A investigação da economia portuguesa
Já aqui referi que a inexistência de "think tanks" que analisem a economia portuguesa é uma lacuna para o conhecimento da sua dinâmica e para um escrutínio independente das decisões de política económica dos Governos. Ou seja, a ausência daquelas instituições não públicas é uma debilidade da nossa economia e da nossa democracia. Neste contexto, Teodora Cardoso lamentou recentemente, num programa da televisão do Estado, a pouca atenção que as universidades portuguesas dedicam à investigação da nossa economia.
Quais serão as causas do défice de investigação da economia portuguesa?
Uma primeira explicação poderia ser a falta de expertise. É verdade que a ciência económica (como acontece com quase tudo) se desenvolveu tardiamente em Portugal. No entanto, nos últimos 20 anos, realizaram-se progressos muito significativos, como se pode concluir da análise do sítio Economics Research in Portugal: People and Institutions. É verdade que a maioria dos melhores economistas portugueses trabalham em universidades estrangeiras, mas já existe em Portugal uma comunidade académica que produz investigação que segue elevados padrões de qualidade e cujos resultados são publicados em revistas científicas de referência. Ou seja, há economistas em Portugal e há investigação em Economia. Assim, talvez seja mais adequado formular a questão da investigação da economia portuguesa de outra forma: por que é que os economistas que trabalham nas universidades portuguesas não investigam a economia portuguesa?
Uma explicação plausível é não ser um tópico de investigação relevante. De facto, muitos dos economistas a fazer investigação em Portugal doutoraram-se recentemente no estrangeiro, participam em redes internacionais e só por acaso a economia portuguesa faz parte das suas agendas de investigação. Em segundo lugar, a progressão na carreira depende do número e qualidade das publicações em revistas internacionais e a inclusão da palavra "Portuguese" no título ou no abstract não favorece a divulgação do trabalho – comentário típico dos editores ou referees: "Why do you test this on the Portuguese economy?". Apesar da evolução muito positiva nas duas últimas décadas, continua a ser incomum economistas portugueses, em instituições portuguesas, publicarem nas principais revistas científicas internacionais. Mas é ainda mais raro, e mais difícil, publicar nas melhores revistas tendo como tema a economia portuguesa. Por exemplo, se analisarmos as publicações na American Economic Review, que é considerada por muitos na profissão a melhor revista científica de economia, observamos o seguinte: desde 2000, foram publicados 11 artigos em que participarem economistas portugueses; daqueles, apenas três estão em instituições portuguesas (José Mata, Luís Santos Pinto e Pedro Portugal, todos da Universidade Nova); e só dois dos artigos utilizam dados da economia portuguesa, sendo que um deles consiste numa comparação das taxas de desemprego entre Portugal e os EUA.
Outra explicação para a escassez de investigação da economia portuguesa é a qualidade e a disponibilidade de dados. Muitos académicos nem consideram a possibilidade de trabalhar sobre a economia portuguesa só de pensarem nas dores de cabeça e no tempo que perderão atrás dos dados. Na área macroeconómica, quando é preciso testar algum modelo utilizamos dados da economia americana, não só porque a economia portuguesa é pouco sexy, mas também porque os EUA disponibilizam uma quantidade de dados extraordinária. Com essa estratégia, os EUA, têm académicos de todo o mundo a trabalhar para eles. O Estado português prefere pagar estudos.
A grande excepção na investigação da economia portuguesa, é a investigação do mercado de trabalho português, que utiliza a riquíssima base de dados Quadros de Pessoal do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, disponível através de protocolos em várias universidades portugueses. Aquela base de dados tem sido utilizada por dezenas de economistas, a trabalhar em Portugal e no estrangeiro, e os resultados da sua investigação têm sido publicados em algumas das melhores revistas internacionais da área, contribuindo para a compreensão do funcionamento do mercado de trabalho português. Ou seja, esta investigação tem mostrado que, desde que os dados tenham qualidade e sejam acessíveis, é possível estudar a economia portuguesa e produzir resultados com relevância científica internacional.
A abordagem de muitos dos economistas que têm utilizado os Quadros de Pessoal na sua investigação é muito próxima da sugerida por Pedro Lains na introdução ao seu excelente livro Os Progressos do Atraso. Este historiador económico sugere que, mesmo no campo da história económica portuguesa, é possível produzir trabalhos com relevância científica internacional analisando questões que são comuns às restantes economias europeias e cujos resultados podem, por isso, vir a ganhar relevância internacional. A inclusão da economia portuguesa na Zona Euro sugere que aquela abordagem poderá vir a suscitar um maior interesse dos economistas portugueses pela investigação da economia portuguesa, mesmo na área macroeconómica. Haja dados.

Pergunta de alguém que não é da área: existe alguma revista científica portuguesa de qualidade na área da economia?
Comment by MM — June 2, 2008 @ 11:18 am
Referenciada em bases internacionais e com um sistema de revisão pelos pares, a que tem mais projecção internacional é o Portuguese Economic Journal, sediada no ISEG. Ainda muito jovem, mas tem seguido uma estratégia de afirmação que em Portugal penso que é única.
A UCoimbra tem as Notas Económicas, que tem vindo a seguir um caminho no sentido de seguir os padrões internacionais na selecção dos artigos. A Universidade Católica publicava a revista Economia, que não sei se ainda é publicada.
Comment by Falex — June 2, 2008 @ 11:59 am
«Outra explicação para a escassez de investigação da economia portuguesa é a qualidade e a disponibilidade de dados.»
Talvez valesse a pena reflectir mais a fundo sobre as razões subjacentes a esta indisponibilidade de dados. O problema tem decerto a ver com a situação descrita no primeiro parágrafo do texto: «a inexistência de “think tanks” que analisem a economia portuguesa é uma lacuna para o conhecimento da sua dinâmica e para um escrutínio independente das decisões de política económica dos Governos. Ou seja, a ausência daquelas instituições não públicas é uma debilidade da nossa economia e da nossa democracia». A solução, porém, não será fácil, porque se prende com um problema fundamental que atravessa a sociedade portuguesa a todos os níveis, incluindo a universidade (indo muito para além dos departamentos de Economia): a intolerância, ou melhor, a aversão que muitas instituições, pessoas e respectivas práticas nutrem pelos princípios da democracia e pelo pensamento crítico e independente. Em alguns contextos, nomeadamente o académico, a situação roça a mais básica iliteracia social e política. Enquanto não for criada uma consciência muito clara das várias e graves implicações destas formas de iliteracia, dificilmente ultrapassaremos os impasses que o texto do Fernando A. tão bem descreve e continuaremos a viver enredados nas teias de um neo-feudalismo travestido de democracia.
Comment by DK — June 3, 2008 @ 4:27 am
O post começa com a frase “a inexistência de “think tanks” que analisem a economia portuguesa” mas depois desvia-se disto para se focar na investigação universitária de modelos económicos, e sua publicação em revistas intenacionais de economia, que me parece ser uma coisa completamente diferente.
Na Alemanha há cinco grandes institutos cuja função é estudarem a economia alemã. A função desses institutos é serem úteis para a economia alemã, não é publicarem artigos científicos em revistas americanas. Penso ser a coisas deste tipo que FA se quereria referi com a frase sobre os “think tanks”. Não a economistas interessados em fazer uma carreira académica.
Uma coisa é trabalhar numa universidade, fazer uma carreira académica estudando modelos teóricos. Outra coisa diferente é trabalhar num instituto ou num “think-tank” que estuda problemas concretos de uma economia concreta e propõe soluções concretas para a sua resolução.
Ou não?
Luís Lavoura
Comment by Luís Lavoura — June 3, 2008 @ 10:07 am
Luís Lavoura tem toda a razão em distinguir as funções de ‘think tanks’ da investigação que se faz na academia. No entanto, a existência de expertise nas universidades, que se traduz em publicações em revistas internacionais, e disponibilidade de dados são duas condições essenciais para a existência de think tanks. Procuro no meu texto salientar que a primeira existe e que a segunda é ainda insuficiente. Mas há ainda uma terceira condição necessária: financiamento que permita uma independência efectiva dessas instituições.
Comment by Falex — June 3, 2008 @ 11:11 am
Mas esse financiamento terá que surgir da parte de potenciais “compradores”. Na alemanha e os eua, existem compradores e existem bancos de investimento que fazem eles próprios a investigação. como portugal e um mercado bastante pequeno, restam os bancos enquanto produtores/compradores do seu próprio material.
De qualquer forma, um think tank que reunisse professores das varias universidades teria sempre algum sucesso. o problema aí já é mais ao nível dos egos dos intervinientes…
Comment by Ricardo — June 3, 2008 @ 8:59 pm
Caro Fernando Alexandre,
Se me permitir, gostaria de discordar da sua observação. É que na verdade há alguns “think tanks” que analisam a economia portuguesa.
O maior deles é o Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal. Há ainda a produção regular de análises sobre a economia portuguesa pela divisão de estudos do BPI, muito em linha com o que foi em tempos o Gabinete de Estudos do BPA no Porto à data dirigido pelo Senhor Dr. Miguel Cadilhe. E há a produção regular da SAER dirigida pelo Senhor Doutor Ernâni Lopes, que segue de perto a Análise da Conjuntura que o saudoso Senhor Professor Alfredo de Sousa fazia quando dirigia a Sociedade Portuguesa de Rating. São três bons exemplos que me vêm à cabeça.
O Fernando Alexandre talvez quizesse dizer que este trabalho não está localizado na universidade. Ou que estes três exemplos são poucos.
Ou que o debate macro-económico é parco. O debate mais excitante nos últimos tempos opôs Luís Campos e Cunha e Miguel Cadilhe sobre a possibilidade de Portugal reunir condições económicas para recorrer a verbas comunitárias anti-cíclicas.
A verdade porém é que quando o Fernando Alexandre refere a profusão de estudos sobre a economia norte-americana, estes estudos dizem em geral respeito a toda a economia. São menos os estudos que se dedicam exclusivamente por ex. ao 10º Distrito da Reserva Federal. E por isso eu fico com esperança que sejam cada vez mais os economistas portugueses que se dedicam a estudar a economia da zona do euro no seu todo e a publicarem esses seus excelentes trabalhos. Porque o que mais gostaria de ver era economistas portugueses a discutirem em público, a qualidade da actual política monetária do BCE, sobre as condições macro-económicas em que se processou a entrada na zona do euro, sobre as perspectivas inflacionistas actuais na Europa, etc.
Obrigado.
Comment by F — June 3, 2008 @ 10:49 pm
[Faltou copiar no comentário anterior.]
Tal como o Fernando e o Luís têm vindo a propôr. Que se discuta também como combater o desemprego em Portugal e no resto da Europa, como aumentar a eficiência do ensino em Portugal, como financiar o Estado em Portugal.
Comment by F — June 4, 2008 @ 12:44 am
«Mas há ainda uma terceira condição necessária: financiamento que permita uma independência efectiva dessas instituições.»
Sendo pessimista por natureza, colocaria antes a questão nestes termos: o financiamento dos “think tanks” é que faz com que estes não sejam, demasiadas vezes, entidades independentes. E há muitos TT por aí cuja função é, não estudar e analisar a realidade, mas sim FABRICÁ-LA, ao serviço de certos interesses. Estarei a exagerar?…
Comment by DK — June 4, 2008 @ 9:26 am
O problema do financiamento, e da dependência de interesses que tal gera, é um problema difícil de superar, especialmente num pequeno país.
Comment by LA-C — June 4, 2008 @ 9:44 am
Caro F,
agradeço muito os seus comentários aos meus postes - são sempre motivo de reflexão.
A nossa discordância resulta certamente do que entendemos ser um think tank. O Banco de Portugal é uma instituição pública muito respeitável e produz, sem dúvida, as mais importantes análises sobre a economia portuguesa. Mas não é um think tank.
Os gabinetes de estudos de grandes empresas e consultoras também não. As sua análises obedecem, e muito bem, aos interesses dos clientes.
Ainda bem que menciona o recente debate entre Luís Campos e Cunha e Miguel Cadilhe. A proposta de Miguel Cadilhe implica conhecer o produto potencial da economia portuguesa. Conhece algum estudo público ou publicado sobre essa questão?
Obrigado mais uma vez pelos seus comentários.
Comment by Fernando Alexandre — June 4, 2008 @ 1:11 pm
Concordo com o comentário do Luís ao comentário da Daniela. Portugal é um país muito pequeno. Mas é importante referir que a independência também é uma questão mental.
Comment by Fernando Alexandre — June 4, 2008 @ 1:14 pm
Concordo em absoluto.
E porque recusamos a ideia de think tanks regionais? Creio que dada a macrocefalia lisbonense se justificaria plenamente um ‘tanque’ destinado a compreender a economia do Norte de Portugal. O exemplo lombardo aqui afigura-se determinante, com o exemplo do grupo de economistas da torre Pirelli. Mas Barcelona tambem tem os seus tanques, julgo que os bascos tambem etc. Errar na escala relevante do desenvolvimento pode ser o primeiro pilar da cepa torta: a Casa da India encontra-se na bancarrota desde 1580, mas insistimos em ver Portugal da Capital…
Comment by L. — June 4, 2008 @ 2:44 pm
O embrionário think-tank começa a emergir em http://dadonoar.blogspot.com
Comment by O Agitador — June 5, 2008 @ 12:03 am
Caro Fernando Alexandre,
Tem toda a razão. A reflexão mais ponderada ter-me-ia certamente levado a excluir duas das instituições que indiquei. Que são centros respeitados de análise da economia portuguesa mas não “vestem” o traje habitual dum “think tank” privado e sem fins lucrativos. Nesta base, penso que a organização orientada pelo Senhor Doutor Ernâni Lopes é possìvelmente a única a passar o teste. Não há mais.
Mas este desapontamento obriga-me a levantar a questão: quais são os “think tanks” por ex. europeus que o Fernando Alexandre tem em mente? Porque vejo-me a pensar no Reino Unido e não consigo encontrar muitos exemplos. Só com alguma benevolência se pode aceitar que o Institute of Fiscal Studies (IFS) ou o National Institute of Economic and Social Research sejam independentes, e que o trabalho do Institute of Economic Affairs seja mais do que organizar conferências. E nos restantes países europeus desconheço de todo.
Sobre a sua inquirição relativa ao PIB potencial português, aqui vai a referência do trabalho de Vanda Almeida e Ricardo Félix no Boletim Económico do Banco de Portugal de Outubro de 2006:
http://www.bportugal.pt/publish/bolecon/docs/2006_3_1_p.pdf .
Obrigado.
Comment by F — June 5, 2008 @ 12:08 am
F, esse estudo estima o PIB potencial português usando filtros estatísticos, o que é uma ferramenta útil , mas é especialmente útil para estudar o ciclo económico e não o produto potencial. Enquanto medida da capacidade produtiva portuguesa é, quer se queira quer não, bastante fraca.
Também tentam estimar o produto usando um pequeno modelo estrutural. Aí falta-lhes a variável essencial: o staock de capital. Usam aproximações para o estimar, mas a verdade é que não há dados para o stock de capital. E essas aproximações que usam são altamente sensíveis aos pressupostos iniciais. Ou seja, dificilmente o exerício que os autores fazem (que é obviamente útil em termos académicos) pode ser usado para fundamentar as opiniões de Campos e Cunha ou de Miguel Cadilhe.
P.S. Caro F, só mais uma coisa, este post do Fernando não é tanto sobre a falta de Think Tanks, mas mais sobre a falta de investigação académica sobre a Economia portuguesa. Os assuntos ficaram um pouco misturados nos comentários, mas na entrada principal é claro o objectivo do Fernando.
Comment by LA-C — June 5, 2008 @ 7:38 am
Meus Caros,
As minhas desculpas pela pouca utilidade nesta circunstância da referência sugerida. Confesso que havia lido há algum tempo e ter gravado na memória ser o primeiro artigo com aplicação a Portugal. O comentário do Luís “aperta” a pesquisa para os artigos que calculam o produto potencial a partir duma função de produção nacional. Que desconheço.
A questão do Fernando é porém muito oportuna em vista da notícia avançada pelo DE onde se refere que “entre 2002 e 2009 o crescimento potencial português nunca foi atingido”, segundo os dados de ontem da OCDE (deve haver alguém na OCDE que tenha os dados que o Fernando procura).
Esta notícia não é surpreendente. Mas para mim continua a surpreender-me. Porque quem se habitua ver as coisas da economia do lado dos mercados financeiros, recorda-se da queda abrupta das taxas de juro “naturais” dos países candidatos à entrada na zona do euro, entre 1995 e 2000. Que no caso de Portugal se pode “interpretar” como resultado do desaparecimento do prémio de risco associado à taxa de câmbio e da redução do prémio de risco do incumprimento soberano enquadrado na coordenação das políticas orçamentais. E por tanto continua a surpreender-me a forma como esta queda da taxa de juro “natural” em Portugal acabou por ver-se seguida de baixos crescimentos cada vez mais afastados do potencial que lhes deve estar “naturalmente” muito acima.
Mas mantém-se viva a minha esperança de que a eliminação desta diferença se faça através do aumento dos crescimentos e não da diminuição do potencial. Que é o maior risco que corre o país com um pobre em cada cinco habitantes.
Obrigado.
Comment by F — June 5, 2008 @ 11:06 am
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/edicion_impresa/economia/pt/desarrollo/1131514.html .
Comment by F — June 5, 2008 @ 11:08 am
E já agora, qual o futuro de um recém licenceado que encare a economia como uma ciência e se queira dedicar inteiramente a ela? Ou concorre a uma vaga no Banco de Portugal, que continua a ter como critério determinante as médias de final de curso (critério quanto a mim demasiado limitativo, obsolescência comprovada pelo facto de as grandes empresas privadas cada vez se guiarem mesmo pelas médias na seleção dos seus colaboradores recém licenceados), ou se dedica a fazer um mestrado, e posterior doutoramento, e a tentar dar aulas para poder sustentar a prática de investigação na área?
Parece-me limitativo, e no mínimo arriscado. E eu que penso mesmo em arriscar, gostava de ter melhores perspectivas.
(Também acho que o facto de não existirem este think tanks é uma deficiência da economia em Portugal, mas tendo os comentários já abordado o tema, pareceu-me mais pertinente aborda-lo de uma perspectiva mais egoísta e pessoal.)
Comment by Kordny — June 8, 2008 @ 7:29 pm