Enquanto aguardo o regresso da minha filha (6/19: já regressou “;o)), em visita de estudo às ilhas Ryukyu, e as muitas histórias e imagens que terá decerto para contar e mostrar, volto a ouvir os CDs de música de Okinawa que fui adquirindo em viagens ao Japão. As aquisições foram feitas com base na intuição, pois na altura tinha uma ideia muito vaga sobre a cultura das Ryukyus e o seu conturbado percurso no Japão moderno. À medida, porém, que fui lendo e ouvindo com mais atenção, acabei por não me arrepender da escolha, em particular do CD Ikawu das Nênês (lê-se “nênêzu” em japonês; a palavra significa “irmãs” na língua de Okinawa), um dos grupos mais bem sucedidos de música tradicional de Okinawa.

Bem, apesar do uso ser corrente, “Okinawa” não é de facto o termo mais correcto para definir esta sequência de ilhas tropicais que se estende desde o sul de Kyushu até muito perto de Taiwan. Okinawa é o nome da ilha principal, tendo Naha como capital. As Ryukyus constituem uma excepção à mui apregoada homogeneidade étnica e cultural do Japão. Na verdade, só em finais do séc. XIX é que o arquipélago se tornou parte integrante do Japão. Entre os séculos XV e XVII, os habitantes de Ryukyu, unidos sob uma monarquia, atravessavam incessantemente os mares para comerciarem com várias regiões do Japão, da China e da Coreia, ao mesmo tempo que colhiam aí influências que viriam a enriquecer as suas muitas artes e ofícios, desde a tecelagem e a cerâmica até à dança e à música. Em inícios do séc. XVII o reino das Ryukyus cai sob o controlo do clã Shimizu do sudoeste do Japão, sendo os seus habitantes convertidos em vassalos de um poderoso vassalo do shogun de Edo. Em 1868, ano que marca o início efectivo da Restauração Meiji, Edo torna-se Tóquio e, no ano seguinte, o Castelo de Edo transforma-se no Palácio Imperial do jovenzinho que ficará a ser postumamente conhecido por Imperador Meiji. Não tardará muito a que Okinawa seja integrada, como prefeitura, no fortemente centralizado e burocrático aparelho do Estado Meiji, e objecto de “medidas disciplinares” especiais que procurarão suprimir as culturas, línguas e dialectos das Ryukyus. Na fase final da Guerra do Pacífico, o território de Okinawa será usado como escudo para retardar a derrota dos japoneses da mainland e do seu imperador. Depois da rendição, a terra queimada e pejada de cadáveres de Okinawa é cedida aos Estados Unidos, que a passam a ocupar indefinidamente. Okinawa volta a ser conhecida pelo nome de “Ryukyus” e o arranjo vigorará até 1972, ano em que as ilhas são reintegradas no Japão como “Prefeitura de Okinawa”. Os americanos, porém, continuarão a manter - até hoje - um pesado contingente militar na região, apesar dos frequentes protestos das populações locais. E assim acontece.

Aqui deixo um vídeo da participação das Nênês num festival de música dedicado às Ryukyus. Deixo também uma outra sugestão de um tema que será decerto familiar a muitos leitores, em virtude da colaboração do grupo com Ryuichi Sakamoto nos anos 90. “Asadoya Yunta” é uma das folksongs mais emblemáticas das Ryukyus.