Uma das coisas que mais me irritam no Japão é o tom moralista, ou melhor, paternalista de grande parte dos programas de televisão. Refiro-me em especial à NHK, a estação do Estado. Os documentários, por exemplo, são geralmente de excelente qualidade, mas o pesadíssimo aparato narrativo que os acompanha torna-se demasiadas vezes intolerável para quem ainda se salvaguarda a prerrogativa de pensar por si próprio ou, simplesmente, de apreciar uma boa dose de mistério. Tudo é explicado até ao mais ínfimo detalhe, culminando invariavelmente numa mensagem de teor moralista e infantilizante que deixa pouco ou nenhum espaço à imaginação e à capacidade crítica do espectador.
A imprensa japonesa não constitui excepção – e, infelizmente, os jornais da Direita conservadora estão longe de estar sós a este respeito. Mesmo reputados jornais independentes como o Japan Times – um dos poucos diários publicados em inglês, sob a divisa “All the News without Fear or Favor” – descambam com frequência no moralismo fácil, ou então numa ambiguidade desresponsabilizante (o que vem a dar no mesmo).
O ataque violento que teve lugar no passado Domingo no movimentado distrito de Akihabara, em Tóquio, deu origem a mais uma onda de moralismo paternalista bem intencionado, com a habitual troupe de entrevistados, especialistas em tudo e em nada, acotovelando-se pelos seus dois minutos de fama mediática. Esta pérola na edição de hoje (6/10) do Japan Times é uma expressiva caricatura da vacuidade, para não dizer ridículo, a que chegaram as opiniões e explicações “científicas” de muitos dos que hoje desfilam como especialistas – criminólogos, psiquiatras, psicólogos, pedagogos, professores universitários & quejandos – nos jornais e programas de televisão. E também neste aspecto o Japão está muito longe de estar só.
Experts ponder whether Kato felt disenfranchised from society**
Minoru Matsutani and Akemi Nakamura
The Japan Times: Tuesday, June 10, 2008
The deadly stabbing rampage Sunday in Tokyo’s Akihabara district stunned the nation, but experts said the carnage was just another example of a young man unhappy with his lot in society.
Tomohiro Kato, a 25-year-old temporary worker at an auto parts factory in Shizuoka Prefecture, was arrested at the scene for allegedly stabbing seven people to death after running into a crowd of pedestrians with a rented truck.
This is the third major random killing or attack resulting in injury apparently perpetrated by a young man this year, following one in Shinagawa Ward, Tokyo, in January and another in Ibaraki Prefecture in March.
Police quoted Kato as saying he was "tired of the world" and wanted to kill indiscriminately.
Although his motive remains unclear, Akira Sakuta, a visiting criminology professor at Seigakuin University in Ageo, Saitama Prefecture, speculated Monday that Kato is a sociopath who blames society for his unstable life as a temporary worker.
An Aomori native, Kato reportedly was a good student in junior high school and advanced to a highly competitive high school in Aomori Prefecture. But as of the weekend he was a temporary worker living in a condominium provided by his temp agency.
"Something must have gone wrong after graduating from high school, and he came to find the real world tough going," Sakuta said. "He probably was suicidal. Such aggression can sometimes be targeted at others.
"People must have paid attention to him when he was young, and he must have thought he could still gain attention by (doing something evil)."
Sakuta said many young people are selfish and immature, and such violence is a manifestation of this.
"When things do not go as well as they hoped, they blame the people around them," he said, noting it could be that the parents of violent people failed to instill in them a sense of self-control.
Echoing Sakuta’s view, Masafumi Usui, a psychology professor at Niigata Seiryo University, said Kato may have been dissatisfied with his lot and simultaneously jealous of other young people who hold better jobs and enjoy life.
"Some young people these days don’t attempt to achieve their goals, and think taking low-paying jobs is ridiculous," Usui said. "They are not satisfied with ordinary jobs. They want to become someone special."
People who do not feel they were loved by their parents, friends or teachers may also lash out violently, he said.
"It’s a side effect of a wealthy society," in which parents can easily spoil their children, Usui said. "If they don’t feel loved, they become anxious" about themselves.
The recent widening economic gap in society may also be a factor behind the stabbing sprees blamed on young people in recent years, said Susumu Oda, a psychiatrist at Tezukayamagakuin University in Osaka Prefecture.
"Young people may feel they are at a dead end, with no way out," he said.
Kato may also have felt isolated living in a Shizuoka Prefecture condo, Oda said.
Random acts of murder may be a way for such a person to feel like a participant in society and achieve personal fulfillment, according to Oda.
There is also speculation about why Kato chose Akihabara. It is Japan’s electronics mecca and the main venue for "otaku" animation geeks.
Sakuta said Kato may have thought otaku are insignificant members of society, while Oda said he might have targeted the district because he may be a heavy Internet user.
*Texto ligeiramente editado (6/11).
** A coincidência entre o apelido da autora desta entrada e o do autor do ataque de Akihabara é isso mesmo: pura coincidência. ‘Kato’ é um apelido comum no Japão.
O itálico e o link no texto são meus.

Entrada fascinante sobre o Japon: conheco pouco sobre essa realidade!!
Comment by Zamaleke Kulbar — June 10, 2008 @ 5:29 pm
Nesta crise dos transportes, quando muitos pediam até medidas contra o normal funcionamento da democracia e a intervenção sobre a Galp, ou a pura e simples renacionalização…
A estratégia conduzida pelo governo, a enorme paciência de que deu mostras, a racionalidade das suas propostas, e sobretudo, o facto de que não teve que recorrer a medidas extremas ou à repressão policial tão amplamente sonhada e pedida por muitos sectores, permitiu uma assinalável, uma enorme vitória que vai constituir um marco na governação com valores e com sensibilidade social.
Foi a vitória da democracia sobre a arruaça.
Tudo ao contrário do desejo dos que, repetidamente, sonharam com escorregadelas repressivas e ou soluções fáceis ao nível da desorçamentação das Contas Públicas e do abandono dos princípios de gestão da coisa pública.
Foi a salvaguarda dos esforços dos portugueses para manterem uma linha de rumo racional.
Finalmente foi gigantesco o contributo que estas actitudes deram para a definição de medidas sociais na Europa e, vejam lá, para o ganho do Sim na Irlanda: É que as imagens da repressão violenta quer em França, quer em Espanha, desgastam a confiança nesta Europa que todos os dias se constroi. Hoje, na Irlanda com o Tratado de Lisboa. Era bom que ganhasse o Sim e o Não fosse derrotado, lá como cá, por KO
Terminaram os sonhos dos que ansiavam ver o PS deitar fora os votos juntamente com cargas policiais!
Comment by MFerrer — June 12, 2008 @ 9:22 am
Esta entrada só torna ainda mais actuais as palavras de Tocqueville que citei na última entrada do meu blogue. Será que a tentativa do estado de tudo controlar, que é uma utopia, acabará por conduzir a uma revolta dos que se sentem marginalizados, tanto pela protecção excessiva, indutora de facilitismos na formação/educação da pessoa, como pela infantilização, com um muito provável sentido de perda de individualidade? Dá que pensar, DK.
Comment by MJMatos — June 12, 2008 @ 12:35 pm
“Esta entrada só torna ainda mais actuais as palavras de Tocqueville que citei na última entrada do meu blogue. Será que a tentativa do estado de tudo controlar, que é uma utopia, acabará por conduzir a uma revolta dos que se sentem marginalizados”…
Sim, mas repara como na sociedade japonesa o paternalismo moral do Estado nas esferas educativa, cultural, mediática, etc. - paternalismo esse que se tem vindo a acentuar em anos recentes, perante a falta de alternativas à direita ultra-nacionalista no poder - co-existe com um capitalismo absolutamente selvático, com um predomínio absoluto do mercado na esfera económica. É por estas e por outras que eu não posso, de todo, professar a fé (neo)liberal, que continua patética e perigosamente cega a tudo o que não diga respeito a Economia & Finanças. Depois não se surpreendam com o aumento exponencial destas explosões de violência, que continuaram a resistir a toda e qualquer explicação racional e científica dos “peritos” me(r)diáticos…
Comment by DK — June 12, 2008 @ 3:30 pm
Consideras que o Japao vive num sistema capitalista? Eu tinha a ideia de que no Japao havia meia duzia de familias que dominavam grande parte da estrutura economica.
Comment by LA-C — June 12, 2008 @ 4:01 pm
“Consideras que o Japao vive num sistema capitalista? Eu tinha a ideia de que no Japao havia meia duzia de familias que dominavam grande parte da estrutura economica.”
Mas é evidente que se trata de um sistema capitalista, embora dotado - pelo menos até há pouco tempo - de características nacionais que o distinguem do capitalismo anglo-americano. (Aproveito, aliás, para fazer “mea culpa” e redimir-me da generalização excessiva feita no comentário anterior: é óbvio que há muitos capitalismos, com as suas características e crises próprias, e que o chamado “neoliberalismo” é um fenómeno demasiado complexo para ser subsumido num só nome. Mas, enfim, no meio “light” dos blogues, é sempre difícil evitar a tentação do simplismo…). Continuando: como seria para mim muito difícil resumir aqui as diferenças que tradicionalmente têm sido apontadas entre o capitalismo japonês e o capitalismo anglo-americano, remeto-te para este artigo http://members.jcom.home.ne.jp/katori/RobSteven.html. Trata-se de um draft algo esquemático, mas é esclarecedor q.b. O busílis da questão reside, parece-me, nas transformações recentes - pós-”bubble”, globalização, etc. - que têm levado a uma dissolução dessas tais características peculiares do capitalismo japonês (e de outras variantes nacionais, acrescente-se) “não-liberal” em prol de uma aproximação ao modelo liberal anglo-americano.
E mais não digo, porque preciso de ir dormir!… “;o)
Comment by DK — June 12, 2008 @ 4:47 pm
“Consideras que o Japao vive num sistema capitalista? Eu tinha a ideia de que no Japao havia meia duzia de familias que dominavam grande parte da estrutura economica.”
Pois Mr Conraria, o capitalismo è assim na maior part dos locais: qual o motivo para spanto? Em todos os paises pobres existe uma minoria aue enriquece com o capitalismo enquanto todos os outros empobrecem. Mesmo aos Estados Unidos, umas 100 families dominom boa parte da riqueza e dos lugares do senado.
Comment by Zamaleke Kulbar — June 13, 2008 @ 11:01 am
Caro Zamaleke, tornei a apagar a parte insultuosa do seu comentário. Se quer insultar pessoas, crie o seu próprio blogue. Agradeço-lhe que não use o nosso blogue para insultar ninguém. (se me quiser insultar a mim esteja à vontade, outras pessoas não, ok?)
Comment by LA-C — June 13, 2008 @ 11:16 am
“Consideras que o Japao vive num sistema capitalista? Eu tinha a ideia de que no Japao havia meia duzia de familias que dominavam grande parte da estrutura economica.”
Luís,
Tens razão, mas apenas em parte. Trata-se de um sistema capitalista, mas baseado no chamado “keiretsu”, que é um descendente do sistema feudal do “zaibatsu” (uma espécie de cliques finaceiras), vigente no Japão até à Segunda Guerra. Este página do Dep. de Economia da San José State U contém alguns textos que explicam de forma acessível os dois sistemas e as suas peculiaridades:
- “The Bubble Economy of Japan” http://www.sjsu.edu/faculty/watkins/bubble.htm
- “The Keiretsu of Japan” http://www.sjsu.edu/faculty/watkins/keiretsu.htm
- “The Zaibatsu” http://www.sjsu.edu/faculty/watkins/zaibatsu.htm
Não resisto a citar um delicioso excerto do primeiro texto, que reza assim:
“Despite the recent economic problems of Japan, the leaders take the position that Japan has developed a special type of economy that is in between free market capitalism and socialism and superior to both. Japanese leaders have offered advice on economy policy to the Chinese and Russian governments that is contrary to the advice of the U.S. and Western Europe. When China asked Japan for advice on how to privatize its public enterprises Japan advice was to hold off on privatization. One of the top bureaucrats in the powerful Ministry of Finance, Eisuke Sakakibara, emphasizes that in Japan a corporation is a community that is organized around the interests of labor rather than that of the stock holders.”
Convém, no entanto, ter presente, que este texto data de meados dos anos 90, período em que começaram, justamente, as reformas neoliberais no Japão, com consequências dramáticas não só na esfera económica como também - ou sobretudo - a nível cultural, paisagístico, etc., em especial nas regiões periféricas e rurais. Para uma análise interessante de algumas destas consequências, recomendo este artigo (relativamente) recente do Herald Tribune, “In Japan, rural economies wane as cities thrive” http://www.iht.com/articles/2007/12/05/business/05gap.php .
Tudo isto para dizer que o Japão constitui um excelente case study que deveria merecer mais atenção, esp. por parte dos apóstolos do neoliberalismo a martelo, que acham que este fornece a panaceia para todos os males económicos. Só é pena que não saibam ler os sinais inquietantes de que se estão a arriscar a abrir uma caixa de Pandora com consequências imprevistas e perigosíssimas a vários outros níveis. A ver vamos quem tem razão.
Comment by DK — June 14, 2008 @ 4:55 am
Neoliberalismo a martelo! Excelente imagem.
Comment by LA-C — June 14, 2008 @ 9:21 am
“Neoliberalismo a martelo! Excelente imagem.”
Depois da trabalheira que eu tive, é só isto que tens a dizer?! E o resto, não comentas? Ninguém comenta?…
Que coisa! ~:oP
Comment by DK — June 14, 2008 @ 9:40 am
O “resto” dificilmente cabe num comentario.
O que o “resto” me levar a escrever ira’ para uma entrada.
Comment by LA-C — June 14, 2008 @ 11:02 am
Muito bem. Ficarei então a aguardar ansiosamente esses teus pensamentos profundos sobre o tal “resto”.
Ah, e ainda a propósito da imagem a que achaste piada, aproveito para acrescentar: apóstolos do neoliberalismo a martelo, filistinos até dizer chega e dotados da sensibilidade cultural de um bulldozer. Presumo que não será preciso fazer um desenho, pois não?… “;oP
Comment by DK — June 14, 2008 @ 3:08 pm