A angústia do economista antes do penálti
Público, Sexta, 27 de Junho de 2008
Os modelos que os economistas usam são simplificações de realidades complicadas. Uma das simplificações mais criticadas é a da racionalidade dos agentes económicos. Levado ao extremo, este pressuposto implica que, perante a informação disponível, cada pessoa em cada momento faz escolhas óptimas. A ideia tem um sabor darwinístico: num mercado competitivo, quem não optimize os seus recursos será derrotado. Mas como saber se este pressuposto é razoável? A maioria das vezes as realidades humanas são demasiado complexas para se conseguir reunir provas concludentes que confirmem ou desmintam um dado modelo económico. Valha-nos o futebol, com regras tão simples que qualquer economista as consegue entender.
Ignacio Palacio-Huerta, professor na Universidade de Brown, apercebeu-se de que a interacção estratégica entre o marcador de um penálti e o guarda-redes é um laboratório perfeito para se testar alguns teoremas clássicos da Teoria dos Jogos, um dos ramos da Ciência Económica. Palacio-Huerta testou as implicações do teorema do minimax, demonstrado por John Von Neuman em 1928, com aplicação a jogos em que os jogadores têm interesses opostos. O jogo é simples. O marcador do penálti tem de decidir se chuta para a direita ou para a esquerda (penáltis à Panenka ficam para Hélder Postiga). Simultaneamente, o guarda-redes tem de escolher o lado para onde vai mergulhar. Se os jogadores forem racionais, quais serão as suas escolhas?
Comecemos pelo atacante. Se o atacante seguir a estratégia óptima, chutará mais vezes para o seu lado mais forte, mas também rematará para o seu lado mais fraco a fim de apanhar o guarda-redes desprevenido. Exemplificando: imagine o leitor que quando o Ronaldo marca um penálti para a esquerda marca 95% das vezes e que quando chuta para a direita marca apenas 50%. Nesse caso, o Ronaldo deve passar a rematar mais vezes para a esquerda. Mas, se o fizer, os guarda-redes também se atirarão mais vezes para esse lado. Assim, a probabilidade de marcar quando chuta para a esquerda vai diminuir. Já a probabilidade de marcar quando chuta para a direita aumentará. Matematicamente, demonstra-se que a solução óptima corresponde a uma estratégia mista: a proporção de vezes que chuta para a esquerda e para a direita deve ser tal que, no momento do chuto, as probabilidades de golo sejam iguais quer chute para um lado quer chute para o outro. Um raciocínio semelhante aplica-se aos guarda-redes, concluindo-se que, se estes seguirem a estratégia óptima, a probabilidade de defesa é independente do lado que escolhem. A hipótese de racionalidade leva-nos ainda mais longe: as escolhas dos jogadores devem parecer aleatórias para que o adversário não consiga adivinhar o lado correcto.
Palácios-Huerta observou vídeos de todos os penáltis marcados entre 1995 e 2000 nos principais campeonatos europeus (Itália, Inglaterra e Espanha). Regra geral, guarda-redes e bola voam para o mesmo lado metade das vezes. A taxa de sucesso quando o atacante engana o guarda-redes é de 100% (excluindo os casos em que não acerta na baliza). Quando o guarda-redes acerta com o lado, consegue defender cerca de 40% dos remates. Em média, 80% dos penáltis resultam em golo.
Regressando à matemática, as implicações do teorema foram testadas e confirmadas: os marcadores de penáltis escolhem o lado para onde atiram a bola de tal forma que a probabilidade de marcar golo é praticamente igual quer chutem para a esquerda quer para a direita. A probabilidade de um guarda-redes defender o chuto é também igual, quer se atire para a esquerda quer para a direita. Finalmente, não vale a pena tentar prever se o remate vai para um lado ou para o outro, ou para que lado mergulhará o guarda-redes. Tal como se previa, essas decisões são imprevisíveis. Ou seja, mesmo sem fazerem cálculos elaborados, no momento do penálti, os melhores jogadores são estrategas exímios.

Há muitos jogadores que marcam penalties para o centro da baliza. Precisamos de um modelo mais sofisticado…
Já agora, uma pergunta para os economistas de serviço: a conjugação economia + futebol prevê externalidades positivas geradas por uma eventual vitória da Espanha no Euro? Por outras palavras, haverá ganhos inesperados para Portugal como resultado das alegrias da bola em Espanha?
Comment by Fernando — June 27, 2008 @ 10:05 pm
“Há muitos jogadores que marcam penalties para o centro da baliza. Precisamos de um modelo mais sofisticado…”
Estás enganado, menos de 3%. Mas o modelo considerava essa estratégia também (se não era o do artigo que cito era de outro, mas lembro-me que pelo menos um dos modelos tinha isso em consideração). No meu artigo é que nada se ganhava em considerar também essa estratégia. O raciocínio é análogo.
Não haverá ganhos nenhuns com a vitória dos espanhóis, parece-me.
Comment by LA-C — June 27, 2008 @ 10:31 pm
«Uma das simplificações mais criticadas é a da racionalidade dos agentes económicos. Levado ao extremo, este pressuposto implica que, perante a informação disponível, cada pessoa em cada momento faz escolhas óptimas.»
A mim, o conceito de racionalidade económica que venderam foi que os agentes perante as mesmas circunstâncias escolhem sempre da mesma maneira. Se tal não acontece é porque houve uma alteração na percepção da informação ou nas preferências dos agentes. Isto torna o conceito de racionalidade mais robusto ainda que não adiante grande coisa na altura de estudar problemas económicos.
Comment by Tarzan — June 30, 2008 @ 9:24 am
“Não haverá ganhos nenhuns com a vitória dos espanhóis, parece-me.”
Concordo em absoluto!
Excelente artigo: nunca havia pensado no penálti como um jogo estratégico, mas faz todo o sentido. Falta contudo o elemento força: se este for considerado, até pode ser correcto rematar para o centro, desde que com uma força descomunal! Também o remate tipo chapéu, ensaiado por Puskas e mais recentemente por H. Postiga aumenta a complexidade do problema, pois aumenta o cardápio de escolhas do jogador na hora H.
De qualquer forma, excelente: será que esta forma de pensar se aplica a outras sitções como a defesa estratégica do nosso país perante ameaças múltiplas? Como diz o General Loureiro dos Santos, o produto de probabilides por intenções, ponderado pelo fanatismo religioso e potenciado pelo choque civilizacional, exige uma resposta calibrada pelo equilibrio estratégico global. Parece-me, se pretender ser especialista, que estas suas considerações poderão pois ter uma alicação directa na área da defesa.
Comment by Viriato 73 — July 1, 2008 @ 4:54 pm
“Não haverá ganhos nenhuns com a vitória dos espanhóis, parece-me.”
Concordo em absoluto!
Excelente artigo: nunca havia pensado no penálti como um jogo estratégico, mas faz todo o sentido. Falta contudo o elemento força: se este for considerado, até pode ser correcto rematar para o centro, desde que com uma força descomunal! Também o remate tipo chapéu, ensaiado por Puskas e mais recentemente por H. Postiga aumenta a complexidade do problema, pois aumenta o cardápio de escolhas do jogador na hora H.
De qualquer forma, excelente: será que esta forma de pensar se aplica a outras sitções como a defesa estratégica do nosso país perante ameaças múltiplas? Como diz o General Loureiro dos Santos, o produto de probabilides por intenções, ponderado pelo fanatismo religioso e potenciado pelo choque civilizacional, exige uma resposta calibrada pelo equilibrio estratégico global. Parece-me, se pretender ser especialista, que estas suas considerações poderão pois ter uma alicação directa na área da defesa.
Comment by Viriato 73 — July 1, 2008 @ 4:56 pm