Continuo com o meu périplo pela moderna Moscovo à procura de casa para que a família esteja cómoda pelo menos durante os próximos 3 anos. O mais interessante de tudo isto é descobrir algumas especificidades que nos soam bastante estranhas.
Existem dois tipos de edifícios no centro de Moscovo, os da era pré-revolucionária (com mais de 100 anos, portanto) e os da era estalinista (quase todos construídos no pós-guerra, fundamentalmente construídos nos anos 50). A principal diferença entre os dois, para além da arquitectura específica de cada um, reside no facto dos primeiros serem, normalmente apartamentos maiores e mais amplos, por oposição aos da era comunista, mais pensados para albergar gente em pouco espaço e da mesma maneira (quem vê um apartamento destes vê todos, porque são todos iguais).
Ambos têm aquecimento central e este “central” não é o mesmo a que estamos habituados. “Central” significa que está ligado a uma rede pública de aquecimento que está permanentemente ligada de Outubro até Abril, não existem termóstatos nem outro tipo de reguladores. Esta mesma água é a que é utilizada como água quente (para o banho por exemplo), pelo que muita gente, de Maio a Setembro, pura e simplesmente não tem água quente. Felizmente que existe essa maravilha da tecnologia ocidental chamada esquentador (se calhar produzido ali perto de Aveiro) e que alguns já descobriram para suprir essa falta, pelo menos para os banhos e para cozinhar.
Outra característica peculiar tem a ver com o facto de a água ser paga em regime de fee fixo, não há cá metros nem bandeiradas, o valor é fixo por casa e pronto. Só a electricidade é paga ao “kilovátio”. Escusado será dizer que não há garagens em nenhum dos edifícios referidos, pelo que é uma espécie de salve-se quem puder quanto a estacionamento.
Nuno Pinto

Isso não é nada peculiar a Moscovo, mas entendo que seja estranhos aos portugueses. Em Londres é precisamente o mesmo sistema: aquecimento central, certo que não é da cidade inteira, mas é do prédio como um todo, e funciona sem termostato e em constância (a pessoa pode decidir ligar ou desligar). E a água também tem um preço fixo por ano, não variando com a quantidade consumida. Parece-me comum nos países nórdicos, frios.
Comment by Luís — June 13, 2008 @ 8:21 pm
Luís, isso que dizes é interessante. Nunca vivi em Inglaterra, mas como os meus colegas que lá viviam se queixavam que os ingleses não tomavam banho com a frequência necessária, sempre presumi que a água seria caríssima.
Comment by LA-C — June 14, 2008 @ 8:48 am
Na Irlanda a água é de borla ( nenhum governo teve coragem de alterar isso até agora).
Em Paris o sistema de aquecimento central ( em prédios do pós-guerra pelo menos) é tal e qual como o Luis descreveu o de Londres. 1 central para o prédio todo sempre ligado e sem regulação.
Nós somos muito mais ecológicos!
Comment by A.R.Ray — June 16, 2008 @ 10:09 am
Se Vocês verificarem com cuidado as Vossas contas da áua, constatarão que o valor dessas contas é quase independente da quantidade de água efetivamente consumida. Isto acontece em praticamente todo o país. As taxas e os custos fixos superam largamente os custos dependentes da quantidade consumida.
Logo, a situação em Moscovo não é muito diferente da situação em Portugal. Cá a conta da água é quase independente da quantidade de água consumida.
Comment by Luís Lavoura — June 16, 2008 @ 11:41 am
“Cá a conta da água é quase independente da quantidade de água consumida.”
Caro Luís Lavoura, no que toca a aspectos de eficiência económica, muito mais importante que o custo total é o custo variável. Para ser mais preciso, quando se discute o desperdício de água, é o custo relevante é custo marginal (e não o total). E enquanto que na Rússia o custo marginal é zero, em Portugal esse custo é positivo (e substancialmente positivo, direi mesmo). Pelo que a situação é qualitativamente bem diferente da da Rússia.
Comment by LA-C — June 16, 2008 @ 11:45 am
O aquecimento central na Rússia (e noutros países) é feito de forma bastante eficiente, aproveitando a água quente das centrais termoelétricas. Ou seja, a água quente que serve para produzir a eletricidade, em vez de ser arrefecida em torres de arrefecimento como cá se faz, é bombeada para os prédios de habitação, os quais aquece.
A desvantagem deste sistema (que poupa uma quantidade brutal de energia) é que é necessário construir as centais termoelétricas perto das cidades. Gera-se portanto poluição perto das cidades.
Em Viena o mesmo sistema é usado com uma incineradora de lixo (resíduos sólidos urbanos) que lá têm. Essa incineradora aquece água, a qual é utilizada para produzir eletricidade tal como nas incineradoras análogas existentes nas proximidades de Lisboa e do Porto. A diferença é que em Viena essa incineradora fica bem no meio da cidade, e a água quente, depois de servir para produzir eletricidade, serve ainda para aquecer os prédios de boa parte da cidade.
Comment by Luís Lavoura — June 16, 2008 @ 12:09 pm
LA-C, concordando com a sua explicação sobre preços marginais e a sua utilidade, eu diria, no entanto, que em Portugal o preço marginal da água é extremamente baixo. Eu pelo menos não o noto: as minhas contas de água são sempre iguais, ou muito parecidas. Eu diria que, quando uma pessoa paga mensalmente uma conta da água de 10 euros, pagar ocasionalmente 11 euros em vez de 10 não faz diferença. É essa a situação em boa parte de Portugal: se se gastar um bocado mais de água, a conta aumenta de 20 euros para 23, ou coisa do género. Um aumento insignificante. É essa a minha experiência.
Comment by Luís Lavoura — June 16, 2008 @ 12:13 pm
Luís Lavoura, eu tendo a concordar com o que diz. Mas também tenho consciência de que ao ser professor universitário (e o Luís Lavoura também o é, penso eu) ganhamos muito acima da média nacional. Assim, o que para nós pode parecer como um custo irrelevante para muitas pessoas não o será. Agora que parece estar na moda falar nisso, basta pensar nas famílias que têm uma pequena horta que terá de ser bastante regada no Verão.
Vejo também pelos meus sogros que têm um furo no quintal e que, sempre que este não está seco, usam a água do poço para usos que não necessitam água potável (lavar carros, terraço, quintal, etc).
Finalmente, penso que o preço da água varia de autarquia para autarquia. E, geralmente, o preço por litro é crescente com a quantidade de água gasta. Ou seja, mesmo que para consumos pequenos (como será o citadino) o custo marginal seja baixo , para consumos maiores é bastante mais elevado.
Lembrei-me agora que quando vivia em Cantanhede pagava contas absurdas de água (cheguei a desconfiar ed que havia alguma fuga). Entretanto disseram-me para tirar a torneira que tinha à entrada de casa, ao pé da garagem. A conta da água passou para metade (literalmente). A conlusão é simples, eram os vizinhos que iam lá roubar água para lavar os carros (presumo eu). Ou seja, de alguma forma, os custos da água eram suficientemente elevados para compensar andar a cometer pequenos crimes.
Comment by LA-C — June 16, 2008 @ 1:08 pm
Luís lavoura, vejo que já aderiu à nova ortografia. Não perdeu tempo. Custou muito? (a pergunta e sincera)
Comment by LA-C — June 16, 2008 @ 1:36 pm
LA-C, há muito, muito tempo que aderi, isto é, não é coisa recente. Custa pouquíssimo - escreve-se umas tantas letras a menos. É simples.
Aliás, eu sempre (desde a minha juventude) fui favorável a uma simplificação radical da ortografia portuguesa. Para mim, o acordo ortográfico é treta - deveria ser muitíssimo mais profundo. Não há razão nenhuma para nós escrevermos “homem” quando até os italianos, que descendem diretamente dos latinos, escrevem “uomo”. As pretensas razões históricas que justificam a ortografia oficial do português são de facto razões de imitação: palavras portuguesas que são imitadas de palavras inglesas ou francesas.
Comment by Luís Lavoura — June 16, 2008 @ 4:06 pm
Interessante esta carta de Moscovo! E que acontece com o outro autor ocasional deste blog que, oriundo da UM, esteve no Iraque, encasquetou um capacete azul no Libano e escreveu sobre a A. saudita e o islamismo como poucos sao capazes de fazer? espero que tudo esteja bem com ele, pois que, em paragens remotas, a leio do deserto pune sem misericordia tanto os incautos como os aventurosos! Que Mafamede esteja com ele.
Comment by Chico Bentes — June 22, 2008 @ 3:15 pm
Agradeço a preocupação com esse meu aluno que andou pelas arábias. Posso confirmar que está tudo bem com ele. Abraço.
Comment by LA-C — June 22, 2008 @ 7:16 pm
Ahahah, é verdade o que dizes sobre os hábitos de banho dos ingleses. E também é verdade, e já me tinha esquecido - é fácil esquecer Dublin, que na Irlanda não se paga a água. Não tem, portanto, sequer o custo fixo (relativamente alto, eram 130 libras por ano, cerca de 200 euros) de Inglaterra.
Comment by Luis — June 26, 2008 @ 1:02 pm
Aliás, agora que coloco tudo junto e em perspectiva, verifico um facto curioso: se os ingleses são porcos - e, Deus, são mesmo -, os Irlandeses dão uma total nova definição ao conceito de porco. Ao contrário da teoria económica vigente, portanto, quanto mais baixo é o preço da água, menos é usada. Eu sei que estamos a falar de custos fixos e não variáveis, mas achei irresistível dizê-lo.
Comment by Luis — June 26, 2008 @ 1:06 pm
E a causalidade pode funcionar ao contrário. Dado que sao uns porcos, os governos paa incentivarem um maior consumo de água, para banhos, não cobram pelo uso da água.
Comment by LA-C — June 26, 2008 @ 3:07 pm
Seria preciso um preço negativo para incentivar os irlandeses a tomar banho. E mesmo aí compravam malte e às escondidas usavam-no para fazer cerveja.
Comment by Luis — June 27, 2008 @ 9:36 pm