A respeito da entrada anterior, diz a Daniela: A solução, porém, não será fácil, porque se prende com um problema fundamental que atravessa a sociedade portuguesa a todos os níveis, incluindo a universidade (indo muito para além dos departamentos de Economia): a intolerância, ou melhor, a aversão que muitas instituições, pessoas e respectivas práticas nutrem pelos princípios da democracia e pelo pensamento crítico e independente.


Tem muita razão no que escreve. Não se percebe, ou melhor, percebe-se bem demais, por que motivos não são mais dados disponibilizados por entidades públicas. Quando um ministério anuncia qual a inflação prevista, por que não fornece os dados com base nos quais se fizeram tais previsões? Talvez porque qualquer investigador sério evitaria cometer erros de previsão sistematicamente para o mesmo lado. Note-se que eu não ponho em causa a existência de erros, apenas contesto que sejam sempre para o mesmo lado…

Na entrada anterior, o Fernando disse ainda que os EUA, ao disponibilizarem os dados, conseguem ter todo o mundo a trabalhar para eles. É verdade. Ainda hoje passei por essa experiência. Um aluno de mestrado tentava recolher dados para estudar os determinantes do investimento residencial e não residencial em Portugal. Desistimos. Vamos antes estudar os dados norte-americanos. Porquê? Por uma simples razão: estão disponíveis e muito facilmente acessíveis. Para perceberem as diferenças, convido o leitor a visitar o sítio do INE e a procurar lá dados, por exemplo, para o investimento em Portugal ou as taxas de câmbio entre Portugal e um país qualquer. Depois, apenas para comparação, visite este sítio norte-americano e procure os mesmos dados para a economia americana.

Fazer estudos que envolvam dados portugueses exige, a maioria das vezes, uma luta constante para os encontrar. Grande parte do tempo, que devia ser ocupado com questões metodológicas, é gasto com a colheita e tratamento de dados. Há algumas excepções, como as apontadas pelo Fernando Alexandre a respeito dos Quadros de Pessoal, mas estas excepções são mesmo excepcionais.

Ainda há pouco tempo, uma colega do Instituto Politécnico de Bragança esteve aqui a apresentar um trabalho obviamente importante para o nosso país. A Alcina Nunes dedicou parte da sua tese de doutoramento a estudar o impacto e a eficiência das políticas de emprego em Portugal. O trabalho dela é inovador, com resultados importantes sobre as políticas mais bem sucedidas, mas sofre as limitações de quem se desesperou para arranjar dados. A situação foi tão ridícula que, a dada altura, ela passou a receber, ao longo de vários meses, um e-mail por semana, à sexta-feira, com 4 ficheiros de 4 megas do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Por que não lhe deram a informação de uma só vez? Porque os ficheiros eram demasiado pesados para as caixas de e-mail. Naturalmente, ela disponibilizou-se para ir a Lisboa com o seu portátil a fim de gravar todos os dados de uma só vez, mas disseram-lhe que tal seria impossível…

Não gosto de acreditar em bruxas, mas muitas vezes sou levado a perguntar-me se o problema não será um bocadinho mais grave do que o descrito pela Daniela. Sabemos que há académicos, bem como alunos de mestrado e doutoramento, com disponibilidade e interesse em estudar a economia portuguesa. Conhecemos as barreiras com que se confrontam para encontrar os dados. Sabemos as fortunas que os governos gastam anualmente em estudos encomendados a empresas de consultoria e afins - trabalhos que, regra geral, são de péssima qualidade, cheios de correlações e de gráficos que apenas convencem quem não possui os mínimos conhecimentos nem de estatística nem de teoria económica.

Sabendo tudo isto, interrogo-me se os dados não serão propositadamente escondidos para que muitas destas encomendas sejam feitas aos amigos, que assim vão enriquecendo nesta florescente indústria dos pareceres.