O recente aumento dos preços e a independência dos bancos centrais
A forma como os bancos centrais intervêm na economia sofreu importantes alterações desde os anos 80. Essas alterações têm sido consideradas, pela generalidade dos economistas, como muito benévolas para o desempenho das economias dos principais países industrializados. De facto, o período que decorreu entre meados dos anos 80 e o início dos anos 2000 caracterizou-se por um período de grande estabilidade macroeconómica, crescimento vigoroso e baixas taxas de inflação. De entre as causas que terão contribuído para aquele excelente desempenho económico, para além da acção estabilizadora dos bancos centrais, tem sido destacada a ausência de choques petrolíferos e os efeitos positivos da globalização, nomeadamente o acesso a produtos mais baratos produzidos na China e na Índia.
Nos anos 70, o fim de Bretton Woods e da convertibilidade do dólar, que deixaram a política monetária sem uma âncora e muito exposta aos interesses de curto prazo dos governos, conjugados com os choques petrolíferos de 73, 79 e 80, resultaram num cenário macroeconómico considerado até então pela generalidade dos economistas como altamente improvável: desemprego a aumentar e taxas de inflação galopantes. Estagflação foi o termo cunhado pelos economistas para designar aquela combinação. Alguns chamaram à sua soma o índice da miséria.
Este índice da miséria, que tinha vindo a diminuir desde meados dos anos 80, voltou a aumentar nos últimos anos. A causa desse aumento é a coincidência da crise financeira com o aumento do preço do petróleo, das matérias-primas e dos bens alimentares. Apesar das semelhanças com o cenário macroeconómico dos anos 70, há diferenças importantes a registar. Uma dessas diferenças é a forma de actuação dos bancos centrais. O mau desempenho das economias naquele período, por um lado, e os avanços da ciência económica, por outro lado, mostraram que o controlo da inflação com taxas de câmbio flexíveis só é possível se os Bancos Centrais conseguirem estabilizar as expectativas dos agentes em relação à inflação. Daqui resultou que a credibilidade e a independência dos interesses de curto prazo do poder político se tornaram elementos centrais na actuação dos bancos centrais.
Desde essa altura, a estabilidade dos preços passou a ser o objectivo primordial da política monetária. Nos anos 90, a generalidade dos bancos centrais dos países industrializados, incluindo o Banco Central Europeu elegeram a estabilidade dos preços como o seu principal objectivo. Esta estratégia, a que se chamou Inflation Targeting, alcançou até recentemente um sucesso assinalável. Por exemplo, Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, afirmou há poucos dias que, nos 10 anos da sua existência, a taxa de inflação média da Zona Euro foi 2,1%. O objectivo é 2%.
Durante alguns anos o preço do petróleo aumentou sem que fosse visível nas taxas de inflação da Zona Euro e da economia americana. A explicação para esse facto é que a subida do preço do petróleo foi durante os primeiros tempos vista como transitória e, por isso, foi possível conter as expectativas inflacionistas e o aumento dos salários. No entanto, os agentes parecem começar a interiorizar a ideia de que a subida do preço do petróleo, tal como o de muitas matérias-primas e bens alimentares, poderá ter um carácter permanente. As empresas e os consumidores já interiorizaram esse facto e esperam por isso preços mais elevados no futuro. Essa alteração nas expectativas é visível, nos mercados financeiros, no aumento das taxas de juro de longo prazo, mas também nas ruas, onde o descontentamento com o aumento dos preços tem tomado forma nas recentes manifestações dos sectores que têm os combustíveis como um dos principais custos de produção.
As crescentes pressões inflacionistas, e a divergência das taxas de inflação em relação ao seu objectivo, colocam em causa a credibilidade dos bancos centrais e a sua capacidade de estabilizar as expectativas e, assim, a taxa de inflação, aumentando a probabilidade de uma subida das taxas de juro num futuro próximo. Esta é a explicação para as repetidas ameaças de um aumento das taxas de juro por Jean-Claude Trichet e, mais recentemente, por Ben Bernanke. O presidente da Reserva Federal, depois dos cortes históricos entre Agosto do ano passado e Março deste ano, declarou no início de Junho que os riscos de uma recessão muito grave nos Estados Unidos tinham diminuído e ameaçou subir as taxas de juro para fixar as expectativas inflacionistas. As últimas declarações dos responsáveis do BCE e da Reserva Federal sugerem que na ponderação dos riscos a inflação tem vindo a ganhar face à recessão.
O grande desafio dos bancos centrais europeu e americano é conseguir conter as expectativas inflacionistas, e evitar assim um aumento em espiral dos preços e dos salários, sem de facto aumentar significativamente as taxas de juro.
De facto, a ameaça de recessão continua a pairar sobre a economia americana e europeia e um aumento das taxas de juro neste contexto irá agravar as condições da actividade económica. Embora a estabilidade dos preços seja o principal objectivo dos bancos centrais, o seu objectivo último é o bem-estar das sociedades, o que significa que aqueles não são indiferentes à evolução do produto (nas palavras de Mervyn King, presidente do banco de Inglaterra, não são ‘inflation nutters’). Numa situação de recessão, a percepção pela opinião pública de que os bancos centrais não estão a fazer tudo o que está ao seu alcance para ajudarem a ultrapassar a crise pode colocar em causa a sua independência do poder político. Esse risco é mais elevado para o Banco Central Europeu, cujo mandato estabelece uma clara prioridade da estabilidade dos preços sobre o produto ou o emprego, ao contrário do que acontece com o Banco Central americano.
A actual crise será assim o grande teste à reforma institucional dos bancos centrais, iniciada nos anos 80, e ao Banco Central Europeu que este ano comemora 10 anos de existência.

É interessante a perspectiva que fornece em relação à necessidade de estabilizar as expectativas dos agentes em relação à inflação. Mas fico com a dúvida: não seria então mais fácil anexar a moeda a algo palpável (ouro) de forma a estabilizar definitivamente o seu valor? As grandes críticas que ouço em relação a este modelo têm que ver com a necessária deflação que ele gera, mas, e agora fala a minha ignorância económica, e daí? Qual é o problema de os preços descerem (em termos reais, e não apenas nominais)?
Comment by paulo gonçalves — June 25, 2008 @ 2:18 am
É frequente afirmar-se que BCE e Fed se distinguem pela restrição das atribuições do primeiro, que se limitam à contenção da inflação, e pala maior amplitude das atribuições do segundo que deve conciliar a travagem dos preços com o crescimento económico. A crítica parecia pertinente até ao momento em que o fantasma inflacionista espreita e o crescimento desmaia. Que pode fazer nestas ocasiões a Reserva Federal dos EUA? É o que vão discutir hoje a manhã os 12 membros da FOMC (Federal Open Market Comission), dos quais 5 são presidentes dos bancos centrais regionais. Compete à FOMC decidir a políitica monetária do país.
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A actual organização da Fed vem de 1913 quando o Congresso, receando a concentração do poder financeiro em Washington ou Nova Iorque, criou bancos regionais abrangendo todos os EUA. Bernanke, o actual presidente da Fed, tem por hábito ser o último a usar da palavra nas reuniões da comissão. O seu antecessor, Greenspan, falava em primeiro lugar de modo a influenciar no sentido que pretendia os voros dos restantes membros. O temperamento de Bernanke numa conjuntura caracterizada por inflação à vista e a economia débil, dá fôlego às opiniões contrárias e, nomeadamente, dos governadores regionais da Fed. Estes são eleitos pelos banqueiros e homens de negócios da região, que privilegiam normalmente a contenção da inflação.
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Quando a inflação está em crescendo ou a economia em queda, as diferenças de opinião entre os membros da comissão, quando existem, são de pormenor. Quando, porém, como na situação actual os dois males ocorrem em conjunto, as divergências emergem.
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Durante os últimos 10 meses Bernanke cortou a taxa de juro de intervenção da Fed com o objectivo claro de espevitar a economia e evitar uma depressão profunda. Mas pelo menos um membro da comissão votou contra nas últimas sete reuniões e outros dois fizeram o mesmo nas duas reuniões mais recentes. Vários membros vêm repetidamente argumentando que a inflação é uma ameaça em crecendo que tem de ser prioritariamente atacada. Richard Fisher, o presidente da Fed em Dallas, enalteceu nos primeiros dias deste mês a forma como o presidente do BCE tem travado o crescimento da inflação na União Europeia, em nítido contraste com a política de Bernanke. O descontentamento dos governadores, à excepção do presidente da Fed de Nova Iorque alarga-se à intervenção de Bernanke no sistema financeiro ao safar o Bear Stearns, à beira da falência.
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Tudo conjugado, da reunião em curso deverá sair a notícia da não alteração da actual taxa de 2 por cento e o aviso à navegação que para a próxima poderá haver subida porque a inflação começa a ser muito preocupante.
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Razão tem o Trichet. Quando chega a hora da verdade, há diferenças em quê?
Comment by rui fonseca — June 25, 2008 @ 2:35 am
Mais informação em
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/06/23/AR2008062302174.html
Comment by rui fonseca — June 25, 2008 @ 2:44 am
So’ um pequeno aviso aos leitores. O Fernando esta’ neste momento numa conferencia fora de Portugal, pelo que nao devem interpretar possiveis faltas de resposta como falta de interesse.
De certeza que logo que tenha tempo ele vos respondera’.
Comment by LA-C — June 25, 2008 @ 9:52 am