
Acabo de ler, perplexa, esta entrada no abnoxio, um dos poucos blogues que ainda vou lendo com regularidade. O texto traz à cabeça o célebre artigo 9.º da Constituição Japonesa e remata com o seguinte comentário do autor:
Repare-se como, depois de Hiroxima e Nagasaki, os japoneses se converteram ao pacifismo. Espero que os irlandeses tomem juízo e não nos obriguem a tanto…
Não vou comentar a comparação infeliz e despropositada que é feita com a recente situação irlandesa (por muito preocupante que a possamos achar). Apenas gostaria de lembrar o Ademar e outros leitores distraídos de que o pacifismo japonês está, infelizmente, longe de ser um dado adquirido nos tempos que correm, a avaliar pelas subtis mas persistentes tentativas da direita ultranacionalista no poder para "rever" a lei constitucional - em particular o seu art. 9.º - e para alterar, em conformidade, a Lei Fundamental da Educação, de molde a facilitar a manipulação ideológica das futuras gerações de japoneses e o branqueamento da História. Perante isto, resta a esperança de que iniciativas como esta possam surtir algum efeito nas consciências cívicas, não só no plano nacional como também no internacional, apesar da pouca atenção que têm recebido nos media.
Deixo aqui para reflexão o apelo da "Associação Artigo Nove", pela qual têm dado a cara vários filósofos, constitucionalistas e autores japoneses, nomeadamente o Nobel da Literatura Kenzaburo Oe. O apelo já tem quatro anos, mas mantém toda a sua actualidade e urgência. Uma mensagem que só posso subscrever na íntegra.
An Appeal from the “Article Nine Association”
The Japanese constitution now faces a great challenge.
Through the use of weapons reaching the cruelty of the atomic bombs of Hiroshima and Nagasaki, the Second World War claimed over fifty million lives. As a result, the citizens of the world learned the lesson that resorting to force should never be an option, even for the purpose of resolving international disputes.
Bearing an enormous responsibility for having continuously pursued a war of invasion, Japan decided to work towards realizing this global vision, and thus established a constitution including Article Nine which stipulated the renunciation of war and of military force.
Yet today, half a century later, the movement to “revise” the Japanese constitution, and Article Nine in particular, has risen to the forefront with an unprecedented scale and intensity. The proponents of that movement intend for Japan to follow the United States and change into a “war-waging country.” For that reason, they authorize the use of the right to collective self-defense, dispatch the Japanese Self Defense Forces overseas, allow their use of force, and commit other such actions that, for all intents and purposes, violate the restrictions of the constitution. Moreover, they are trying to do away with such important measures and policies as the three non-nuclear principles and the ban on arms exports. Finally, in order to raise children to become leaders of a “war-waging country,” they are trying to change the Fundamental Law of Education. This essentially alters the state of the nation that the Japanese constitution has aimed to achieve, threatening to convert Japan from a country that strives to resolve conflicts without military force to a nation that prioritizes military action above all else. We cannot allow that conversion to occur.
The United States’ attack on Iraq and the morass of the occupation that followed makes it clearer to us day by day that the resolution of conflict through force is unrealistic. The use of force only results in robbing a country and its people of their livelihood and of their happiness. Since the 1990s, armed interventions by major nations into regional conflicts have also failed to result in effective resolutions. That is why, in such places as Europe and Southeast Asia, efforts are being strengthened to create regional frameworks that can help to resolve conflicts through diplomacy and dialogue.
Today, as we question our path in the 21st century based on the lessons of the 20th, the importance of grounding diplomacy on Article Nine emerges with renewed clarity. To call the dispatch of Self Defense Forces into countries that do not welcome it an “international contribution” is nothing more than arrogance.
Based on Article Nine, Japan needs to develop ties of friendship and cooperation with the peoples of Asia and other regions, and change a diplomatic stance that only prioritizes a military alliance with the United States. Japan must play an active role in the tide of world history by exercising its autonomy and acting in a pragmatic manner. It is precisely because of Article Nine that Japan can engage its partner nations in peaceful diplomacy while respecting their various positions, and collaborate with them in the fields of economy, culture, science and technology.
In order to join hands with all peace-seeking citizens of the globe, we feel that we must strive to shine the light of Article Nine upon this turbulent world. To that end, each and every citizen, as sovereign members of this country, needs to personally adopt the Japanese constitution, with its Article Nine, and reaffirm their belief in it through their daily actions. This is a responsibility that the sovereign members share for the future state of their country. Thus, in the interest of a peaceful future for Japan and the world, we would like to appeal to each and every citizen to come together for the protection of the Japanese constitution: You must begin making every possible effort to thwart these attempts at “constitutional revision,” and you must begin today.
June 10, 2004
Hisashi Inoue (author) Takeshi Umehara (philosopher) Kenzaburo Oe (author) Yasuhiro Okudaira (constitution scholar) Makoto Oda (author) Shuichi Kato (critic) Hisae Sawachi (author) Shunsuke Tsurumi (philosopher) Mutsuko Miki (UN Women’s Society)
Nota: Espero que o Ademar me perdoe o uso da imagem retirada do abnoxio e que reproduzo acima.

DK, parece-me que quem leia a tua entrada fica com a ideia de que o Ademar concorda com as ameaças que são feitas aos irlandeses. Ora, parece-me que o Ademar pretende dizer precisamente o oposto.
Comment by LA-C — June 14, 2008 @ 6:23 pm
Pois eu continua a achar que a entrada é, nesse aspecto, de muito mau gosto. Há assuntos que são demasiado sérios para serem objecto de certo tipo de ironia, que pode não ser compreendida por todos (esp. por aqueles que não estão habituados ao peculiar sentido de humor do abnoxio).
De qualquer modo, essa questão é um pouco “beside the point”, porque o que despertou a minha perplexidade foi a candura com que se assumiu que o Japão se converteu definitivamente ao pacifismo. Acho que temos andado um pouco distraídos em relação à Ásia…
Comment by DK — June 14, 2008 @ 10:49 pm
Hmmm, tanto quanto sei o Japão não se “converteu” a pacifismo nenhum. Essa “cláusula” foi imposta pelo armistício no final da 2ª Guerra Mundial. Aliás, a ideia era impô-la igualmente à Alemanha (e durante bastantes anos a Alemanha, à imagem do Japão, também dispôs apenas de uma força de defesa nacional) mas com a Guerra Fria e duas Alemanhas, a coisa caiu em saco roto.
Aliás, só estando consideravelmente desatento à história do Japão é que se acha que se vai tornar num país “pacifista”.
Comment by Carlos Duarte — June 15, 2008 @ 8:55 am
Certo, Carlos, a Constituição japonesa foi imposta pelas forças de ocupação americanas no pós-guerra e permaneceu inalterada desde 1947. Temos, porém, de ter algum cuidado com os usos dados a esta argumentação, pois o tal carácter imposto e “estrangeiro” tem servido justamente à extrema direita como pretexto para “rever” o art. 9.º e moldá-lo aos seus intentos, passando assim uma esponja pelo passado militarista do Japão.
Como diz um dos entrevistados no excelente documentário do realizador americano Jonh Junkerman, “Japan’s Peace Constitution” (http://www.cine.co.jp/kenpo/english.html; http://jp.youtube.com/watch?v=MLMi96w4WgA ), o Japão pediu de facto desculpa pelas atrocidades cometidas na Ásia: essa desculpa é o art. 9.º da sua Constituição. Eliminá-lo equivale a retirar o pedido e será decerto encarado pelos países asiáticos vizinhos como um gesto de provocação, se não mesmo de agressão, que poderá levar a uma corrida aos armamentos, nomeadamente na China e na Coreia. É por isso que eu não vou na conversa da necessidade de remilitarização do Japão para fazer face aos potenciais perigos de uma China “sedenta de vingança”. É uma lógica muito, muitíssimo perigosa. Se é certo que o passado militarista do Japão não foi esquecido na Ásia e é ainda hoje objecto de desconfiança, isso só vem reforçar a necessidade de o país conjugar esforços para cultivar boas relações com os povos asiáticos que agrediu anteriormente, e não armar-se até aos dentes contra eles. Teria decerto muito mais a beneficiar se investisse com mais convicção a esse nível, em vez de colar-se servilmente à política externa norte-americana, a qual continua hipocritamente a manipular o Japão ao sabor dos seus interesses estratégicos. Recomendo, a propósito, este interessantíssimo artigo recente de Kazuo Ogoura, o actual e insuspeito presidente da Japan Foundation, onde ele analisa algumas das consequências adversas dessa colagem do Japão aos Estados Unidos: http://search.japantimes.co.jp/mail/eo20080613ko.html. Uma lição que deveria servir a muitos outros países .
Comment by DK — June 15, 2008 @ 10:07 am
Tudo isto para dizer que o problema da “revisão” do art. 9º. não é uma mera questão interna que só ao Japão diz respeito. É um problema internacional, não só geopolítico como também de memória e responsabilidade histórica.
Comment by DK — June 15, 2008 @ 10:16 am
Cara Daniela,
Certo. O meu ponto não era tanto sobre se é positivo ou negativo a “reformulação” desse artigo, mas antes que o próprio artigo é, de certo modo, conta-natura.
O Japão é uma nação de tradição bélica por natureza e esse artigo só existe por imposições externas. Aliás, a “confusão” habitual com as inconvenientes visitas de altos dignatários ao santuário de Yasukuni é um exemplo disso mesmo.
Em relação ao tal artigo, suponho que é uma questão de tempo até ao mesmo ser removido do texto constitucional. Aliás, o mesmo é perfeitamente inóquo e representa apenas uma bonita “intenção”. Se as coisas chegassem mesmo a “aquecer”, o artigo rapidamente iria às malvas.
Pessoalmente, assusta-me consideravelmente mais um excesso (previsível) de influência da China no futuro que uma possível remilitarização (no bom sentido, normal, de manter umas forças armadas e não apenas uma força de auto-defesa) do Japão.
Comment by Carlos Duarte — June 16, 2008 @ 11:15 am
Caro Carlos:
Vamos por partes.
“Certo. O meu ponto não era tanto sobre se é positivo ou negativo a
“reformulação” desse artigo, mas antes que o próprio artigo é, de certo
modo, conta-natura. O Japão é uma nação de tradição bélica por natureza e esse artigo só existe por imposições externas. Aliás, a “confusão” habitual com as inconvenientes visitas de altos dignatários ao santuário de Yasukuni é um exemplo disso mesmo.”
Pois eu discordo em absoluto dessa sua afirmação de que a tradição bélica é parte integrante da natureza do Japão, desde logo porque não sei o que é essa “natureza”. Se há algo que caracteriza a identidade japonesa moderna é, justamente, a indefinição e a volatilidade… E é curiosa essa sua preocupação em sublinhar que o art. 9º. só existe por “imposições externas”.
Já pensou bem que a determinação da direita japonesa em “rever” a lei constitucional também é, em grande medida, uma imposição externa - de
Washington, mais uma vez, claro (veja-se, a título de exemplo, estas cândidas declarações de Powell e Armitage em 2004:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/3561378.stm)? Pois é, a História tem destas ironias!
“Aliás, a “confusão” habitual com as inconvenientes visitas de altos
dignatários ao santuário de Yasukuni é um exemplo disso mesmo.”
Ah, Yasukuni… Ainda bem que toca no assunto, porque ando há semanas para
escrever uma entrada a propósito, mas ainda não sei como fazê-lo, dada a
complexidade do tema. De qualquer modo, devo dizer-lhe que discordo, mais
uma vez, da sua afirmação. A polémica em torno das tais visitas a Yasukuni
não é, de todo, um exemplo da “natureza” bélica japonesa, mas sim uma
consequência da apropriação - ou melhor, instrumentalização - moderna do xintoísmo
por parte do Estado japonês - ou melhor, da elite do Japão imperial e seus herdeiros pós-guerra - para fins ideológicos e muito pouco democráticos. O “outro” xintoísmo
tradicional é bem mais antigo e benévolo. É uma história demasiado longa e
complicada para caber num comentário, pelo que espero dedicar-lhe em breve
uma entrada. Entretanto, se tiver interesse em aprofundar o assunto, recomendo-lhe a leitura de Takahashi Tetsuya, um académico da U. de Tóquio que tem dedicado especial atenção ao tema: “Yasukuni Shrine at the Heart of Japan’s National Debate: History, Memory, Denial” (http://japanfocus.org/products/details/2401); “The national politics of the Yasukuni Shrine” (cap. 7 do livro Nationalisms in Japan, ed. Naoko Shimizu, e disponível online aqui http://www.japanfocus.org/data/takahashi_1642.pdf).
“Aliás, o mesmo (artigo) é perfeitamente inóquo e representa apenas uma bonita “intenção”.
Ó Carlos, experimente dizer isso à China e à Coreia !!!
“Se as coisas chegassem mesmo a “aquecer”, o artigo rapidamente iria às malvas.”
Parece-me mais adequado ver as coisas da seguinte forma: se o Japão se descartar da tal “bonita intenção” - de ter reconhecido a sua responsabilidade e pedido desculpa pelas atrocidades cometidas na Ásia - as coisas poderão realmente “aquecer” na Ásia, e de que maneira.
“Pessoalmente, assusta-me consideravelmente mais um excesso (previsível) de influência da China no futuro que uma possível remilitarização (no bom sentido, normal, de manter umas forças armadas e não apenas uma força de auto-defesa) do Japão.”
O equilíbrio de forças na Ásia sempre foi, é e será muitíssimo delicado. Daí ser crucial o Japão não alinhar, mais uma vez, no lado errado e manter a neutralidade. Tendo em conta a dimensão das populações em causa e o seu peso crescente em termos económicos, parece-me ser esta a atitude mais sensata - para o bem comum da Ásia e do resto do mundo.
Comment by DK — June 16, 2008 @ 2:58 pm
Cara Daniela,
Eu não estou a falar do “Japão Moderno”, até porque não sei bem o que isso é… A sociedade japonesa está (já há duas décadas?) a atravessar uma fase “esquesita”, resultante da estagnação industrial e do quasi-fim do ethos do “sarariman” e das grandes corporações de cariz paternalista.
Mas do ponto de vista histórico, o Japão é uma nação bélica. Tirando o período do shogunato Tokugawa (bem, pode-se “esticar” um bocado até à restauração Meiji), os Japoneses ou andavem em guerras civis ou dedicavam-se a invadir os vizinhos (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo!). Mesmo durante este período, existiu uma consolidação do bushido que se veio a reflectir mais tarde na Segunda Guerra Mundial, principalmente na ideia da não-rendição.
Quanto às pressões de Washington, se eu fosse SecDef americano, também pressionava. A Coreia do Sul não está minimanente preocupada com o Japão, nem Taiwan… agora, que a Coreia do Norte e a China fiquem “nervosos” se calhar só lhes faz bem!
Quanto a Yasukuni, é verdade que houve aproveitamento mas acho algo errado dizer-se que o Xintoismo é independente da ideia de uma Japão militarista. Aliás, quando muito o Xintoísmo agora é MENOS militarista, uma vez que - também fruto da Segunda Guerra Mundial - o Imperador “perdeu” a condição de deus vivo.
“O equilíbrio de forças na Ásia sempre foi, é e será muitíssimo delicado. Daí ser crucial o Japão não alinhar, mais uma vez, no lado errado e manter a neutralidade. Tendo em conta a dimensão das populações em causa e o seu peso crescente em termos económicos, parece-me ser esta a atitude mais sensata - para o bem comum da Ásia e do resto do mundo.”
Discordo completamente. O Japão é demasiado importante num contexto asiático para ser neutro. A neutralidade é, por definição, um refúgio para pequenos países, que em uns casos resulta (Suiça) noutros nem por isso (err.. Bélgica). Existem outras excepções, como a Suécia que já vai tendo uma tradição de neutralidade, mas um bocado à custa de fechar os olhos a algumas coisas (como em 39-45) e de manter uma “colaboracionismo” quando se trata de assuntos escandinavos (Guerra da Independência da Finlândia).
O Japão, mesmo sem “forças armadas”, é uma potência regional e deve-se assumir como tal. Se olharmos para o Conselho de Segurança das NU, o Japão, juntamente com a Alemanha, o Brasil e a Índia são ausências “estranhas”.
Comment by Carlos Duarte — June 16, 2008 @ 4:52 pm
Muito rapidamente, porque aqui já vai sendo mais que hora de dormir “;o) :
“Eu não estou a falar do “Japão Moderno”, até porque não sei bem o que isso é… A sociedade japonesa está (já há duas décadas?) a atravessar uma fase “esquesita”, resultante da estagnação industrial e do quasi-fim do ethos do “sarariman” e das grandes corporações de cariz paternalista.”
O Japão moderno, Carlos, é aquele que teve início com a abertura - forçada - ao Ocidente na segunda metade do séc. XIX e a chamada “Restauração” Meiji. Esse Japão “esquisito” que refere é já, digamos, pós-moderno… “;o)))
“Mas do ponto de vista histórico, o Japão é uma nação bélica. Tirando o período do shogunato Tokugawa (bem, pode-se “esticar” um bocado até à restauração Meiji), os Japoneses ou andavem em guerras civis ou dedicavam-se a invadir os vizinhos (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo!). Mesmo durante este período, existiu uma consolidação do bushido que se veio a reflectir mais tarde na Segunda Guerra Mundial, principalmente na ideia da não-rendição.”
Sem querer ser paternalista, parece-me que se lesse um pouco de bibliografia actual sobre a formação da identidade japonesa moderna (i.e. do período Meiji em diante), adquiriria talvez uma visão mais complexa do Japão contemporâneo. Por vezes tenho a impressão de que nós, portugueses, influenciados pela cinzenta e desenxabida historiografia portuguesa sobre a Ásia, temos uma certa tendência para nos fixarmos em períodos históricos demasiado afastados do presente. E acresce ainda a influência de uma certa Japonologia fantasiosa, que vê bushidos & samurais & Zen em tudo e mais alguma coisa, tomando a parte pelo todo, ou seja, tomando aquilo que corresponde ao pensamento e práticas de uma elite pela “alma” de um povo inteiro… Um amigo japonês, quando ouve certas fantasias ocidentais sobre os samurai e o bushido, diz sempre que a maior parte dos japoneses tem, não alma de samurai, mas sim de camponês pobre!…
“Quanto às pressões de Washington, se eu fosse SecDef americano, também pressionava. A Coreia do Sul não está minimanente preocupada com o Japão, nem Taiwan… agora, que a Coreia do Norte e a China fiquem “nervosos” se calhar só lhes faz bem”
Cuidado com os maniqueísmos. Olhe que a Coreia do Sul está, e com toda a razão, muitíssimo interessada em dar-se bem com a vizinha China - daí que o comportamento do Japão lhe interesse sobremaneira.
” Quanto a Yasukuni, é verdade que houve aproveitamento mas acho algo errado dizer-se que o Xintoismo é independente da ideia de uma Japão militarista. Aliás, quando muito o Xintoísmo agora é MENOS militarista, uma vez que - também fruto da Segunda Guerra Mundial - o Imperador “perdeu” a condição de deus vivo.”
Mais uma vez, perdoe-me a franqueza, mas talvez beneficiasse em actualizar as suas referências e prestar mais atenção ao que aconteceu ao xintoísmo e ao imperador na segunda metade do séc. XIX…
Comment by DK — June 16, 2008 @ 5:46 pm
O “militarismo” do povo japonês é uma ideia que desde o fim da II Grande Guerra tem convivido ao lado daquela outra do “nazismo” do povo alemão. A que a potência vencedora tem procurado “responder” através do Art. 9º no caso japonês e através da forma como a RFA está integrada na estrutura da OTAN no caso alemão.
O “militarismo” do povo japonês e o “nazismo” do povo alemão são simplificações que se inscrevem com facilidade na explicação da política externa duma potência vencedora no pós-guerra. Enquanto a potência vencedora tem total liberdade orçamental para prosseguir a tal política externa.
O problema que hoje se põe é outro. É saber como se vão enquadrar tais ideias simples no contexto duma política externa que está muito limitada orçamentalmente.
A este problema acresce outro. É que por debaixo destas duas ideias simples que têm tido como corolário a submissão militar e política dos dois povos desde o fim da II Grande Guerra, há o sentimento do próprio povo, pelo menos no caso alemão, de que há uma ocupação “de facto” da pátria que já dura há mais de sessenta anos.
E eu gostaria que a Daniela me dissesse se o mesmo se passa no caso japonês.
Obrigado.
Comment by F — June 17, 2008 @ 9:24 am
“É que por debaixo destas duas ideias simples que têm tido como corolário a submissão militar e política dos dois povos desde o fim da II Grande Guerra, há o sentimento do próprio povo, pelo menos no caso alemão, de que há uma ocupação “de facto” da pátria que já dura há mais de sessenta anos.
E eu gostaria que a Daniela me dissesse se o mesmo se passa no caso japonês.”
Que pergunta tão difícil, F. A resposta não pode ser inequívoca, porque o Japão tem uma complicada relação de amor-ódio com os Estados Unidos e os japoneses encontram-se profundamente divididos nos seus sentimentos e experiências. Já que nos comentários anteriores se falou de Yasukuni, deixe-me dar-lhe um exemplo retirado de um polémico documentário recente sobre o santuário, da autoria do realizador chinês Li Ying. O documentário foi, em grande parte, filmado durante as comemorações anuais que têm lugar em Yasukuni no dia 15 de Agosto, data que marca a derrota do Japão na Segunda Guerra (embora os extremistas e fanáticos de Yasukuni prefiram dizer “a data que marca o fim da Segunda Guerra”…), e mostra as várias personagens que por lá desfilam, as suas motivações e discursos. A dada altura, há uma cena à entrada do santuário em que se vê um americano empunhando uma imponente bandeira dos Estados Unidos e um cartaz onde se pode ler (em japonês) uma mensagem que transmite o apoio do “povo americano” às visitas do então PM Koizumi. Inicialmente, as reacções dos japoneses que se vão aproximando são de simpatia e gratidão, entre apertos de mão e palmadinhas nas costas, mas, aos poucos, chegam elementos hostis que começam a insultar, num inglês tosco, o dito americano, com galhardetes do tipo “Yankee go home!” e “Japan never forgive America, never!”. A coisa rapidamente entra numa escalada de violência, com empurrões e pontapés à farta. Mesmo depois de a polícia expulsar o americano do recinto, os insultos continuam entre os vários japoneses em confronto. Yasukuni é, neste e em muitos outros aspectos, um microcosmo da sociedade japonesa, das suas divisões internas e, sobretudo, das suas feridas mal curadas em relação à Guerra e à presença americana.
Se podemos encontrar alguns paralelismos entre a Alemanha e o Japão no aspecto que o F. refere, não podemos esquecer uma diferença fundamental: a Alemanha livrou-se de Hitler e do seu séquito de criminosos. No Japão, em contraste, o Imperador Hirohito e a extrema direita continuaram “alive and kicking”, em grande medida por imposição dos interesses estratégico-políticos americanos… Hirohito abdicou do estatuto “divino”, é certo, mas continuou imperador e jamais foi julgado.
Voltando à questão de a presença americana no Japão ser (ou não) sentida como uma ocupação “de facto”: creio que o problema não é sentido com grande acuidade na “mainland”, mas é-o decerto em Okinawa, que continua ocupada pelas bases militares americanas, gerando protestos frequentes por parte das populações.
Comment by DK — June 17, 2008 @ 2:29 pm
Cara Daniela,
Antes de mais, ainda hei de lhe responder ao “post” anterior, mas preciso de algum tempo para fazer uma pesquisa bibliográfica.
Só uma nota em relação à manutenção do Hirohito no trono: a ideia não foi dos “políticos” americanos, mas antes do General MacArthur, que considerou (e bem!) que seria mais fácil “dominar” o país e evitar movimentos insurrectivos mantendo o Imperador (passando a uma figura meramente protocolar) e julgar antes o Governo.
Comment by Carlos Duarte — June 18, 2008 @ 8:34 am
“Só uma nota em relação à manutenção do Hirohito no trono: a ideia não foi dos “políticos” americanos, mas antes do General MacArthur, que considerou (e bem!) que seria mais fácil “dominar” o país e evitar movimentos insurrectivos mantendo o Imperador (passando a uma figura meramente protocolar) e julgar antes o Governo.”
Carlos,
Mais uma vez, parece-me que se trata de uma questão demasiado complexa para ser despachada assim, em duas penadas.
É preciso analisar com muito cuidado o papel do Supremo Comandante das Forças Aliadas (SCAP) no moldar das reformas democráticas no Japão do pós-guerra - o “transplante” de toda uma estrutura institucional visando o estabelecimento de uma democracia liberal com base num sistema partidário representativo - e a influência decisiva que a Guerra Fria exerceu nas inflexões que essa trajectória viria a sofrer. Ou seja, não partilho inteiramente desse seu “e bem!”, nem tão pouco da sua crença de que o governo e as elites políticas japonesas com responsabilidades na guerra foram efectivamente julgados. E isto porque a natureza das reformas democráticas no Japão foi sempre enquadrada e circunscrita pelo interesse geo-político dos EUA em moldar o Japão em função dos seus potenciais benefícios futuros. Por essa mesma razão, a partir de finais da década de 40 muitas das tais reformas foram severamente limitadas, se não mesmo anuladas, pelo advento da Guerra Fria e pelas políticas crescentemente anti-comunistas adoptadas pelas forças de ocupação americanas e, concomitantemente, pelo governo japonês. Por ex., a nível laboral, e fazendo letra morta das leis que implementara recentemente no sentido de garantir a liberdade de organização e de negociação colectivas, o SCAP foi endurecendo a sua tolerância inicial face ao marxismo e ao comunismo, começando a apoiar de forma cada vez mais aberta a repressão governamental dos movimentos laborais nascentes, com receio de que estes levassem a uma desobediência generalizada em relação à autoridade das elites e do governo japonês, na qual assentava, em última análise, a própria autoridade do SCAP. Como resultado, os movimentos populares foram reprimidos e os seus líderes presos (e, nalguns casos, assassinados). E isto seria apenas o início… Nasceu assim uma poderosa aliança entre a elite política japonesa e o SCAP, aliança que viria a assegurar que o modelo da política conservadora japonesa “mainstream” do pós-guerra seguisse uma linha “democrática” pró-EUA e pró-capitalismo.
Este clima político ficou conhecido no Japão por “curso revertido” (”gyaku kôsu”), e foi acompanhado da proibição das greves, das manifestações pacíficas, da intervenção sindical, bem como da expulsão de figuras públicas associadas ao Partido Comunista Japonês (JCP) - de tal modo, que se gerou um medo intenso e generalizado na sociedade japonesa de que a ditadura acabaria por regressar ao Japão do pós-guerra. A tal aliança entre os conservadores japoneses e o SCAP moldaria definitivamente as relações EUA-Japão à imagem de um Japão convertido numa barreira contra o comunismo na Ásia.
Este “EUA-centrismo” da reconstrução social do Japão pós-guerra não constitui, é claro, novidade para ninguém. Porém, e para regressar ao comentário do Carlos, há uma outra dimensão sombria nesta trajectória “democrática” americanizante que o Ocidente parece conhecer mal: a perseguição e punição dos que haviam sido previamente condenados como colaboracionistas na guerra foi, digamos, substancialmente abrandada. Depois da execução de meia dúzia de criminosos de guerra em finais de 1948, vários criminosos de “Classe A”, incluindo nomes como Yoshio Kodama e Nohusuke Kishi, foram libertados e muitos foram até autorizados a regressar às suas posições públicas prévias. Mais: na sequência da formação da Rep. Popular da China, o General MacArthur expressou a intenção de, ao arrepio do célebre art. 9º. da Constituição japonesa, criar uma força militarizada “suplementar” no Japão. Pouco depois, com a escalada da guerra coreana, foi decretada a proibição de toda e qualquer manifestação ou reunião política no Japão. Admitamos que não foi um começo muito auspicioso para uma jovem democracia e para a formação de uma identidade japonesa moderna autónoma e livre… Os resultados estão hoje à vista, assim como o estão a coerência e o altruísmo lendários da política externa norte-americana… “;o) - o que não equivale a dizer que a América é responsável por todos os males da sociedade japonesa, é claro. Mas a América foi - e continua a ser - decerto cúmplice de muita coisa. Nomeadamente, deu um contributo significativo para que o Japão nunca chegasse verdadeiramente a reflectir sobre e a assumir perante a Ásia as consequências da sua responsabilidade na guerra.
Comment by DK — June 18, 2008 @ 10:47 am
Cara Daniela,
Aconteceu o mesmo na Europa, com grande parte da Abwehr (bem, do que sobrava), parte da Gestapo (especialmente a colocada no leste da Europa) e mesmo SS a serem “secretamente” levados para os EUA. Aliás, o melhor exemplo é o “cérebro” do projecto Apollo, Wernher von Braun, que não foi propriamente um santo, com se veio a saber.
Estas coisas aconteceram, acontecem e continuarão a acontecer… mas o meu ponto não era esse, se o Japão foi ou não devidamente democratizado, mas antes que a manutenção do Hirohito no trono foi, de certo modo, contra a vontade do então Presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, e antes porque o SCAP considerou importante, por razões de estabilidade social, manter o Imperador e “desconstruí-lo”.
Há quem defenda (e é capaz de não estar muito errado) que caso se tiver mantido o Kaiser no fim da Primeira Guerra Mundial, a Segunda não tinha acontecido…
Comment by Carlos Duarte — June 18, 2008 @ 7:26 pm
Einstein disse :”Qualquer idiota inteligente pode construir coisas grandes, mais complexas e mais violentas. É preciso um toque de génio - e muita coragem - para enveredar pelo sentido oposto.”
Porque ele era génio e a mim a Natureza não o permitiu, fico-me pelas palavras do mesmo.
Comment by Pedro Serpa — June 20, 2008 @ 12:32 am
Fascinante esta reflexao sobre a historia recente do Japao! Fala-se pouco sobre a militarizacaco do Japao, num momento em que os media tao obcessivamente se fixam na China.
Fascinante igualmente ver como, hoje em dia, ha’ comentadores que consiguem dar replica a esta reflexao genuina com um punhado de pesquisas Google: para que servem os livros, se o Google sabe tudo, desde amalgamas de factos, a moles de citacoes de douto recorte? Fascinante tambem este aspecto do mundo em que vivemos.
Comment by Chico Bentes — June 22, 2008 @ 3:24 pm