveríamos considerar a hipótese de que o mundo e, em particular, a nossa vizinha Espanha, continuariam a crescer a taxas semelhantes às dos últimos anos, e estimar qual seria nesse cenário a trajectória do crescimento da economia portuguesa: qual seria o comportamento das exportações portuguesas, do investimento e do consumo. Evidentemente a conclusão seria que a economia portuguesa, um pequena economia muito exposta ao choques externos, cresceria mais em 2008 do que se prevê actualmente. Deste ponto de vista, a hipótese do Governo parece correcta: a economia portuguesa vai crescer menos porque os nossos parceiros comerciais vão crescer menos e porque os preços do petróleo e os juros são mais elevados. Ou seja, a crise internacional está a contribuir para as dificuldades da economia portuguesa.

No entanto, a verificação da hipótese do Governo português implica ainda que a economia portuguesa se aproxime este ano da média da Zona Euro: se o Governo resolveu a crise interna e a preparou para enfrentar a crise financeira e petrolífera, então Portugal deverá ser menos afectado por esses choques e crescer mais relativamente aos países da Zona Euro do que nos últimos anos.

Todos desejamos que a visão do Governo esteja correcta. No entanto, tenho muitas dúvidas. As causas da estagnação da nossa economia são diversas, mas estão todas elas associadas a problemas de organização e liderança que se reflectem em baixas taxas de produtividade. O Governo português iniciou reformas importantes, mas estas para já pouco mais são do que alterações legislativas. Estas alterações são a parte mais fácil de qualquer processo reformista. Para que os resultados das reformas sejam visíveis nas estatísticas vamos ter de esperar algum tempo. Certamente para além desta legislatura, mas ainda assim isso só acontecerá se as reformas continuarem. E se existir na sociedade portuguesa um sentimento de urgência (no sentido há uns tempos atrás referido por Pacheco Pereira). A eliminação desse sentimento de urgência é o problema mais grave do discurso do Governo sobre a actual situação económica, como o recente diagnóstico da SEDES sugere.