João Pinto e Castro, com a honestidade intelectual que lhe é intrínseca, admite que está por demonstrar que as variações dos preços do petróleo se devam à “especulação”. Confesso que, para mim, é absolutamente claro que até ao momento ninguém apresentou um grama de evidência que confirme a ideia de que as subidas dos preços de petróleo são especulativas. Mas o que me chamou a atenção não foi isso. O que me chamou a atenção foi o João ter recorrido a Paul Krugman para um argumento de autoridade sobre este assunto.
Paul Krugman é, obviamente, um excelente economista. Daqueles que pode vir a ganhar o prémio Nobel (apesar de me parecer que já esteve mais perto do que está agora). Não me passa pela cabeça pôr em causa a sua autoridade enquanto (macro)economista. Mas falar dele enquanto autoridade sobre preços de petróleo? A não ser que eu me engane muito, Krugman nunca fez nada relacionado com petróleo. A sua obra é vasta, mas a sua autoridade científica sobre este assunto específico é zero.
Quando recorremos a argumentos de autoridade, tenho a ideia de que recorremos sempre às mesmas autoridades. Para alguns é o Hayek, para outros o Friedman e, entre os vivos, Paul Krugman é uma autoridade muito comum. Mas dificilmente alguém será uma autoridade em todos os assuntos. Se queremos usar um argumento de autoridade, temos primeiro de encontrar a autoridade.
Neste assunto, a maior autoridade é James Hamilton. Desde os anos 80 que estuda o assunto. Desde os anos 80 que já produziu (e ainda produz) investigação relevantíssima nesta área. Desde definir e re-definir o significado de choque petrolífero à análise empírica e teórica de como estes choques se propagam para a macroeconomia.
Fica o link para o seu último artigo sobre o assunto. Já agora, na secção sobre especulação, Hamilton termina assim: an ongoing speculative price bubble would have to result in continuous inventory accumulation, or else be ratified by cuts in production. The former is clearly unsustainable, and if it is the latter, one might make the case that the supply cuts rather than the speculation itself has been the ultimate cause of the price increase.

É um facto que James Hamilton é uma autoridade em mercados de petróleo (desde a sua tese de Phd). Não julgo no entanto necessário consultar autoridades para analisar cada facto económico. Basta apenas algum bom senso económico e conceitos básicos (do tipo de microeconomia I ou introdução à economia). É apenas com essa pretensão que Krugman tem-se referido sobre esse tema e em particular sobre comentários de alguns jornalistas e economistas (por exemplo Calvo no vox) que estudaram este assunto de forma mais ligeira.
Ainda sobre o tema que tanta controvérsia tem gerado (especulação), Hamilton foi um dos economistas que melhores argumentos (verdadeiramente económicos) apresentou a favor dos efeitos especulativos no preço do crude (aversão ao risco dos intervenientes e princípio de Hotelling). No entanto, com o decorrer da discussão entre economistas de diversas áreas, veio em parte a alterar a sua posição (re)centrando-se naquilo que sempre defendeu como principal causa do comportamento dos preços - oferta e procura.
Já agora parabéns pelos economistas de classe mundial que têm convidado para os cursos do NIPE. De ano para ano fica mais surpreendente.
(parece ser extremamente difícil para muitas pessoas, entre as quais Krugman e eu mesmo, interpretar o funcionamento dos mercados à vista e a prazo de petróleo. para perceber os mecanismos de arbitragem que existem no mercado e quais os custos de oportunidade de armazenar ou não petróleo, o último artigo de Randy Waldman será uma ajuda preciosa (no seu blogue interfluidity))
Comment by Tiago Tavares — June 28, 2008 @ 2:07 pm
Olá Tiago,
Concordo contigo, não precisamos de autoridades para discutir qualquer coisita. O bom senso costuma ser bem melhor conselheiro.
Apenas quis dizer que se apelamos a argumentos de autoridade então devemos primeiro tentar obter quais são as verdadeiras autoridades sobre cada assunto.
Comment by LA-C — June 28, 2008 @ 2:50 pm
Desde que este assunto passou a estar na ordem do dia que tenho reflectido sobre ele nas minhas palavras cruzadas. E, como é meu hábito, vou entrelinhando aquilo que penso com aquilo que leio. Transcrevi Paul Krugman mas também Robert Reich, que tem opinião diferente.
Mas desde o início que tenho fixado as minhas conclusões à volta daquilo que me foi dado apreender ao longo de muitos anos que trabalhei no negócio de commodities. O petróleo assume aspectos específicos? Sem dúvida. Mas o comportamento dos preços de mercado (spot, e por via deles os dos contratos a prazo)não se desvia significativamente do padrão observado no mercado de commodities em geral.
Há especulação em stocks que, no entanto é limitada pelas capacidades de açambarcamento.
Num mercado de commodities (renováveis, sobretudo) em que a rentabilidade atrai investimentos que, temporariamente tornam excessiva a oferta, ocorre mais tarde ou mais cedo a inversão e os preços caem ficando os especuladores sentados em stoks a preços elevados.
Neste caso, o mercado do crude tem especificidades que não conduzem aos mesmos resultados.
Comment by rui fonseca — June 28, 2008 @ 2:58 pm
Rui Fonseca, parece-me que estou de acordo consigo. Claro que terá de se fazer as ligações aos mercados de futuros e de outros derivados para se ter uma ideia global de todo este assunto. Mas o nível de stocks constituirá sempre um entrave explícito a uma especulaçao desenfreada.
Tiago, esqueci-me de lhe agradecer os parabéns que nos endereça. O nome do próximo ano ainda não está confirmado, pelo que não o posso adiantar. Mas se se confirmar quem temos em mente, não é no próximo ano que o nível vai cair.
Comment by LA-C — June 28, 2008 @ 4:13 pm
É sempre bom ouvir notícias de sucessos de portugueses no estrangeiro (e em casa, também); mas melhor ainda quando esses sucessos não se circunscrevem aos estádio de futebol.Permito-me felicitá-lo também, LA-C.
Já agora, e quanto aos investimentos em futuros e outros derivados, aquilo que retive do que observei, leva-me a concluir que eles terão um efeito estabilizador da volatilidade dos preços e não um efeito especulativo sobre os mesmos em contratos a prazo e não conclui que possam ter efeitos sobre os preços spot. Teoricamente os mercados de futuros e derivados podem funcionar sem a execução de qualquer contrato. São operações fundamentalmente financeiras e o seu impacto circunscreve-se ao risco que se transfere e aos ganhos e perdas de quem aposta.
Mas, reconheça-se, há muita gente que discorda desta perspectiva e tem havido pressões sobre os gestores de fundos (nomeadamente de fundos de pensões) no sentido de reduzirem os seus investimentos em operações destas.
Comment by rui fonseca — June 28, 2008 @ 8:52 pm
“sem a execução de qualquer contrato”
Pf. entenda-se qualquer contrato de fornecimento de crude ou qualquer outra commodity.
Comment by rui fonseca — June 28, 2008 @ 8:55 pm
Caro Luís,
Sei mui pouco de petróleo. Já ganhei muito dinheiro com o petróleo. E terá sido das muitas poucas classes de activos em que nunca perdi dinheiro. Jamais me vi como especulador.
Estou a gostar muito deste vosso debate. Fico porém sem saber a culpa da especulação. Se é pelo aumento do preço ou pelo aumento da variabilidade do preço.
O aumento sustentado do preço deve ter razões que a economia real deve saber explicar.
O aumento da variabilidade tem outras. Entre as quais deve estar o facto como alguém observava recentemente, se parecer cada vez mais com a variabilidade do preço das acções.
É que a variabilidade do preço das acções também já foi baixa. Tão baixa quanto já foi a variabilidade do preço do petróleo. A variabilidade do preço duma participação numa “comanditta” veneziana no século XVI ou XVII deve ter sido mesmo muito baixa. Porque aquela “comanditta” se destinava a financiar uma viagem naquele ano ao Mar Báltico, para levar seda e trigo e trazer arenque fumado. Com os riscos usuais de tempestades, piratarias, escorbuto e motins a bordo.
Ora como o Luís bem sabe, o preço duma acção do BCP não diz respeito só aquela acção que se troca. Diz respeito a todo o capital social de que aquela acção é uma fracção. Por isso, o preço daquela acção deve reflectir todos os factores possíveis que determinam o valor do capital social total. Que por serem muitos mais do que os poucos factores que afectam uma só acção, provocam tanta instabilidade no preço.
O aumento da variabilidade do preço do petróleo deve ter a ver com o mesmo. É que o preço de cada barril tem vindo a ser cada vez menos o preço daquele barril. Tem passado a ser também o preço dum dos muitos barris com que são medidas as reservas totais e conhecidas das ramas com tal viscosidade e tal teor de enxofre.
No fundo, a maior variabilidade do preço é a medida da nossa cada vez maior ignorância. Porque sobre a formação dos preços parece que sabemos cada vez mais. Se a Natureza nos deixar…
Obrigado.
Comment by F — June 30, 2008 @ 11:46 am
A referência à “autoridade” pretendia ser irónica, Luis. Em geral, acho que não devemos atribuir demasiada importância a argumentos de autoridade, excepto de modo condicional e provisório, e apenas na medida em que um especialista é suposto estar em melhores condições para opinar de forma válida. Ainda assim, parece-se claro que o Krugman é relativamente mais fiável do que os comentadores que temos ouvido afirmar sem mais que a especulação é responsável pelo actual preço do petróleo.
Comment by João Pinto e Castro — June 30, 2008 @ 12:07 pm
A ironia tinha-me escapado, mas estou contigo no argumento principal.
Comment by LA-C — June 30, 2008 @ 12:11 pm
Não conhecia o Prof. James Hamilton, mas fiquei extremamente bem impressionado (e esclarecido) com o artigo que neste post foi apresentado. Obrigado por tê-lo dado a conhecer!
Comment by Miguel Faria e Castro — July 14, 2008 @ 6:43 pm